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Anúncio antissionista ‘farsa’ contra visita de Herzog à Austrália inclui ‘lambedor de cu’

O ‘Conselho Judaico da Austrália’ divulgou uma lista de 1.000 judeus que supostamente se opõem à visita do presidente israelense à Austrália, após o ataque terrorista em Bondi

Uma carta aberta organizada por um grupo judaico antissionista na Austrália, que se opõe à visita do presidente israelense Isaac Herzog – e publicada em alguns dos principais jornais australianos hoje (09/fev) – inclui nomes de kapos notórios do Holocausto, um nome em hebraico que significa “lambedor de cu” e uma autoproclamada judia australiana que se descreve como alguém que acredita que “o único erro de Hitler foi parar cedo demais”.

O “Conselho Judaico da Austrália”, fundado em 2024, adota uma visão antissionista e foi criado para contestar organizações representativas de longa data na comunidade judaica australiana, como o Conselho Executivo de Judeus Australianos (ECAJ), que são sionistas.

O JCA se opôs a uma visita de Herzog à Austrália, convidando judeus e aliados a assinarem uma carta contra sua vinda.

Em uma postagem nas redes sociais na segunda-feira, o grupo afirmou: “Graças ao seu apoio, nosso anúncio de página inteira saiu no Sydney Morning Herald e no The Age hoje. Mais de 1.000 judeus e milhares de aliados assinaram nossa carta aberta para dizer que o presidente israelense Isaac Herzog não é bem-vindo aqui.”

Infelizmente para o grupo, quem examinou a lista de signatários publicada no anúncio logo encontrou o nome “Milkek Tachat”, que é gíria hebraica para “lambedor de cu”. Em seguida, foram identificados os nomes “Eliezer Gruenbaum”, “Carmen Mory” e “Josef Heiden”.

Josef Heiden, um prisioneiro político austríaco, atuou como *kapo* – um supervisor nomeado pelos nazistas – no campo de concentração de Dachau. Conhecido por sua crueldade contra outros prisioneiros, incluindo assassinatos, ele foi libertado pelos nazistas e incorporado à Waffen SS.

Eliezer Gruenbaum, um ativista comunista, foi preso pelos nazistas por suas atividades políticas, não por sua origem judaica, e se tornou *kapo* em Auschwitz, onde foi acusado de espancar prisioneiros e contribuir para a morte de dezenas de milhares de outros.

Carmen Mory, ex-jornalista do *Manchester Guardian* (que depois virou o *Guardian*), atuou como espiã suíça para os nazistas durante a guerra e, por fim, como *kapo* no campo de concentração feminino de Ravensbrück. Quando o campo foi libertado, ela cometeu suicídio para evitar julgamento e execução.

Enquanto isso, uma signatária contemporânea, Kate Emerson, escreveu no Twitter em janeiro de 2024: “Eu sou judia. Sou Ashkenazi, como a maioria dos judeus no mundo e em Israel. E tudo o que penso esta noite é que o único erro de Hitler foi parar cedo demais. Que pena.”

Em outubro, Alex Hearn, diretor da Labour Against Antisemitism, postou sobre o ataque terrorista de Bondy Beach, no Heaton Park, descrevendo como foi à sinagoga e viu suas menções nas redes sociais inundadas de comentários antissemitas. Emerson respondeu, referindo-se a Hearn: “Esses são os tipos de judeus que precisam ser expulsos do mundo.”

Comentando o anúncio, Hearn disse: “Essa lista de pessoas que usam uma identidade judaica para apoiar a destruição do Estado judaico foi exposta como uma farsa. Ela inclui uma apoiadora de Hitler que ataca judeus por abuso racista, além de kapos nazistas mortos. Outro nome é uma piada em hebraico, que resume perfeitamente a natureza dessa campanha antissionista.”

Como parte da declaração geral do JCA contra a visita, o grupo também alegou erroneamente que a retórica do presidente Herzog “foi citada pela CIJ como evidência de intenção genocida”. Na verdade, um discurso de Herzog foi mencionado por quem tentava provar o caso contra Israel na CIJ – dependendo de uma edição seletiva do discurso para dar uma impressão falsa do que ele disse –, algo que Herzog contestou repetidamente.

NAS RUAS

Milhares de manifestantes muçulmanos foram às ruas em Sidney, protestar contra a presença do presidente de Israel no país.

QUEM FORAM OS KAPOS

Os kapos eram prisioneiros, judeus e não judeus, selecionados pelos nazistas para atuar como supervisores ou capatazes nos campos de concentração e extermínio durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial. O termo “kapo” vem do italiano “capo”, que significa “chefe” ou “líder”, e foi adotado no jargão dos campos.

Contexto Histórico
Nos campos nazistas, como Auschwitz, Dachau e Ravensbrück, o sistema era projetado para maximizar a eficiência do terror com o mínimo de guardas SS (a elite nazista). Para isso, os nazistas delegavam autoridade a prisioneiros comuns, criando uma hierarquia interna. Os kapos eram escolhidos entre os detentos – muitas vezes criminosos comuns, prisioneiros políticos ou, em alguns casos, judeus ou outros grupos perseguidos – por sua força física, lealdade demonstrada ou disposição para colaborar.

Funções e Responsabilidades
Supervisão do Trabalho Forçado: Eles organizavam e vigiavam grupos de prisioneiros em tarefas exaustivas, como construção, mineração ou trabalhos agrícolas. Garantiam que as cotas fossem cumpridas, muitas vezes usando violência para manter a “disciplina”.
Manutenção da Ordem: Distribuíam alimentos, roupas e punições. Tinham poder para bater, torturar ou até recomendar execuções.
Privilégios: Em troca de sua colaboração, os kapos recebiam benefícios como mais comida, acomodações melhores e proteção contra as piores condições. Isso os incentivava a serem brutais para manter sua posição.

Controvérsias e Percepção
Muitos kapos eram vistos como traidores ou colaboracionistas pelos outros prisioneiros, pois sua crueldade frequentemente superava a dos guardas nazistas – em parte para provar lealdade e evitar serem substituídos ou punidos. No entanto, nem todos eram voluntários; alguns eram forçados a aceitar o papel sob ameaça de morte. Após a guerra, vários kapos foram julgados em tribunais como os de Nuremberg ou processos locais, acusados de crimes contra a humanidade.

Exemplos notórios incluem figuras como Josef Heiden (em Dachau) ou Eliezer Gruenbaum (em Auschwitz), que foram acusados de atrocidades contra companheiros de prisão. O sistema de kapos exemplifica como o regime nazista explorava divisões internas para perpetuar o horror, tornando vítimas em algozes.

Texto baseado em artigo do jewishnews.co.uk

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.