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‘Fauda’ avisa: os próximos episódios vão doer

Pela primeira vez na história da série, os produtores de “Fauda” decidiram fazer algo inédito: alertar o público antes de soltar dois episódios. Os capítulos 7 e 8 da quinta temporada recriam o ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, e a produtora avisou que o conteúdo pode ser pesado demais para alguns espectadores.

Em nota nas redes sociais, a Yes, estúdio responsável pela produção, fez um gesto raro: disse que os episódios revivem aquele dia terrível e funcionam de forma independente dentro da trama, e que quem achar a experiência difícil demais pode simplesmente pular essa parte e voltar à história principal na semana seguinte, sem perder o fio da narrativa.

Dado o peso simbólico desses dois episódios, eles foram liberados de graça para todo o público em Israel no site da Yes — uma decisão pouco comum para uma série que normalmente cobra assinatura.

Uma temporada que teve que ser reescrita

A quinta temporada estreou há algumas semanas em Israel e deve ser a última da franquia (ainda não há data para chegar à Netflix). O que pouca gente sabe é que os criadores Lior Raz e Avi Issacharoff tiveram que reescrever boa parte do roteiro depois do 7 de outubro — não só por causa da guerra que se seguiu entre Israel e o Hamas em Gaza, mas pelo que o próprio elenco e equipe viveram na pele.

O ator Idan Amedi, que esteve nas temporadas 2, 3 e 4 e estava cotado para a versão original da temporada 5, ficou gravemente ferido numa explosão enquanto servia como reservista do Corpo de Engenharia de Combate em Gaza, em janeiro de 2024. Ele se recuperou, mas não aparece na nova temporada.

Já um veterano da equipe técnica, Matan Meir, morreu num atentado com um túnel armadilhado perto de uma mesquita em Beit Hanoun, no norte de Gaza, em dezembro de 2023. O primeiro episódio da temporada foi dedicado a ele.

O próprio Raz, protagonista da série, estava fora de Israel no dia do ataque e voltou correndo no dia seguinte para se juntar aos voluntários da organização Brothers in Arms, que montou um centro de comando para resgatar pessoas presas no sul do país sob fogo pesado.

A trama: dois anos depois

A história agora se passa dois anos após o 7 de outubro, mostrando como os personagens lidam com o trauma e o choque que ficaram. No primeiro episódio, Eli (Yaakov Zada-Daniel) e o rastreador beduíno Salem (Bian Anteer) viajam até Marselha para caçar operativos do Hamas que destruíram suas famílias naquele dia — e contam com a ajuda de Anne, personagem interpretada pela atriz francesa Melanie Laurent (de “Bastardos Inglórios”). Steve (Doron Ben-David) e Doron Kavillo (o próprio Lior Raz) entram depois na caçada, e fica claro que também carregam marcas daquele dia: Kavillo, inclusive, não consegue lembrar de um trecho inteiro de horas vividas em 7 de outubro.

Filmada no sul de Israel e em Budapeste, a temporada também toca no sentimento antiguerra e antissraelense que cresceu fora do país.

Os episódios que todo mundo esperava — e temia

Até o episódio 6, o público fica na expectativa para entender o que realmente aconteceu com a equipe de agentes naquele dia. É só nos episódios 7 e 8 que a resposta chega — e ela é dura. Como prometido pelos produtores, são cenas intensas, traumáticas e bastante fiéis ao que se sabe sobre o ataque, vistas pelos olhos dos próprios agentes disfarçados que compõem o elenco da série.

Raz e Issacharoff tiveram a vantagem (e o peso) de escrever já sabendo o que houve naquele dia: milhares de terroristas do Hamas romperam a cerca na fronteira e invadiram Israel, matando cerca de 1.200 pessoas e levando 251 reféns — adultos e crianças — de kibutzim, bases militares e da festa rave Nova no deserto, rumo a Gaza. Os episódios recriam boa parte disso: os ataques aos kibutzim, a fuga desesperada dos participantes da rave entre campos e trilhas, e os esforços da polícia, do exército e de unidades especiais para tentar conter o avanço.

Há uma sensação de incredulidade genuína na forma como Doron, Eli e Steve reagem à invasão — agentes que, em tese, já tinham “visto de tudo” na profissão. E talvez a cena mais perturbadora da dupla de episódios seja a de um grupo de terroristas que invade a casa de uma família num kibutz e passa horas tentando forçar a saída dos moradores, queimando a porta do quarto-seguro pouco a pouco.

Entre as muitas representações do Hamas já feitas em cinema e TV, os episódios de “Fauda” se destacam por uma camada de autenticidade pessoal — afinal, Raz e Issacharoff construíram a carreira baseando o roteiro em suas próprias experiências como agentes disfarçados.

A recepção da crítica e do público tem sido dividida: parte da mídia israelense elogiou atuações e fotografia, enquanto outra parte considerou o roteiro fraco e as imagens excessivamente dolorosas. Já nas redes sociais, os espectadores israelenses reagiram de forma majoritariamente positiva, destacando o realismo da temporada — muitos pedindo, inclusive, que a série seja traduzida para vários idiomas, para que o mundo entenda o que aconteceu em 7 de outubro.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.