Esqueça o que você viu em Golda – os documentos liberados contam a história verdadeira e você não vai acreditar
Quando a produção do filme Golda foi anunciada existia a expectativa de ser sobre a vida dela e principalmente sobre o comunismo judaico dela, de David bem Gurion, de Shimon Peres, de Moshé Dayan, de Yitzhak Rabin, Ygal Alon e tantos outros fundadores da nação. Um comunismo pragmático que não criou uma República Socialista de Israel, muito pelo contrário. E este poderia ter sido o argumento do filme. Afinal tudo consta nas biografias dos nomes citados acima, publicadas e nas estantes de muitas pessoas.
Mas o roteiro enveredou basicamente pela Guerra do Yom Kipur, de 1973 e começou a ser filmado dois anos antes de se encerrar o período de 50 anos de censura oficial dos documentos relacionados com a guerra onde pouco interessa como Israel venceu a guerra e não foi destruído. A questão sempre foi a de como foi possível o Egito matar praticamente todos os soldados que guarneciam a Linha Bar Lev (o lado israelense do Canal de Suez), ultrapassar a montanha de areia considerada intransponível para homens e veículos e alcançar todos os seus objetivos militares da primeira fase. Israel de calças abaixadas e com o talit cobrindo os olhos no Yom Kipur. Absolutamente desmobilizado.
Todo mundo sabia que o filme seria lançado um ou dois meses antes do aniversário de 50 anos do conflito, chamado pelo Egito e Síria de Guerra do Ramadan. E qualquer um envolvido com história militar ou política tinha a certeza de que poderia ser uma grande “barriga”, termo jornalístico quando se publica o que se sabia ser a verdade, mas que não era a verdade. E o filme Golda sucumbiu, semanas depois à liberação total de filmes, áudios e todos os arquivos em papel mantidos sob censura militar. O principal deles você vai ler pela primeira vez aqui na Menorah. Muitos acadêmicos estão se debruçando sobre os papéis que o governo israelense colocou em domínio público, em hebraico e em inglês. Ninguém teve acesso antecipado.
Antes de chegarmos ao documento, precisamos deixar claro que até dois dias atrás, quando encontramos este documento, a versão mais divulgada da inação do governo de Golda Meir, como primeira ministra, Moshé Dayan como ministro de defesa, David Elazar como chefe do estado maior do IDF, todos heróis e cada judeu na face do planeta, era de que os agentes do Mossad no Egito eram de uma turma recém formada e que apesar de relatórios indicando a movimentação de tropas, o acúmulo de equipamentos junto ao Canal de Suez e até mesmo uma inexplicável movimentação de veículos com bombas de água e mangueiras, os agentes foram considerados um tanto quanto “criativos e inventivos demais”, por absoluta falta de experiência. Eu mesmo repeti esta versão em palestras sobre o tema diversas vezes. Em bom hebraico: “Bull Shit”, ou seja merda nenhuma! Apenas uma versão que o governo obrigou o Mossad a assumir.
A partir de agora a história muda. Isso se chama de Revisionismo Histórico Documental, quando documentos antes secretos desmontam as narrativas políticas e históricas. Em resumo: o Mossad sabia de quase tudo, tinha as confirmações e os objetivos egípcios da primeira fase, quase como se fosse uma história do futuro. Estavam 100% corretos no que informaram a Golda, Dayan e Elazar. E estes, bem… Decidiram AGIR. A narrativa de terem titubeado não é verdadeira. Talvez tenham perdido algumas horas. Mas agiram. Não vou dar o spoiler, mas ação proposta pelo Mossad no último item do documento era tão simples e barata que eu quase vomitei depois de ler. Golda teve seis horas para adotar a solução mas não o fez.
Respire fundo, tenha coragem e comece a ler, pois este é apenas o primeiro documento não mais secreto que mostramos. O ponto de inflexão na linha do tempo onde havia dois caminhos a seguir e os que tinham o poder da decisão escolheram o caminho errado.
Introdução de contextualização: Na manhã de 6 de outubro de 1973, às 03h50 do dia de jejum de Yom Kippur, o dia mais sagrado do ano judaico, o toque do telefone acordou a primeira-ministra de Israel, Golda Meir, depois que o sono lhe escapou durante a maior parte do tempo. a noite. Quem ligou foi o seu secretário militar, Israel Lior, que lhe contou sobre uma mensagem urgente de Zvi Zamir, o chefe do Mossad, que tinha ido a Londres para se encontrar com uma fonte altamente colocada (sabemos agora que se tratava de Ashraf Marwan – milionário egípcio). Zamir informou que o Egito e a Síria planejavam lançar um ataque combinado contra Israel. Poucas horas depois, um telegrama chegou ao gabinete da primeira-ministra com o relatório completo de Zamir. Começou com a frase assustadora: “O exército egípcio e o exército sírio estão prestes a lançar um ataque a Israel no sábado, 6.10.73, ao início da noite”. Seguiram-se informações altamente detalhadas sobre os planos de guerra dos dois exércitos. Este telegrama perturbou todas as estimativas de inteligência aceites antes, desde a “baixa probabilidade” de guerra até à quase certeza.
Às 8h05 do dia 6/out/1973 se iniciou a reunião entre Golda, Dayan e Elazar, longas horas depois da primeira informação. Como resultado, ao IDF começou a convocar as reservas e a fazer preparativos febris para um ataque inimigo. O Egito atacou às duas da tarde, seis horas depois.

Telegram do chefe do Mossad – Zvi Zamir para Israel Lior, secretário militar de Golda Meir.
Título: “O exército do Egito e o exército da Síria estão prestes a lançar um ataque contra Israel”
Top Secret – Pessoal
Informações da reunião de 5.10.73.
1. O exército egípcio e o exército sírio estão prestes a lançar um ataque contra Israel no sábado, 6 de outubro, ao anoitecer.
2. O ataque será aberto simultaneamente na frente de Suez e na frente de Golã.
3. Durante a semana passada, duas divisões da área do Cairo foram transferidas para a frente, pelo que praticamente todo o exército egípcio está agora estacionado na Zona do Canal. Na área do Cairo permanece uma brigada blindada (no Hikestep, um grande acampamento militar), uma brigada da Guarda Republicana e quatro brigadas de infantaria. A maior parte das forças blindadas e de artilharia estão na frente.
4. Em 25 de setembro, Sadat tomou a decisão de iniciar a guerra em 6 de outubro, mas não contou a ninguém sobre a data. Segundo a fonte, esta data foi escolhida por ser um “feriado” para nós – e apesar do jejum do Ramadan. Em 29 de Setembro, o presidente convocou o Conselho de Segurança Nacional (Majlis al-Aman al-Koumi) e informou os membros do conselho da sua decisão de quebrar o cessar-fogo em breve, explicando que era agora o momento politicamente mais apropriado para tal. Ele não informou a data ao conselho. Em 30 de setembro, Sadat convocou o Conselho Supremo de Guerra (Majlis al-Harb al-‘Ala) e disse aos seus membros coisas semelhantes, sem fornecer uma data. Em 2 de outubro, Sadat informou a data ao ministro da Guerra, Ahmed Ismail, e ordenou-lhe que convidasse e informasse os representantes do Estado-Maior Sírio. No mesmo dia, Ahmed Ismail reuniu-se no Cairo com os oficiais sírios que chegaram de Damasco e voou para Damasco no dia seguinte, quarta-feira, 3h10, para continuar as discussões e os preparativos.
5. Sadat mudou-se para o Palácio Al-Tahera, onde estabeleceu a sua sede. Ele ordenou que seus assessores se mudassem para “escritórios de emergência”. Hafez Ismail mudou-se então para o palácio ‘Abd al-Na’im, perto do palácio Al-Tahera, e dois dos vice-presidentes mudaram-se para o palácio Kaba.
Continua
Israel (Lior) – conforme mencionado acima, o material será processado e distribuído a todas as partes em alguns instantes. FREDDY
(isto é o que chegou às 3h50 da manhã – a segunda parte é a que se segue)
6. O ataque egípcio começará com um bombardeio de artilharia e um ataque da força aérea contra alvos no Sinai. Depois disso, o Canal será atravessado. Para efeito da travessia serão construídas cinco ou seis pontes, das quais três serão utilizadas para a travessia oposta à linha das passagens. As outras pontes seriam usadas como distração. Partes das pontes foram recentemente transferidas em 150 caminhões através da estrada “Estado de Nasser”. Após a travessia, será feito um esforço para capturar território até uma profundidade de cerca de 10 quilómetros, sendo que numa primeira fase não se pretende atingir a linha das passagens. Quando o exército chegar à profundidade determinada, tentará resistir e os resultados desta etapa determinarão a sequência. A travessia receberá defesa aérea intensiva de mísseis de superfície / aéreos, principalmente SAM 2, 3 e 6, e Tsalka [provavelmente o ZSU-23-4 “Shilka” – um blindado antiaéreo soviético autopropelido, guiado por radar, com 4 canhões automáticos de 23 mm] e 30 pilotos norte-coreanos participarão na defesa dos céus do Egito. Os aviões Mirage e Hunter participarão de batalhas no Sinai, Sharm El Sheikh será bombardeado pelos T-16 [TU-16] na tentativa de destruir e destruir as estruturas que ali foram construídas. Em seguida, unidades de comando serão implantadas para tentar conquistar o local.
7. O exército sírio, que está quase inteiramente estacionado na linha de frente, atacará simultaneamente com os egípcios e tentará conquistar o Golã ou parte dele. A força aérea síria atacará três bases da força aérea, uma das quais será Ramat David. Trinta aviões de combate Sukhoi 20 sírios e MiG 12 (F-21) atacarão. Eles tentarão atingir as pistas. A coordenação entre o exército sírio e o exército egípcio será realizada por vários oficiais egípcios vinculados ao Estado-Maior Sírio. Eles também reportarão sobre o início do ataque sírio. A fonte, pessoalmente, ainda está céptica quanto à possibilidade de os sírios atacarem a tempo, mas a opinião geral é que Assad vai de fato “ir com os egípcios”, já que esta é a sua única oportunidade de recapturar as Colinas de Golã. O Presidente Sadat não condiciona as suas ações às dos sírios.
8. De acordo com o plano, alguns dos navios da marinha egípcia deveriam deixar os portos egípcios e deslocar-se para Tobruk 36 horas antes do início do ataque. Isto foi realizado e vários contratorpedeiros egípcios e outras embarcações já chegaram a Tobruk.
9. Ainda de acordo com o plano, os aviões da Egypt Airlines com destino ao Cairo foram para a Líbia. Isso deveria ocorrer 24 horas antes do lançamento do ataque. Foi realizado e os aviões egípcios que estavam prestes a partir de Londres e Munique com destino ao Cairo partiram vazios às 5h10 e voaram para Benghazi. Os passageiros permaneceram em Londres e Munique. Foi-lhes explicado que os aviões tinham sido transferidos para voos a partir de Trípoli e que no sábado seriam fretados outros aviões para os levar ao Cairo ainda no sábado. Um avião DC-9 está prestes a deixar a Inglaterra às 17h (do aeroporto de Gatwick). No sábado, um avião da Egypt Airlines não voará para Londres. A fonte disse não entender o que acontecerá com os outros aviões da Egypt Airlines que chegarão ao Cairo no sábado.
10. A transferência das aeronaves da Força Aérea Egípcia para Tobruk e o desvio dos aviões da Egypt Airlines para Benghazi foram organizados por Ashraf Marwan, que se deslocou à Líbia para este fim na quarta-feira 3 10.
11. Segundo a fonte, os egípcios ficaram surpresos com o que consideraram como a falta de resposta de Israel aos preparativos egípcios para a guerra egípcia. Na sua opinião, isto pode ser explicado por uma de duas explicações: A. Que os israelitas são autoconfiantes, observam os acontecimentos e estão prontos para destruir o exército egípcio se este atacar. B. Que os israelenses não sabem exatamente o que está acontecendo e não compreendem a gravidade da situação.
12. Os novos mísseis terrestres/terrestres de médio alcance ainda não estão operacionais e não serão utilizados num ataque.
13. Pilotos de caça egípcios foram recentemente enviados à União Soviética para um curso no MiG 23 e agora estão treinando nesta aeronave. Eles não serão devolvidos ao Egito antes da guerra. O comandante da força aérea egípcia pediu, mas o presidente recusou. Eles não chamarão de volta os oficiais egípcios que estudam no exterior.
14. A fonte estima que há “99 por cento de probabilidades” de que o ataque seja iniciado em 6 de Outubro. Um por cento ele deixa para si mesmo dizendo que o presidente ainda pode mudar de ideias mesmo quando o seu “dedo estiver no botão”. Segundo a fonte, Sadat acha que pode nos surpreender. Na opinião da fonte, desta vez o presidente foi longe demais para a guerra.
15. A resposta soviética – os soviéticos notaram os preparativos que estavam sendo feitos para o início da guerra. O embaixador soviético foi a Heikal para tentar descobrir o que iria acontecer. Heikal contou a Sadat sobre isso e Sadat convidou o embaixador soviético e contou-lhe sobre suas intenções sem fornecer uma data. Originalmente ele não sabia sobre os aviões soviéticos que chegaram ao Cairo às 5h10 da manhã. Até recentemente, os soviéticos deixaram claro aos egípcios que não estavam interessados numa guerra num futuro próximo. Podem pressionar os egípcios para não lutarem, mas na opinião da fonte, o presidente será capaz de resistir a essa pressão.
16. À questão da lógica por detrás de começar uma guerra agora, a fonte respondeu que isto não faz sentido. À observação de que iniciar uma guerra agora prejudicaria as recentes conquistas políticas do Egito e as hipóteses de chegar a um entendimento com Kissinger, a fonte respondeu que não havia esperanças no Egipto de qualquer realização a partir de contatos políticos.
17. De acordo com a fonte, não há intenção de expandir os ataques da força aérea egípcia para além do Sinai, mas se a nossa força aérea atacar nas profundezas do Egipto, a força aérea egípcia irá operar aeronaves T 61 [TU-16} transportando mísseis ar-terra para ataques ao solo e atacarão Tel Aviv, vindos do mar, em baixa altitude, e após o ataque tentarão chegar ao aeroporto de Benghazi (Benina), pousar lá, reequipar-se e voltar ao ataque. Este campo é protegido por um esquadrão argelino MiG-21 e brigada antiaérea com canhões de 100 mm.
18. Em resposta às perguntas, a fonte respondeu que isto não é um “truque político” e que a intenção é realmente ir à guerra.
19. A fonte concordou com a observação de que uma guerra no Oriente Médio poderia pôr em perigo o entendimento entre os Estados Unidos e a União Soviética e causar um revés na posição do Egito.
20. A fonte expressou a sua opinião de que sabemos muito bem sobre os preparativos para a guerra por parte do Egipto e da Síria, mas finge que não sabemos e até negou que houvesse movimentos do exército egípcio e sírio na direção da frente. Segundo a fonte, os egípcios estimam que em caso de guerra tentaremos capturar Port Said, desembarcar unidades de comandos em Jabal Ahmar, no Cairo, capturar o quartel-general da Força Aérea e as defesas aéreas e implantar unidades de comandos na área do Mar Vermelho.
21. Depois de mencionar à fonte sobre um relatório anterior que uma guerra poderia desenvolver-se a partir de um grande exercício militar egípcio, a fonte disse que este é de facto o caso que temos perante nós.
22. Segundo a fonte, não há intenção de desembarcar um exército egípcio do mar, e não há intenção de transferir unidades militares egípcias para a Síria.
23. A fonte disse que recentemente, o equipamento para a guerra electrónica moderna não tinha chegado ao Egipto.
24. Os jordanianos não participarão da guerra.
25. Os líbios souberam da guerra apenas há dois dias.
26. A fonte mencionou que a Força Aérea Egípcia possui cerca de 100 helicópteros utilizáveis de vários tipos.
27. Segundo a fonte, o início da guerra poderia talvez ser frustrada pela publicação de notícias na rádio e na imprensa que provassem aos egípcios, incluindo o comando militar, que os israelitas estão familiarizados com o plano e estão preparados para ele.
28. O chefe da Mossad propõe considerar a publicação por agências de notícias em Israel. A ação do presidente e de seus assessores não deve ser mencionada. Todo o resto pode ser mencionado e na opinião da fonte terá efeito no Egito.
(fim da segunda parte do telegrama)
Vamos todos respirar. O Mossad, em 1973 sugeriu uma ação simples de mídia, denunciar que o ataque vai acontecer e com isso possivelmente o ataque seria cancelado e a guerra não teria acontecido. Infelizmente, Israel nunca se importou com a guerra na mídia e sim com a guerra no terreno e umas 20 linhas enviadas para as agências de notícias poderiam, talvez, ter mudado o curso da história. Existiram seis longas horas para essa providência ser tomada.
Pela verdade precisamos reconhecer alguns fatos absolutamente verdadeiros que levaram nossos três heróis a decidirem errado e sem contextualizar não dá para entender.
A montanha piramidal de areia do lado israelense do canal era mesmo intransponível. Nem dava para subir a pé. A linha Bar Lev por trás dela era um complexo enorme de trincheiras e fortificações (mas com uma guarnição muito reduzida devido as folgas para o Yom Kipur). E o que poucas pessoas sabem é que Israel tinha criado um sistema de tubulações que injetariam petróleo na água do Canal de Suez. Como o óleo é mais leve que a água, ele iria para a superfície onde seria incendiado provocando uma barreira intransponível de fogo sobre a água. Não é uma criação israelense. A Inglaterra fez isso quando temia uma invasão pelas tropas de Hitler.
O que o Mossad não sabia é que a marinha do Egito possuía uma tropa de elite de mergulhadores de combate e sabia da existência e localização dos dutos que Israel julgava secretos. Na noite do dia 5 para 6 de outubro, os mergulhadores egípcios bloquearam com tampas metálicas soldadas todas as saídas da arma secreta de Israel.
E o que o Mossad também não sabia e talvez tenha descartado, não colocando como informação relevante era o uso muito criativo que os militares egípcios fizeram das bombas de água e mangueiras. Montadas em barcos pequenos, em instantes os jatos de água do canal abriram passagens na montanha de areia intransponível, comandos atravessaram, foram rapidamente montadas pontes militares (está no telegrama) e os tanques egípcios cruzaram o canal sem levar um tiro sequer.

Quando as fortificações da Linha Bar Lev, foram destruídas pela maior barragem de artilharia já vista na história das guerras. Nada que os soviéticos realizaram contra os nazistas chegou perto do que os Egípcios, com armas soviéticas, aplicaram contra a Bar Lev. Além do volume inusitado de projéteis, a precisão em 1973 foi notável.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador