Os Estados árabes poderiam libertar os palestinos hoje
Leia estas palavras importantes do comentarista iraquiano Ibrahim Musa:
Por oitenta anos, governos árabes falaram sobre “libertar a Palestina”, mas existem palestinos que poderiam ter sido libertados há muito tempo com um simples golpe de caneta: os palestinos que vivem dentro de nossos próprios países árabes. Os Estados árabes poderiam libertar os palestinos hoje.
Poucos percebem que, em vários Estados árabes vizinhos, os palestinos têm sido privados de cidadania por décadas e proibidos de exercer diversas profissões.
Sim — pode surpreender —, mas palestinos no Egito, Síria e Líbano não conseguem obter cidadania há muitas décadas. Essa é uma política deliberada. Talvez fizesse sentido nos primeiros anos, mas depois de oito décadas, torna-se algo totalmente diferente.
No Líbano, a situação é ainda mais dura: os palestinos são proibidos de trabalhar em dezenas de profissões — medicina, engenharia e muitas outras. Setenta e duas profissões são proibidas para palestinos no Líbano. O que é isso, senão apartheid? Apartheid imposto por árabes contra outros árabes.
Qual é a diferença entre Burj al-Barajneh (município no subúrbio de Berute) e al-Baddawi (“campo de refugiados” criado no norte do Líbano em 1955) e os antigos bantustões?
E por que o Hezbollah — que opera acima da lei no Líbano há anos e comanda uma força mais forte que o Exército libanês — nunca “libertou” os palestinos que vivem sob essas restrições?
Enquanto isso, a ironia não poderia ser maior: em Israel, onde ativistas procuram “apartheid” com uma lupa, dois milhões de árabes são cidadãos plenos, recebem subsídios completos para estudos de medicina e, como resultado, muitos médicos são árabes.
Na Síria, historicamente os palestinos gozavam de direitos semelhantes aos cidadãos, mas mesmo ali lhes foi negada a cidadania. Pense nisso: sessenta e dois anos de governo do Partido Baath — nossos autoproclamados pan-arabistas — e, ainda assim, recusaram-se a conceder cidadania aos árabes que viviam em seu meio. Onde exatamente está esse “pan-arabismo”? Vou perguntar ao Assad quando visitar minha datcha em Rublyovka.
Então, o que tiramos de tudo isso?
Em 1947, o plano de partilha da ONU previa dois Estados: Israel e Palestina, sendo que à Palestina foi atribuída uma área muito maior do que as linhas de 1967 que esses mesmos Estados árabes exigem hoje.
Mas nós recusamos aceitar um Estado judeu — por razões que pareciam lógicas na época — e o resultado? Perdemos a primeira guerra, perdemos terras palestinas e criamos o problema dos refugiados.
Logo depois, o “grande” rei jordaniano simplesmente anexou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental para se elevar como “Guardião de al-Aqsa.” Ele incorporou a terra ao seu reino, não criou nenhum Estado palestino, não consultou os palestinos, nada. Sim, concedeu cidadania — mas somente porque conquistou o território.
Passaram-se dezoito anos — até a Guerra dos Seis Dias — e nenhum Estado palestino surgiu.
Certo, perdemos. Acontece. Mas o que impediu alguém de estabelecer um Estado palestino durante esses dezoito anos? Nada.
Ainda assim, os regimes árabes emitiram algumas condenações fracas e seguiram em frente.
Em 1967, perdemos o que restava dos territórios palestinos. Só depois “lembramos” que queríamos um Estado palestino, criamos a OLP e nos alinhamos atrás de Arafat.
Em outras palavras:
Perdemos terras palestinas em duas guerras — terras que, segundo a ONU, deveriam ser deles — e então nos voltamos aos palestinos e dissemos: “Agora vocês recuperam o que nós perdemos por vocês!”
Em 1973, Egito e Síria lutaram para recuperar suas próprias terras — Sinai e Golã. No fim, o Egito recuperou o Sinai por meio de negociações; a Síria não recuperou nada.
Então, onde isso nos deixa?
Perdemos as terras palestinas, não criamos um Estado palestino, transferimos o fardo para os próprios palestinos, criamos refugiados de segunda e terceira geração vivendo em nossos países sob severas restrições — e então acusamos os sionistas de apartheid e exigimos um Estado palestino baseado nas linhas de 1967, que nós mesmos nunca nos preocupamos em estabelecer quando isso era simples.
Portanto, talvez — antes de qualquer outra coisa — devêssemos libertar os palestinos que vivem em nossos próprios países.
(publicado por Carmel News)
Imagem: foto no campo de Al Baddwi, divulgação da UNRWA. Segundo a agência, existem 12 “campos de refugiados” palestinos no Líbano.

