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Dia do Nunca Mais, que nunca deu certo

Neste 27 de janeiro, Dia Em Memória às Vítimas do Holocausto (data definida pela ONU, no dia da libertação do campo de concentração, extermínio e trabalho escravo de Auschwitz pelas tropas soviéticas), muita gente vai repetiu o moto “Nunca Mais”, com a certeza de estar dizendo exatamente o que deveria ser dito. Mas “Nunca Mais”, ou melhor “Never Again, Nunca Novamente”, não é a frase original relacionada aos judeus e ao Holocausto.

Em minha opinião pessoal, enquanto o mundo diz ‘Nunca Novamente’, no Brasil diz-se ‘Nunca Mais’, e são coisas diferentes. Mas estamos na terra onde o “Não Assassinarás” da Torá virou “Não Matarás”. São ações diferentes. Novamente dá o sentido de que já aconteceu e não se pode permitir a repetição.

A primeira vez que Never Again foi impresso está no cartão postal  que é a imagem principal desta postagem. Foi em 1912, portanto dois anos antes da Primeira Guerra Mundial, que seria conhecida, no tempo dela, como “A Grande Guerra”.

O Kaiser Guilherme II da Alemanha (uniforme escuro) e o Rei Jorge V do Império Britânico (ao seu lado esquerdo) posam juntos em 1912. O rei está em visita ao seu primo na Alemanha e, como era o costume, cada monarca veste o uniforme de um dos regimentos do outro: George está no dos Foot Guards alemão; o kaiser no dos Dragões Reais Britânicos. A foto foi tirada na frente do refeitório da Foot Guard Prussiana em Berlim, com oficiais do regimento e oficiais britânicos. O Nunca Novamente ali era para determinar que britânicos e alemães não iriam se combater novamente. Durou menos de dois anos.

Em 1918, o Sindicato do Império Britânico publicou seu pôster “Never Again”, mostrando as atrocidades alemãs da guerra de 1914-1918, conclamando a não comprar produtos alemães e a não empregar alemães. A ideia era não permitir que a Alemanha crescesse e voltasse a praticar atrocidades. Desta vez durou mais: 30 anos.

Em 1924, a artista alemã Käthe Kollwitz (1867-1945) expôs o pôster “Never Again War (Nie wieder Krieg)”, Nunca Novamente a Guerra. A intenção dela era chamar a atenção para a morte de seu filho no campo de batalha, logo no início, ainda em 1914, aos 18 anos de idade, e também, de todos os outros filhos. De lá para cá, os filhos não pararam de morrer em guerras no mundo inteiro. Kollwitz era uma socialista e pacifista comprometida, que eventualmente se atraiu pelo comunismo. Com a ascensão de Hitler ao poder, ela foi demitida da universidade e todas as obras dela foram removidas de museus e galerias. Morreu 16 dias antes do final da guerra.

Em 1927, Yitzhak Lamdan (1897-1954) lançou o poema em hebraico, “Masada: Uma Épica Histórica”, que retrata a luta dos judeus para sobreviver em um mundo repleto de adversários. Nesse contexto, Masada era percebida tanto como um símbolo da Terra de Israel e da empreitada sionista quanto como um possível refúgio, porém também como uma armadilha fatal. No texto, temos: “Never again shall Masada fall!”, Nunca, novamente, Masada irá cair! Foi o primeiro registro sobre o Never Again ter sido usado por judeus.

Em 1971, o rabino Meir Kahane lançou o livro “Never Again; A Program for Survival”, “Nunca Novamente: Um Programa para Sobrevivência”, onde justificava atos de violência contra antissemitas, pessoas e grupos que pretendessem matar judeus. Jabotinsky foi o primeiro a sacudir o “passivismo judaico” criado após a queda do Segundo Templo e Kahane foi o segundo. Enquanto o primeiro pregava a organização da defesa judaica nas comunidades e depois no país, o segundo entendia que a maior parte da violência antissemita ocorria, ocorre e ocorrerá, quando o judeu estiver sozinho.

Portanto, os judeus deveriam andar armados (legalmente, nos EUA, o que era relativamente simples nos anos setenta). Duas frases muito emblemáticas do livro: “Every Jew a Twenty Two”, Cada Judeu com uma (pistola) 22 LR, e a mais importante de todas “Never Again The Jews Will Go to Death Without Reaction”, Nunca, Novamente, Os Judeus Irão Para a Morte Sem Reagir”. Kahane foi assassinado numa calçada de Nova Iorque, por um palestino. Não teve como reagir.

Nunca mais, é isso: não nos levarão novamente para a morte sem que reajamos!

Mas é algo muito politicamente incorreto para declarar em alto e bom som, nos eventos.
E Israel é assim, desde o primeiro dia de sua independência, e os canalhas, no século 21, estão gritando que os judeus não têm o direito de se defender como estivéssemos no século 19!

Ah, é claro, desde o primeiro “Nunca Mais” de 1912, as guerras e os massacres nunca cessaram. Sempre existiram os defensores do “Muito Mais” e estamos vivendo um momento destes no Irã.

por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.