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Katz: “Não vamos sair nem um milímetro” do Líbano enquanto o Hezbollah não for desarmado

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, fez questão de deixar claro nesta segunda-feira: Israel não tem ambições territoriais sobre o Líbano, mas também não pretende sair de lá enquanto o Hezbollah continuar armado. A frase resume bem o clima da semana, marcada por avanços diplomáticos e, ao mesmo tempo, por trocas de ataques na fronteira.

A declaração de Katz coincidiu com a visita ao Líbano do comandante do Comando Central dos EUA (CENTCOM), almirante Brad Cooper, que se reuniu tanto com o presidente libanês quanto com o chefe das Forças Armadas do país. O encontro acontece poucos dias depois de Jerusalém e Beirute assinarem um acordo de diretrizes para encerrar o conflito entre os dois lados — pacto que tem sido duramente criticado pelo Hezbollah e seus aliados.

Pelo texto divulgado pelo Departamento de Estado americano, o Líbano se compromete a restaurar a soberania sobre seu território por meio do desarmamento verificado de grupos armados não estatais, o que abriria caminho para uma retirada israelense gradual. O presidente libanês, Joseph Aoun, afirmou nesta segunda que o exército do país pretende avançar até a fronteira com Israel como parte do esforço para afastar o Hezbollah da região.

Bombardeios continuam apesar do acordo

Enquanto a diplomacia avança, o terreno segue tenso. Israel voltou a atacar alvos do Hezbollah no sul do Líbano durante a madrugada, numa resposta, segundo as Forças Armadas israelenses (IDF), a ataques do grupo contra suas tropas na região. Separadamente, um soldado da reserva ficou gravemente ferido numa explosão na área nesta segunda-feira.

Em entrevista a jornalistas, Katz disse que é improvável que o exército israelense se retire de outras áreas do sul do Líbano além dos dois pontos já combinados num programa-piloto que transferirá o controle ao exército libanês. Segundo ele, ninguém deveria “ficar esperando” pela próxima retirada, porque ela simplesmente não vai acontecer até que o Hezbollah seja desarmado.

O ministro afirmou que esse princípio foi aceito pelos Estados Unidos e está formalizado no anexo militar do acordo entre Israel e Líbano. Ele também revelou que, num encontro recente com o almirante Cooper, os dois concordaram que o exército israelense não vai se retirar das três “zonas de segurança” — no Líbano, na Síria e em Gaza.

Katz disse ainda não acreditar que o exército libanês vá, de repente, “virar leões avançando contra o Hezbollah” — por isso, segundo ele, a presença israelense no território deve ser de longo prazo. Ele confirmou também que Israel tentou recentemente convencer o exército libanês a entrar na região da Crista de Ali Taher, onde o Hezbollah mantém um grande sistema de túneis, mas que os libaneses se recusaram.

“Se não fosse a pressão americana…”

A parte mais reveladora da entrevista, porém, foi quando Katz afirmou que, não fosse a pressão dos Estados Unidos, o exército israelense teria provocado o colapso do Hezbollah no Líbano. Segundo ele, havia um plano de campanha aérea “massiva” que teria desmantelado o grupo — que, nas palavras do ministro, estava “implorando aos iranianos que o salvassem”.

Katz atribuiu o freio ao presidente americano Donald Trump, que vinculou as negociações entre EUA e Irã à situação no Líbano. Segundo o ministro, quando Trump fez essa ligação, Israel teve que parar de “derrubar prédios em Beirute”, mas seguiu realizando “ataques cirúrgicos” contra o grupo na capital libanesa. Katz disse lamentar essa condição, mas reconheceu que atendia a um interesse americano de avançar nas negociações com o Irã — e completou que toda parceria traz vantagens, mas também certas restrições.

Foi por isso, segundo ele, que Israel migrou para o chamado “plano B”: as operações ao norte do rio Litani e a expansão da zona de segurança no sul do Líbano ao longo do último mês, realizadas, segundo Katz, com aval americano.

Tensão com o Irã também segue no radar

Sobre o Irã, Katz alertou que, se o país disparar mísseis balísticos contra Israel em resposta às ações no Líbano, o exército israelense vai reagir — e está se preparando para agir de forma independente, caso necessário. Segundo ele, isso “pode acontecer até em dois dias”. Katz garantiu que Israel já tem alvos definidos no território iraniano e que as forças estão em alerta, mas reforçou que não pretende interferir no caminho que o presidente americano decidir seguir em relação a Teerã.

O ministro mencionou ainda que o exército israelense tem “mais túneis para destruir”, incluindo um grande sistema subterrâneo do Hezbollah sob a Crista de Beaufort, que segundo ele será demolido com 500 toneladas de explosivos.

Do lado libanês, resistência ao acordo

Enquanto isso, o Hezbollah continua atacando publicamente o acordo de diretrizes entre Israel e Líbano. Em comunicado, o grupo apoiado pelo Irã disse que reserva o direito de se defender e acusou Israel de violar abertamente o cessar-fogo que vinha sendo respeitado até agora.

O presidente do Parlamento libanês e aliado do Hezbollah, Nabih Berri, também criticou duramente o pacto trilateral entre Líbano, Israel e Estados Unidos, classificando-o como um “acordo de imposições” que não garante os direitos do Líbano e afirmando que ele não será implementado da forma como está.

O Irã, simplesmente considera inválido e ilegal um acordo entre dois países soberanos: Líbano e Israel não tem direito a fazer acordo algum, pela visão xiita no Irã e dentro do Líbano. As manifestações do Hezbollah nas cidades libanesas, contra o acordo, não tiveram bandeiras do Líbano: apenas o Irã e do Hezbollah. Cartazes colocados pelo governo com a propaganda “Líbano em Primeiro Lugar” foram queimados pelo Hezbollah, pois o correto é Hezbollah em primeiro lugar.

É melhor assim

O almirante Brad Cooper, comandante do CENTECOM, dos EUA, passou quase dois dias em Beirute em encontros com o presidente Aoun e os comandantes militares. Todos sabem que para o o exército libanês fazer frente ao Hezbollah ele precisa ser rapidamente modernizado. Ainda se deslocam em blindados anfíbios M113 norte-americanos dos anos 1960, que não resistem sequer a metralhadoras .50 e precisam ser substituídos por veículos modernos imediatamente. E é isso que Brad Cooper foi resolver lá.

Foto oficial do exército libanês. À esq. o almirante Brad Cooper e à dir. o general Rodolphe Haykal.

Não é como aviões de combate. Os veículos necessários ao Líbano existem em estoques e podem ser deslocados em poucos dias para lá.

É muito melhor que o Líbano tenha soberania total sobre seu território doque tropas de Israel precisem ficar lá para impedir um exército terroristas de atuar contra israelenses. Será o grande passo para normalização das relações e inclusão do Líbano nos Acordos de Abraão, como a comunidade cristã maronita quer.

Meio deixado de lado, mas de suma importância: com a assinatura do acordo de diretrizes o Líbano reconheceu Israel e se referiu pela primeira vez ao país como “Israel” abandonando o “Entidade Sionista de Ocupação” que utilizava desde 1948. O estado de guerra entre os dois países, também foi encerrado oficialmente. Ainda estão em estado de guerra com Israel, desde 1948, a Síria e o Iraque.

por José Roitberg – jornalista e pesquisador

Imagem: soldados das FDI em alguma colina no Líbano, foto do Porta Voz das FDI.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.