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Brasileiros creem que alauitas são cristãos e isso está errado

A Alawiyya é considerada a única representante sobrevivente das crenças xiitas marginais que se desenvolveram no Iraque do século VIII. Um dos aspectos centrais que dividem a religião alawi do islamismo xiita e sunita tradicional é a crença alawi em Ali ibn Abi Talib como a mais recente encarnação de Deus (de várias). Para os xiitas, o Iman Ali, cunhado de Maomé, é seu ponto focal, mas humano. Para os alauitas, o Iman Ali era o próprio Deus, Allah.

De acordo com esse conceito, Ali é chamado de “mana” (significado). Muhammad, que Ali criou, é considerado “ism” (nome) ou “hijab” (véu) do Deus sem nome. O companheiro de Muhammad, Salman al-Farisi, serve como um “bab” (porta) para Deus. Essa trindade é vista como o sétimo e último ciclo da revelação divina. Em termos de cosmogonia e crença na transmigração da alma, a fé alawiyya demonstra fortes influências pré-islâmicas e particularmente gnósticas.

Um dos motivos pelos quais muitos brasileiros acreditam que os alauitas são cristãos reside no fato de os alauitas acreditarem na TRINDADE, mas é outra Trindade, a deles e não a cristã-católica. Mana, Ism e Bab e não Pai, Filho e Espírito Santo.

O uso de vinho no ritual alauita e na celebração do Natal, bem como dos feriados iranianos (pré-islâmicos) de Mihragan e Nuruz constituem outras diferenças com o islamismo. A adoção superficial das práticas islâmicas tradicionais têm sido tradicionalmente considerada legítima do ponto de vista alauita, mas os ensinamentos islâmicos não eram vistos como vinculativos porque apenas a religião alauita expressava o ‘verdadeiro significado’ da Sharia. Ou seja, os alauitas se consideram os únicos muçulmanos verdadeiros.

Enquanto isso, uma interpretação mais popular, centrada em amuletos, magia e visitas a túmulos de certos xeques religiosos, desenvolveu-se entre a maioria não iniciada do grupo. O ramo alauíta é carregado de práticas místicas e também seculares.

A Alawiyya na Síria contemporânea

Hoje, muito do interesse na Alawiyya se deve ao fato de que a família governante síria e grandes partes do círculo de poder interno do estado eram alawitas, o que aos olhos de seus críticos, prova a natureza sectária do regime sírio sob Hafiz e agora Bashar al-Assad. Acusações de heresia ressurgiram durante os confrontos violentos do regime com movimentos de oposição sunitas nas décadas de 1970 e 1980 e a luta contra os grupos jihadistas desde 2011. Ou seja, para o ISIS – Estado Islâmico, os muçulmanos alauitas são hereges, definição esta, introduzida no pensamento sunita no século 14.

Hafiz al-Assad, presidente de 1971 a 2000, tentou combater a ameaça ideológica representada pelo islamismo político melhorando suas credenciais muçulmanas. Ele participou da oração de sexta-feira; foi à peregrinação ‘menor’ (umra) a Meca; e buscou o reconhecimento muçulmano dos Alawiyya como parte do islamismo, que foi eventualmente concedido por autoridades xiitas (e aliados políticos) como Musab al-Sadr (Iraque) e Hasan al-Shirazi. Em 1973, oitenta dignitários alawis declararam publicamente que sua religião era um ramo do islamismo xiita, e que todas as alegações em contrário foram espalhadas por seus inimigos e pelos “inimigos do Islamismo”.

Embora a inimizade para com os alawis seja obviamente uma motivação para jihadistas como ISIL/Da’esh, o real significado religioso de ser alawi na Síria parece menos claro do que nunca (embora historicamente, isso sempre tenha sido difícil de determinar). Foi sugerido que a religião alawi, após décadas de direcionamento liderado pelo estado em direção à corrente islâmica dominante, efetivamente deixou de existir.

Origem do nome

1922 Mapa do Mandato Francês da Sìria mostra os estados constituidos pelo Império Francês. Os alauitas estavam então onde permanecem hoje.

O nome não é árabe e nem foi criado por eles mesmos como uma referência a Allah. Até os anos 1920, não existiam alauitas. Sua denominação era Nusayri em função do seu fundador ter sido Ibn Nusayr al-Numayri. Ou seja, seguidores de Nusayr. O termo alauita é uma denominação colonial francesa após a Primeira Guerra Mundial, quando a Síria, desmembrada do Império Turco-Otomano, se tornou mandato francês.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador.

Imagem: as informações de fontes alauitas na Síria e no exterior afirmam que, em apenas 3 dias, 7.000 civis alauitas foram massacrados pelas tropas do ISIS-HTS que estão no governo da Síria. Fontes europeias mais conservadoras falam em “apenas” 4.000 civis mortos em apenas 3 dias, o que seria o equivalente a 20% das baixas civis na Faixa de Gaza durante 520 dias. Fontes sírias afirmam que corpos foram jogados ao mar para fazer com que algumas provas desaparecessem. Existem inúmeras fotos e vídeos, realizados pelos perpetradores, que os postam com orgulho nas mídias sociais.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.