Se o Irã atacar o reator de Dimona o risco de fallout radioativo é nulo
Nesta semana o Irã tentou atacar o reator nuclear de Dimona, no Negev, com quatro mísseis. Dois foram abatidos e dois atingiram duas cidades: Dimona, homônima que fica 10 km ao noroeste do complexo do reator nuclear e Arad a longos 30 km ao norte do complexo. Esta é a precisão dos mísseis iranianos. O melhor, errou não o alvo, mas a área enorme onde o alvo se localiza, por 10 km. É impossível para os iranianos acertarem um alvo determinado.
Ainda assim vamos nos acalmar e entender porque um ataque iraniano à cúpula de Dimona não tem risco de de gerar um fallout radioativo como o de Chernobil.
Se o Irã conseguir atingir a cúpula do reator nuclear de Dimona, no sul de Israel, o impacto seria, acima de tudo, simbólico e psicológico — e não uma catástrofe radioativa. Essa é a avaliação consensual de especialistas nucleares israelenses, que desconstroem o medo de uma “Chernobyl no deserto” e explicam, com base na física e na engenharia do local, por que o perigo de contaminação radioativa seria mínimo ou inexistente.
O reator de Dimona, localizado no Centro de Pesquisa Nuclear Shimon Peres, no Negev, é um pequeno reator de pesquisa estimado em cerca de 150 megawatts. Para comparação, o reator de Soreq, perto de Yavne, tem apenas 5 megawatts. Ambos são incomparavelmente menores que os reatores comerciais de energia, que operam na casa dos 1.000 megawatts ou mais. Dimona não é uma usina elétrica ativa; trata-se de uma instalação subterrânea dedicada a pesquisa e, segundo relatórios estrangeiros, à produção de material físsil (plutônio) para fins militares. Israel nunca confirmou oficialmente possuir armas nucleares e mantém que o complexo serve apenas a propósitos de pesquisa e energia.
O que torna Dimona diferente de uma usina “perigosa”
Ori Nissim Levy, presidente do Fórum Nuclear Mundial e professor no Afeka Academic College of Engineering, explica com clareza: “O que é mais perigoso bombardear é um reator nuclear ativo usado para produção de energia. Isso não existe em Israel.” Reatores como o de Bushehr, no Irã, ou os de França, Estados Unidos e Canadá, carregam grandes quantidades de combustível fresco e, principalmente, de combustível gasto — o material mais radioativo do ciclo nuclear. Em Dimona, o volume de combustível é muito menor e o reator não opera como uma usina comercial.
Mesmo em caso de impacto direto na cúpula ou no reator subterrâneo, a liberação radioativa seria extremamente localizada. Segundo Levy, qualquer vazamento afetaria, no máximo, um raio de algumas centenas de metros, dependendo do tamanho da explosão do míssil. A contaminação ficaria restrita a uma área interna da instalação onde, em tempo de guerra, não haveria funcionários presentes. “O dano radiológico seria muito localizado, ao contrário do que ocorreu em Chernobyl (1986) ou Fukushima (2011). Não vai ser uma catástrofe em massa porque existe uma diferença fundamental entre reatores de energia grandes e ativos e o que temos aqui”, afirma o especialista.
Proteções técnicas e operacionais reforçam a segurança
O complexo de Dimona é um dos locais mais protegidos de Israel: defesas ativas (sistemas Arrow-2, Arrow-3 e Domo de Ferro) e passivas (estrutura subterrânea reforçada) reduzem drasticamente a chance de penetração. Os mísseis do Irã explodem ao contato e o país não possui nenhum tipo de arma penetradora de bunker, como as americanas e israelenses, que poderiam perfurar a cúpula e explodir lá dentro. Em cenário de conflito, o protocolo padrão em instalações nucleares é reduzir ou interromper as atividades, o que diminui ainda mais a gravidade de qualquer dano. Israel mantém sensores de radiação de alta precisão que permitiriam avaliar imediatamente o nível real de contaminação e decidir se uma evacuação — provavelmente limitada a um raio de um quilômetro — seria necessária.
Importante: mesmo que Israel possua armas nucleares (o que nunca foi confirmado), elas quase certamente não estão armazenadas em Dimona. O local é de produção, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, não de estoque de artefatos prontos. E, mesmo que um artefato nuclear fosse atingido, uma explosão externa não o detonaria. Bombas de urânio, plutônio ou hidrogênio exigem uma sequência interna extremamente precisa e complexa para detonar — algo que um míssil iraniano não consegue reproduzir.
O verdadeiro “perigo” é simbólico e estratégico
Zaki Shalom, pesquisador sênior do Misgav Institute for National Security & Zionist Strategy, resume o ponto central: “O significado principal de um ataque ao reator não estaria no perigo físico, mas em uma grande conquista psicológica e simbólica para o Irã.” Um acerto em Dimona representaria uma humilhação para o sofisticado sistema de defesa israelense, construído ao longo de décadas com investimentos bilionários. Shalom avalia que, nesse caso, Israel responderia de forma “excepcional”, possivelmente mirando usinas elétricas iranianas ou escalando o conflito para além do que já ocorre.
O reator já é alvo declarado de ameaças iranianas e de seus proxies (Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica) há anos. Em 2018, o então chefe da Comissão de Energia Atômica de Israel, Ze’ev Snir, reconheceu publicamente que o país reforçava Dimona justamente por causa das ameaças explícitas do Irã e de seus aliados.
Medo radioativo é infundado
Baseado nas características técnicas do reator de Dimona — pequeno, não comercial, com pouco combustível e altamente protegido —, um eventual ataque iraniano à sua cúpula não geraria um desastre radioativo de proporções regionais. O risco real é outro: o golpe no prestígio israelense e a possibilidade de uma resposta militar israelense de grande escala. O “fallout” mais temido seria político e estratégico, não atômico.
Por José Roitberg, com informações do The Times of Israel.
Imagem ilustrativa criada por IA baseada em foto real do ano 2000 da cúpula do reator de Dimona.

