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Iraque dá ultimato a milícias pró-Irã: ou desarmam até 30 de setembro, ou viram alvo da Justiça

O governo iraquiano resolveu colocar uma data no calendário para encerrar um problema que se arrasta há anos: as milícias pró-Irã terão até 30 de setembro para entregar as armas. A data não foi escolhida ao acaso — é também quando a missão da coalizão internacional liderada pelos EUA contra grupos jihadistas no país chega ao fim.

Quem deu a notícia foi o porta-voz do governo, Haidar al-Aboudi, durante a coletiva semanal de imprensa nesta segunda-feira. Segundo ele, todos os grupos armados já foram informados de que essa data marca o fim definitivo da questão do desarmamento. E o recado para quem ainda hesitar foi direto: depois do prazo, qualquer armamento fora do controle do Estado vai parar nas mãos da Justiça.

O timing não é coincidência. O anúncio chega bem antes de uma visita do novo primeiro-ministro, Ali al-Zaidi, aos Estados Unidos — e Washington tem cobrado pessoalmente de Bagdá que as facções realmente entreguem as armas, sem meio-termo.

Duas cajadadas diferentes em quatro dias

No sábado, durante a madrugada surgiram vídeos de Bagdá com forte movimentação de tanques de guerra, blindados e transportes de tropas na cidade. Parecia estar em andamento um golpe militar. No domingo, uma surpresa: visita oficial Aragchi, do Irã ao primeiro ministro iraquiano, com honras de chefe-de-estado e visita oficial ao memorial onde o general Suleimani foi morto pelos EUA no primeiro governo Trump.

A então vieram duas notícias antagônicas. O Hezbollah disse e deu os nomes, de que teriam sido presos pelos militares 15 políticos iraquianos leais ao Irã. A Al Arabya publicou que eram 15 políticos iraquianos contrários ao Irã. E isso não foi esclarecido até terça-feira 30/jun.

Parecia que o governo do Iraque estaria se posicionando contra o Irã, depois, com Aragchi, a favor do Irã e dois dias depois, com esta determinação, novamente contra o Irã e contra os xiitas locais. Impossível avaliar o que de fato está acontecendo.

Qual é a importância do Iraque para o Irã?

Como país, nenhuma. Como base teológica, total. É no sul do Iraque, área onde quase a totalidade da população é xiita, que estão os locais onde o xiismo se formou no século 7. Inclusive é onde está o túmulo de Ali (xiita, é xiat Ali, seguidores de Ali), a maior e mais rica mesquita do mundo. Ao Irã interessa que o sul do Iraque seja incorporado ao território do Irã.

 

Esta é a Mesquita da Ali, na cidade de Najaf, no Iraque. O que você está vendo dourado é um revestimento com lajotas finas de ouro mesmo. É impressionante.

O fortalecimento do Hezbollah do Iraque e outras milícias xiitas locais que receberam muito armamento e treinamento para combates o ISIS no norte do país, anos atrás, parecia indicar a possibilidade de uma ação separatista, surgindo Iraque do Sul e Iraque do Norte. Mas isso não aconteceu. Com a decisão de desarmar os xiitas, o governo do Iraque vai impedir que isso aconteça ou precipitar o acontecimento.

É improvável que os xiitas no Iraque entreguem as armas. Lá eles tem tanques, Hummers blindados (na foto), caminhões militares de transporte de tropas e artilharia. Muito diferente do Hezbollah no Líbano, além de drones, é claro.

Dias atrás

Um comboio de caminhões de transporte com modernos veículos blindados de transporte de tropas norte-americanos foi fotografado cruzando a fronteira da Jordânia com o Iraque e nada mais surgiu sobre isso.

Um problema que vem desde 2003

As milícias pró-Irã são um capítulo antigo da política iraquiana. A maioria nasceu logo depois da invasão americana de 2003 e ganhou ainda mais força e prestígio durante o combate ao Estado Islâmico, a partir de 2014. Com o tempo, viraram peças-chave tanto no tabuleiro político quanto financeiro do país — e sempre defenderam a saída das tropas americanas, chegando a atacar bases dos EUA repetidamente.

Durante a recente guerra no Oriente Médio, esses grupos atuaram em apoio a Teerã, mirando instalações americanas no Iraque mais de 600 vezes, além de atingir alvos em países do Golfo. Os EUA revidaram com ataques próprios e, mais tarde, passaram a segurar repasses de receitas do petróleo iraquiano — dinheiro que fica depositado em grande parte no Federal Reserve de Nova York, fruto de um acordo firmado após a invasão.

Em maio, Washington sinalizou que estava disposto a destravar essas transferências e retomar a cooperação em segurança, mas só depois de ver “passos concretos” contra as milícias.

O premiê reforça o discurso

Em encontro com embaixadores europeus na segunda-feira, Zaidi — que assumiu o cargo recentemente com aval de Washington — fez questão de frisar que concentrar as armas nas mãos do Estado não é apenas um discurso bonito, mas uma política que já está sendo colocada em prática. Ele reafirmou o compromisso do governo com esse rumo, especialmente porque as forças da coalizão devem concluir a retirada até o fim de setembro.

Vários políticos influentes do Iraque também já se manifestaram a favor de que apenas o Estado detenha o monopólio das armas no país.

Nem todo mundo está convencido

A reação das milícias é dividida. Algumas já sinalizaram disposição para cooperar e entregar o armamento ao Estado. Outras, no entanto, seguem irredutíveis e argumentam que a questão não deveria sequer ser discutida sob pressão americana.

No fundo, é mais um episódio da longa novela em que o Iraque tenta equilibrar-se entre Irã e Estados Unidos — dois aliados importantes para Bagdá, mas que são inimigos declarados entre si.

por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.