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Desesperar Jamais!

Entendendo e derrotando o assalto à autoconfiança moral judaica sem desesperar jamais.

Por Ruth R. Wisse
Traduzido por Raul Gotlieb

Janeiro de 2026 – Revista “Mosaic”, editada pela Tikvah Fundation, circulado nas mídias sociais judaicas no Brasil.

Gvald, Yidn, zayt nikh nisht m’yayesh!

Eu nunca imaginei que abriria um ensaio com o grito: “Gvald, Yidn, zayt zikh nisht m’yayesh!” “Gvald, judeus, não se desesperem!” Este foi o grito de guerra proferido nos últimos meses do gueto de Varsóvia, convocando os judeus restantes para a resistência contra as tropas de assalto nazistas.

Em abril de 1940, seis meses após a invasão da Polônia, os alemães cercaram o gueto e forçaram para dentro de suas paredes os 375.000 judeus de Varsóvia, cerca de um terço da população da cidade, e mais milhares de outros provenientes de cidades e vilarejos vizinhos. No inverno de 1943, mais de um quarto de milhão dos que ainda não haviam morrido de inanição e doenças foram deportados para a morte em Treblinka e outros 35.000 foram assassinados dentro do gueto.

O que os israelenses de hoje chamam de “konceptsia”, uma concepção falsa baseada na subestimação e minimização das intenções do inimigo, é a tendência natural de um povo pacífico. Os judeus da Polônia, a população mais pacífica imaginável, não poderiam ter imaginado que os alemães pretendiam exterminá-los.

Contudo, os judeus acabaram reagindo à realidade. Quando ficou óbvio demais negar que estavam marcados para o extermínio, duas organizações clandestinas judaicas se formaram no gueto: a Organização Judaica de Combate (ŻOB: Żydowska Organizacja Bojowa) e a União Militar Judaica (ŻZW: Żydowski Związek Wojskowy).]

Quando os alemães entraram no gueto na primeira noite de Pessach de 1943 para começar a prender os judeus restantes e enviá-los para a morte, as duas facções politicamente divididas lutaram juntas com as armas que conseguiram contrabandear ou improvisar. A revolta durou, inacreditavelmente, de 19 de abril a 16 de maio de 1943, sendo a primeira revolta urbana anti-alemã na Europa. Eles lutaram como leões.

O poeta iídiche americano H. Leivick, que acompanhou os eventos na Europa com a mesma

ansiedade com que muitos de nós hoje acompanhamos o que acontece em Israel, escreveu:

Gvald, Yidn, não se entreguem ao desespero.
Este foi o grito dos judeus de Varsóvia
Em sua sublime [
nitdoikn] revolta.
Eles clamaram,
Escreveram estas palavras.
Afixaram-nas em prédios,
Em pátios, em suas casas de estudo.
Aos Dez Mandamentos acrescentaram um décimo primeiro:
Gvald, judeus, não se entreguem ao desespero!”

Leivick percebia que esse Gvald era um chamado exclusivamente judaico vindo das profundezas, ou, no hebraico original do Salmo 130, Mi-maamakim. O termo alemão Gewalt, que significa força ou violência, havia sido apropriado pelo iídiche como um alarme e um pedido de socorro. Leivick o transformou em um imperativo nacional. Mas quem, no gueto, teria concebido esse estranho chamado às armas?

Esse clamor teve origem com o mestre chassídico, Rabi Nahman de Bratslav, falecido em 1810. Os hassidim de Bratslav eram chamados de “chassidim mortos” porque não reconheceram nenhum líder subsequente para substituir Rabi Nahman, mas eram uma presença vibrante em Varsóvia, com várias pequenas casas de oração, ou shtibelech. Seu estilo extático de devoção reforçou sua reputação de iconoclastas, o que atraiu jovens judeus que estavam se afastando da observância ortodoxa, mas ainda desejavam estar em sua aura.

Suas casas de oração exibiam os ensinamentos do Rabino Nahman em suas paredes, incluindo seu famoso ditado: “Gvald, judeus, não se entreguem ao desespero”. Alguns líderes do gueto obviamente conheciam o Rav de Bratslav e, quando chegou a hora, adotaram isso como seu grito de guerra.

Na virada do século XVIII, o rabino Nahman também havia testemunhado uma invasão, esta de ideias hostis. O Iluminismo europeu e sua vertente judaica, a Haskalá, desafiaram severamente sua fé judaica.

A crítica de Spinoza, vinda de dentro, e o ataque de Voltaire à religião, vindo de fora, tornavam difícil valorizar o Deus de Israel e depositar confiança em Sua aliança quando parecia haver pouca evidência contemporânea de Sua presença.

O ceticismo racionalista testou alguns dos judeus mais brilhantes, incluindo o próprio Nahman, um pensador criativo com uma mente questionadora. Em resposta ao desafio, ele começou a criar novas formas de ensino, enquadrando suas lutas internas em narrativas que envolviam as emoções em vez de apelar apenas ao intelecto.

Seus contos e ensinamentos tiveram uma profunda influência sobre pensadores e escritores em iídiche e hebraico, incluindo muitos naquele gueto. A resistência de Varsóvia adotou como seu o lema da fé combativa do rabino Nahman. Para resistir aos nazistas e pegar em armas numa luta tão desigual, era preciso primeiro resistir à tentação interna da rendição. A luta contra o desânimo e a resignação era mais primordial do que a autodefesa: era a condição essencial para a autodefesa.

Antes de abordarmos o presente, mais uma palavra sobre Gvald: como é possível compreender o desespero que os judeus de Varsóvia tiveram de superar? Eles não poderiam ter tido medo apenas da morte, pois pegar em armas contra as tropas de assalto nazistas naquelas condições era suicídio certo. Eles perceberam que a guerra alemã contra os judeus envolvia muito mais do que seu extermínio físico.

No cerne da questão estava a destruição da autoconfiança moral judaica. Os nazistas precisavam humilhar aquele povo, desacreditar aquilo que representavam. Para se sentirem superiores, precisavam fazer os judeus se sentirem inferiores. Enjaularam os judeus como animais, permitindo que seus compatriotas poloneses do outro lado do muro os vissem adoecer e morrer. A polícia judaica do gueto foi forçada a conduzir e controlar as batidas policiais, fazendo com que os judeus traíssem uns aos outros, quebrando sua solidariedade, que era a grande força dos judeus. Os judeus presumiam logicamente que seriam valiosos como mão de obra escrava, então os alemães os fizeram perceber que eram menos que escravos, não mão de obra humana a ser explorada (eis que isso ainda os deixaria humanos), mas sim vermes a serem esmagados.

Desonrados e humilhados de todas as maneiras possíveis, esperava-se que agissem como um povo derrotado — condenado à decadência. O nazismo visava aviltar a história dos judeus, desonrar um povo forjado à imagem de Deus. Os alemães diziam: “Vocês não valem nada”. A revolta judaica dizia: “Somos invencíveis”. Foram os judeus que venceram a guerra mais longa.

Hoje

Estamos a um século de distância das ameaças existenciais e intelectuais que os judeus enfrentaram nos séculos XIX e XX, e é imprudente e até mesmo perigoso exagerar a urgência se não houver necessidade dela. Precisamos de uma nova história e liturgia épicas para marcar o contraste entre 1943 e 2023, quando o povo de Israel, transformado, se levantou para lutar — e vencer — uma guerra histórica contra o círculo de fogo do Irã.

Agora somos um povo soberano e, também na América, os judeus têm poder de ação como nunca antes. No entanto, começo por aqui porque é precisamente essa transformação incomparável que nos faz perceber o quão semelhante a atual guerra contra Israel é a guerra nazista em seus objetivos e métodos, e o quanto o destino dos judeus permanece sujeito à depravação de outros.

Os muitos americanos [e brasileiros] que amam Israel provam que nem todos odeiam os judeus, mas agora, no momento mais glorioso de nossa longa história, também enfrentamos o que talvez seja o mais sério de nossos adversários. A coalizão islâmica que já tentou exterminar os judeus pelos métodos antigos de pogroms e guerras, mudou de rumo na década de 1970 para uma guerra de ideias.

Ela se realinhou da direita para a esquerda, das tentativas proto-fascistas de expulsar os judeus para o mar à representação stalinista dos judeus como colonizadores imperialistas racistas. Ambas as abordagens macularam a imagem de Israel como pré condição para sua eliminação, mas apenas a última atrai os liberais.

A guerra contra a pátria judaica não é um conflito territorial como a guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas uma guerra para esmagar a autoconfiança moral judaica e tudo o que ela representa: o Deus indômito e o povo de Israel. Enfrentamos essa luta melhor armados e em melhores condições, mas também contra forças mais poderosas.

A discrepância entre o que os judeus se esforçam para alcançar e a inimizade que suas conquistas geram nos mostra que ser judeu tem duas partes. Sempre nos basearemos na primeira, a parte essencial.

O Shemá — “Escute, ó Israel, o Senhor é nosso Deus; o Senhor é Um” — afirma que a Torá nos foi concedida e aceita no Sinai, e que pretendemos permanecer dignos dessa herança que nos sustenta. A parte mais gratificante de ser judeu é estudar e praticar o modo de vida judaico, que agora inclui prosperar na Terra de Israel. Independentes e engenhosos, continuamos a aprender, ensinar e a nos fortalecer e a nos tornar mais sábios.

A segunda parte de ser judeu é a consequência tácita, porém inescapável, da primeira: vivemos como uma minoria autodefinida entre as nações, nunca moralmente submissos, mas sempre politicamente dependentes do comportamento das nações maiores ao nosso redor.

Alguns esperavam que isso mudasse quando nos tornássemos soberanos em nossa pátria, mas como poderia ter mudado se o próprio Israel permanecesse uma minoria entre as nações? O autogoverno e a autodefesa não afetaram as diferenças políticas, as disparidades demográficas ou os contrastes culturais entre nós e nossos vizinhos. E enquanto os judeus da Diáspora precisam se estabelecer lidando com apenas um único regime que os governa, Israel agora está cercado por muitos países e é membro das Nações Unidas, uma organização dúbia. Nenhum outro povo jamais tentou viver sob padrões divinos de retidão entre povos cujas prioridades nacionais exigem sua eliminação.

Quando os judeus estavam no Sinai, firmamos um pacto bilateral com o Deus de Israel. O Sinai fica em um deserto. Tendo tido o privilégio de escalar aquela montanha em 1968, vi ao meu redor uma paisagem espetacularmente desolada. Ao se postar aos pés do Sinai, não é preciso muito esforço de imaginação para compreender como a Torá pôde ter sido dada e recebida, e quando lemos os rolos da Torá diante da arca em nossas sinagogas, nossos shtibelech, restabelecemos essa mesma intimidade. A Torá é, de fato (conforme Provérbios 3:18), uma Árvore da Vida para aqueles que se apegam a ela — que perpetuam seus ensinamentos. O modo de vida que firmamos no Sinai moldou uma nação autossuficiente e resiliente.

Mas não fizemos do deserto o nosso lar. Não somos beduínos. Uma vez que chegamos e nos estabelecemos em nossa terra prometida, tivemos que manter nosso modo de vida entre as nações. A observância da Torá e a coesão nacional permitiram-nos, posteriormente, perpetuar esse modo de vida judaico mesmo na Diáspora, onde ela se transformou no caminho do Talmud. Mesmo após o exílio e a perda da soberania, a própria Terra de Israel permaneceu primordial no imaginário judaico, enquanto a Torá e os ensinamentos rabínicos permitiram aos judeus manter sua singularidade e, muitas vezes, prosperar entre as nações — tanto no exílio quanto na própria pátria.

Claro que os judeus sempre estiveram longe da perfeição e frequentemente não atingiram seus próprios padrões morais. Suas imperfeições foram a causa de aceitarem a Torá, com todas as suas complexas e rigorosas exigências. A parte difícil era não cumprir os mandamentos — até mesmo o “Não cometerás adultério”. Por mais exigente que seja, o modo de vida judaico, em sua constante e sábia evolução, foi recompensador o suficiente para sustentá-los por esses 3.000 anos.

Os judeus esperavam coexistir com os povos ao seu redor. A civilização religiosa judaica respeita os adeptos das leis morais básicas “de Noé”, como “Não matarás” e “Não furtarás”. Os judeus não aspiram à expansão territorial por meio de conquistas ou à expansão demográfica por meio da evangelização.

Rut pode dizer a Noemi: “O teu povo será o meu povo, e o teu Deus será o meu Deus”, mas Noemi não diz a Rut: “O meu povo será o teu povo, e o meu Deus será o teu Deus”. Noemi não faz proselitismo, mas se Rut deseja se unir ao povo judeu, ela é acolhida como membro da família. A narrativa bíblica define um equilíbrio político de abertura nacional sem coerção, algo tão raro quanto um “justo entre as nações” na Faixa de Gaza governada pelo Hamas.

O que tornava sua condição aterrorizante era o fato que as nações entre as quais eles viviam eram fundamentadas de formas muito diferentes e, às vezes, mutuamente incompatíveis. sendo que algumas delas aspiravam governar outras nações.

Dada a insegurança inerente às suas circunstâncias, os judeus, compreensivelmente, relutavam em focar nos aspectos hostis da população ao seu redor, preferindo cultivar os melhores acordos possíveis com seus líderes e com o público em geral. Frequentemente, chegavam a esses acordos tornando-se úteis aos governantes ou a pessoas influentes.

Meu livro, “Jews and Power”, cujo título em hebraico é “O Paradoxo da Política Judaica”, traça como essa utilidade, lamentavelmente, levou alguns governantes e seus súditos inquietos a culparem esses estrangeiros por usurparem funções nativas, por tentarem “conquistar por dentro”.

Como não desejavam atacar outros, aliás, dado o desincentivo que tinham em atacar aqueles de quem demandavam aceitação, os judeus eram um alvo preferencial. Daí a Konseptzia — na verdade, a Miskonseptziaderiva da nossa expectativa de que nossos adversários possam ser razoavelmente apaziguados.

Este continua sendo o nosso calcanhar de Aquiles, assim como o de todas as sociedades pacíficas e culturalmente democráticas. A coexistência exige reciprocidade, que não pode ser imposta por vontade própria. Quando atribuída onde não existe, ela fomenta a escalada da agressão, da qual o ataque do Hamas em 7 de outubro é apenas a demonstração mais recente.

Se a vida judaica exige aprender o que significa ser judeu, a parte subordinada exige igualmente conhecer as pessoas entre as quais vivemos. Uma das ideias mais estúpidas já aventadas por um pensador, de fato um pensador importante, foi a análise de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal” quando cobriu o julgamento de Adolf Eichmann em 1961.

Encaixando-a em sua teoria do totalitarismo, ela retratou o réu como um funcionário robotizado, em vez do idealista inspirado que ele próprio se considerava. Mas ela estava errada. Na verdade, a capacidade intelectual alemã empregada no assassinato de 6 milhões de judeus em cinco anos provou não a “banalidade”, mas a engenhosidade do mal, incluindo a de Eichmann. O gênio alemão deve ser creditado pelo Holocausto tanto quanto Hegel e Heidegger. Quanto mais desenvolvida a civilização judaica se tornou ao longo dos séculos, mais engenhosidade teve que ser empregada por aqueles que se propuseram a destruí-la.

O Hamas mostrou-se à altura da tarefa. Assim como os alemães eram considerados a nação mais culta da Europa, os palestinos eram considerados os mais inteligentes entre seus irmãos árabes, e sua engenhosidade foi demonstrada no planejamento e execução do Dilúvio de Al-Aqsa por Yahya Sinwar — o nome dado pelos jihadistas ao 7 de outubro. Tudo isso é conhecido.

Como os palestinos exploraram deliberadamente os benevolentes israelenses dos kibutsim da fronteira e os massacraram de uma maneira que destruiu de uma vez por todas a esperança de que pudessem prosperar lado a lado com os vizinhos árabes.

Como transformaram cada virtude judaica em um fardo: o respeito pela vida individual que leva o país a fazer quase tudo para resgatar um único refém ou mesmo o corpo de um soldado morto, chegando até a libertar dezenas ou centenas de terroristas perigosos; o respeito pelas mulheres, famílias e comunidades que se amam e cuidam umas das outras; um exército civil relutante em ir à guerra, mas desesperado para proteger sua pátria; a ausência de pena de morte, mesmo para assassinos; o tratamento compassivo até mesmo para com os inimigos.

Todos os valores prezados foram deliberadamente violados, a selvageria ditada, coreografada e planejada para desmoralizar Israel de forma irreparável, criando mais uma leva de veteranos mutilados, viúvas e órfãos. E Sinwar parece ter sabido muito bem que, divididos entre o desejo de libertar os reféns e a necessidade de não provocar novos ataques, os israelenses começariam a se destruir mutuamente e correriam o risco de perder seu importantíssimo senso de solidariedade.

Como chegamos a isso?

É fácil imaginar como os judeus da Espanha, da Alemanha ou do Iêmen se submeteram ao tormento de vizinhos cruéis, mais numerosos e mais poderosos. Mas como uma nação forte, tecnologicamente avançada e militarmente superior, com 10 milhões de habitantes, se viu à mercê de um pequeno Estado jihadista governando uma população de menos de 2 milhões? Para responder a essa pergunta e entender como chegamos às características inovadoras do 7 de outubro, é necessário recapitular, brevemente, a progressão histórica.

Em 1947, os estados membros da Liga Árabe recusaram-se a reconhecer a resolução das Nações Unidas sobre a partilha da Palestina e tentaram destruir Israel desde a sua criação. Suas esmagadoras vantagens econômicas, territoriais, demográficas e políticas permitiram que esta violação da Carta da ONU ficasse impune, dando início à guerra mais assimétrica da história e, até agora, uma das mais longas: só pode ser refreada pelos agressores.

Os judeus, que muitas vezes foram tratados como párias, foram designados como párias na organização internacional criada para impedir essa mesma injustiça. A ofensa árabe contra Israel corrompeu, assim, a ONU desde a sua origem.

Embora não tenha impedido os judeus de desenvolverem o seu país, a rejeição árabe muçulmana da partilha da Palestina impediu os árabes locais de estabelecerem uma entidade política autônoma. Isto frustrou o surgimento de um rival para a Jordânia palestina e manteve os palestinos à força como “sem-teto”, como postulantes perpétuos ao Estado judeu.

Israel integrou as centenas de milhares de judeus expulsos de terras árabes, enquanto os governantes árabes manipularam a ONU para manter seus correligionários deslocados como refugiados perpétuos.

Os palestinos não deveriam se autogovernar, nem se federar com seus irmãos na Jordânia, nem se integrar aos países árabes e muçulmanos vizinhos, mas sim continuar negando aos judeus suas terras por todos os meios possíveis. Os governantes árabes justificaram o dano incalculável causado a gerações de seus correligionários como necessário para sua hegemonia regional.

Após as guerras fracassadas contra Israel em 1967 e 1973, os países árabes, em aliança com a União Soviética, mudaram de tática e, em 1975, conseguiram aprovar a Resolução 3379 da ONU, que definia o sionismo como racismo, que era então a palavra mais odiosa no vocabulário liberal. Sem anular a votação original pela partilha, essa declaração lançou as bases morais para a destruição do Estado judeu, agora declarado ilegítimo em termos ocidentais.

Uma coalizão anti-ocidental dentro da organização internacional culpou Israel por sua existência nacional, assim como os cristãos acusaram os judeus de matar Cristo e os nazistas acusaram os judeus de corromper a Europa, mas com um apoio significativo: os palestinos, que seus correligionários árabes e muçulmanos mantinham à força “deslocados”. Essa foi a maior aliança jamais formada contra os judeus.

Ratificado pelas Nações Unidas, o antissemitismo islâmico tornou-se a ideologia dominante de uma nova ordem mundial. Nações outrora colonizadas tomaram o lugar das potências coloniais europeias e agora estavam empenhadas em suplantar a democracia liberal que os europeus haviam difundido. O Israel democrático foi retratado como o opressor imperialista dos palestinos indefesos. Quando alguns líderes árabes demonstraram disposição para tratados de paz, outros assumiram as rédeas da jihad islâmica. O Irã organizou os grupos terroristas por procuração e o Catar forneceu os meios, mas foram os próprios palestinos que executaram o 7 de outubro, desempenhando o papel que lhes fora atribuído de subalternos que se insurgiram contra seus odiados “ocupantes”. Eles usaram os civis de Gaza da mesma forma que os líderes árabes os haviam usado, como sacrifícios humanos para o triunfo do Islã.

No estudo da guerra, não encontro nenhum precedente para um agressor que tenha armado armadilhas contra sua própria população civil para provocar uma reação que pudesse então ser atribuída aos invasores.

A Alemanha não planejou o bombardeio de Dresden, nem o Japão provocou o bombardeio de Hiroshima para depois acusar os Aliados de crimes de guerra.

O Hamas arrastou os israelenses para a guerra que eles fizeram de tudo para evitar ao entregar Gaza em 2005. Os palestinos usaram o enorme capital destinado ao desenvolvimento de Gaza para criar condições que forçariam os israelenses a matar mulheres e crianças de Gaza. Eles planejaram a tomada de reféns e suas inevitáveis consequências para “provar” a inversão sionista-racista. A execução dessa infâmia moral e política talvez seja a tática mais diabolicamente brilhante de política antissemita jamais concebida.

A barbárie do massacre palestino e do tratamento dado aos reféns não significa que estejamos lidando com bárbaros. Não repitamos o erro de Hannah Arendt. A barbárie é uma das muitas ferramentas de desmoralização que a frente islâmica utiliza enquanto sua elite financia instituições de ensino superior ocidentais para retratar os judeus como ocupantes genocidas.

Seus líderes sentem-se religiosamente compelidos a provar sua superioridade mantendo judeus

e cristãos — no status de dhimmi, as minorias não muçulmanas dos antigos califados que eram toleradas desde que aderissem a leis restritivas. Mas agora esses grupos devem ser subjugados ideologicamente, e não legalmente. Os objetivos de deslegitimar Israel internacionalmente e minar sua confiança nacional são mais importantes do que mera posse de terras, das quais os árabes já possuem 640 vezes mais. A Arábia Saudita sozinha tem mais de 100 vezes o tamanho de Israel. E como Israel é um instrumento do Ocidente democrático, a guerra contra os judeus também é a guerra contra os Estados Unidos.

A inversão moral provocada pela resolução que considera o sionismo racista só funciona porque os judeus são moralmente distintos, mantendo-se fiéis ao seu padrão divino, que se transformou na terminologia política dos direitos humanos. Seria redundante acusar de racismo países que se orgulham de ser racistas. As culturas variam; algumas subordinam o indivíduo ao coletivo e o princípio da coexistência ao objetivo da conquista nacional ou religiosa. Os judeus correm grande risco vivendo entre tais nações.

Quando apresentei uma versão dessas observações na conferência anual de Tikvah, posteriormente publicada online, elas incluíam a frase: “O pior que Israel faz é muito melhor do que o melhor que os palestinos fazem, tanto contra o seu próprio povo quanto contra os seus vizinhos”. Aqueles que acusaram esta frase em sua busca por evidências de “discurso de ódio” não perceberam o quanto ficaríamos felizes se pudéssemos dizer o contrário.

Imagine o quão afortunados os israelenses se considerariam se seus vizinhos árabes fossem ainda mais respeitosos do que eles com os direitos individuais, o princípio da coexistência, a liberdade de expressão e de religião, e a igualdade para as mulheres. Imagine se as sociedades árabes simplesmente valorizassem a vida de seus próprios membros da mesma forma que Israel valoriza a vida dos israelenses. Muitos israelenses perderam suas vidas insistindo nessa imagem de sociedades árabes que ainda não existem.

Não precisamos fazer de “gvald” o nosso décimo primeiro mandamento. A Bíblia registra os milagres que o Deus de Israel realizou para o Seu povo, mas, durante a minha vida, invertemos essa ordem e realizamos um milagre para o Deus de Israel. Nossas orações reconhecem que Israel é o início do florescer da nossa redenção, e nós fazemos parte desse florescimento. Judeus americanos que passaram mais de meio século insistindo para que todos soubessem da nossa imolação nacional na Europa, agora voltarão suas energias para endireitar o que está torto, para exaltar o que outros vêm amaldiçoar.

Assim como os líderes dos guetos se fortaleceram com aqueles que lutaram antes deles, nós aprendemos com eles a nos armar e resistir, mais cedo e por mais tempo. Os inimigos da liberdade continuarão tentando usar nossas forças contra nós, incluindo a cultura democrática que prefere rivalidades internas a guerras externas.

Israel, assim como os Estados Unidos e todas as democracias saudáveis, sempre estará dividido em questões sérias e buscará maneiras de resolvê-las. Os judeus americanos desfrutam do privilégio de participar do governo dos EUA, mas, quando se trata da pátria judaica, são responsáveis por fortalecer sua defesa indivisível.

Por mais que nos preocupemos com o sistema eleitoral israelense, que está longe do ideal, com a injusta omissão dos ultra-ortodoxos em cumprir seus deveres cívicos, com os graves escândalos, as injustiças sociais e as divisões internas, não confrontamos as facções internas do país, mas sim seus inimigos externos, não por coincidência, as mesmas forças que ameaçam os Estados Unidos. Isso cria uma convergência de lealdades.

Não estamos na posição dos muçulmanos americanos, que podem se sentir divididos entre as prioridades de Meca e Washington. As raízes hebraicas e os valores mais profundos dos Estados Unidos e de Israel são os mesmos.

A coalizão para expulsar os judeus de Israel agora tem seu contraponto naqueles que tentam nos expulsar de Nova York. Este país merece que os judeus liderem essa luta: não à jihad nos Estados Unidos; não à jihad em Nova York.

A relutância judaica e liberal em revidar na guerra de ideias e, quando necessário, assumir a ofensiva, fomenta a campanha negativa unilateral que chamamos de “anti sionismo”. A covardia convence os agressores de que podem nos intimidar impunemente.

Felizmente, os judeus americanos não tardaram a começar a se mobilizar. Mais rabinos do que na década de 1930, incluindo alguns do movimento reformista, estão fortalecendo suas congregações e sendo fortalecidos por seus membros. Uma nova geração de empreendedores intelectuais surgiu para defender essa causa na esfera pública.

A revista Commentary — criação do saudoso Norman Podhoretz — outrora um raro veículo para as ideias judaicas, agora conta com o apoio de diversas iniciativas editoriais que estão determinadas a preservar a república americana e seus valores. Temos sorte, e a América tem sorte, de que eles tenham chegado a esta convicção, ainda jovens, algo que a geração anterior de pensadores judeus só desenvolveu na meia-idade. Nossos guerreiros mais jovens deste milênio jamais terão conhecido o período de graça que os judeus desfrutaram brevemente na América do pós-Segunda Guerra Mundial; portanto, podem estar mais preparados e prontos para a batalha.

Toda a América deveria estar ao nosso lado, e os melhores já estão. Agora, nossa tarefa é ajudar a reorientar o restante. Não estamos em um gueto e jamais devemos pensar ou agir como se estivéssemos. A atual fase deplorável da política antissemita e antiamericana não durará para sempre, mas sua duração e profundidade não dependem apenas de nós.

Vivendo entre as nações, nos tornamos, inadvertidamente, o termômetro do bem e do mal em suas políticas. As piores facções políticas se organizam contra nós, enquanto as melhores se alinham aos nossos valores comuns. Não consigo imaginar nenhuma exceção a essa regra geral da política, o que torna nossa responsabilidade assustadoramente inspiradora.

Continuar sendo judeus no mundo significa superar nosso desapontamento com as falhas de nossos inimigos, a covardia de alguns de nossos amigos e as dificuldades da resistência. Precisamos superar o desespero para nos mobilizarmos, mas a mobilização é a melhor maneira de superar o desespero.

Ruth R. Wisse é professora emérita de iídiche e literatura comparada em Harvard e pesquisadora sênior de destaque na Tikvah. Seu livro de memórias, “Free as a Jew: a Personal Memoir of National Self-Liberation” (Livre como um Judeu: Memórias Pessoais da Autolibertação Nacional), cujos capítulos foram publicados na revista Mosaic em formato ligeiramente diferente, foi lançado pela Wicked Son Press.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.