Nova Gaza, Nova ONU
Por Amit Segal – jornalista israelense e comentarista do Canal 12 da TV de Israel
É terça-feira, 20 de janeiro, e se você estivesse elaborando um estatuto para o conselho gestor de Gaza, provavelmente incluiria algumas coisas óbvias — Gaza, palestinos, talvez Israel ou reconstrução.
Agora, imagine que Donald Trump estivesse tentando criar uma alternativa para a Organização das Nações Unidas. Como seria esse estatuto?
Bem, o novo “Conselho da Paz” de Trump não menciona Gaza, palestinos ou reconstrução em nenhum momento. Ao invés disso, o estatuto foca nos Estados-membros, líderes e procedimentos de votação. Segundo o documento, cada país recebe um teste gratuito de três anos — mas um bilhão de dólares garante um assento permanente à mesa. E quem tem o poder de interpretar o estatuto, dissolver o conselho e indicar seu próprio sucessor? O presidente, é claro — Donald J. Trump.
Então, sim, isso se parece muito menos com um plano de reconstrução para Gaza e muito mais com uma demolição da ONU.
A lista de convidados sugere um escopo bem mais amplo. Afinal, o único outro lugar onde você encontraria líderes da Rússia, Argentina, Belarus, Canadá, Austrália, Egito, Hungria, Paquistão, Jordânia, Turquia, Israel e Índia todos na mesma mesa é a Assembleia Geral da ONU.
A rixa de Trump com a ONU é antiga — remonta ao início dos anos 2000, quando ele perdeu a disputa para reformar a sede da ONU. Durante seu primeiro mandato, ele retirou os EUA do Conselho de Direitos Humanos da ONU. E, apenas na semana passada, ele emitiu uma ordem executiva retirando os EUA de 35 organizações não vinculadas à ONU e 31 entidades da ONU que, em suas palavras, “operam em contradição com os interesses nacionais, a segurança, a prosperidade econômica ou a soberania dos EUA”.
Agora, não sou fã de corrupção, ditaduras ou hipocrisia — então a ONU também não é exatamente meu lugar favorito. Mas tentar criar uma alternativa é um movimento interessante.
Aqui está um ponto positivo e um negativo:
Positivo — A política externa de Trump oscila entre isolamento “América em primeiro lugar” e episódios inesperados de internacionalismo. Tornar-se presidente de uma nova instituição global? Isso é um salto ousado em direção ao último.
Negativo — O “Conselho da Paz” não parece especialmente interessado em resolver o problema que supostamente foi criado para tratar: Gaza. Essa responsabilidade, aparentemente, caberá ao conselho executivo — composto por tecnocratas e patrocinadores regionais do Hamas, como Turquia e Qatar.
Olhando de forma mais ampla, qual é o futuro da “ONU de Trump”?
Bem, a França ignorou o convite — e agora enfrenta uma tarifa de 200% sobre o vinho francês. Outros países, seja por medo ou simpatia por Trump, provavelmente vão aderir. Afinal, a entrada é gratuita, e para aqueles que buscam status VIP, 1 bilhão de dólares para entrar no lado bom de Trump é um preço pequeno — especialmente comparado aos trilhões prometidos em investimentos nos EUA.
O problema? Organizações construídas em torno do poder de um único homem raramente sobrevivem ao poder desse homem. Pessoalmente, eu não optaria pela assinatura premium. Eu ficaria surpreso se o conselho ainda fosse relevante em 2029.
Ainda assim, há algo cômico em um homem que foi rejeitado por um contrato de reforma — duas décadas depois — decidir simplesmente construir uma ONU do zero.
Obs José Roitberg
É claro para todos que a ONU não consegue mais resolver conflitos e problemas sérios em lugar algum do mundo. Talvez a criação de conselhos setoriais, ocupados por quem quiser participar, seja uma solução. Conselho para Gaza, Conselho para Guerra da Ucrânia, Conselho para o Iémen, Conselho para o Estado Islâmico na África, seriam só alguns.
Podemos imaginar que todos os países que decidirem entrar num conselho destes vão estar alinhados com propostas para resolver o problema (cada um com suas propostas e suas agendas políticas-econômicas-ideológicas, mas sem a intenção de fazer o projeto fracassar. Nenhum país terá direito a veto. Assim, propostas serão aprovadas ou rejeitadas.
É claro também que a linha dura da coalizão de governo em Israel não aceita que Gaza se torne uma responsabilidade dos outros, pois esta linha dura, caracterizada por Smotrich e Ben Gvir, sempre pretendeu, abertamente, a expulsão dos palestinos e um Gaza absolutamente judaica. O Conselho de Paz, lhes tira esta alternativa anacrônica.
Smotrich, por exemplo, nesta segunda-feira, depois que viu fotos de oficiais do Egito na central internacional montada na cidade de Kiriat Gat, espumou e quer expulsar os egípcios de dentro de Israel. Duas coisas: será que ele de fato não sabia e viu a mesma foto que eu vi nas mídias sociais? Será que alguém pode informar ao Smotrich que o Egito é um país “amigo” com o qual Israel tem um acordo de paz há quase 47 anos? Oficiais egípcios numa ação internacional mediada em Kiriat Gat não são soldados inimigos em Israel. E eles devem estar aproveitando para conhecer o Israel das ruas em primeira pessoa, comer um shawarma aqui, um faláfel ali.
Talvez, se outros tiverem mando em conselho sobre o que vai acontecer em Gaza, as coisas funcionem, pois sabemos que a tudo que Israel propuser os palestinos serão contra. Seria muito interessante ver os palestinos contra o que um conselho com Egito, Rússia, Catar, Turquia, Paquistão e outros propuser.
Ter representantes do Catar e Turquia na mesa do Conselho não significa tropas em Gaza destes dois países. E Israel estará na mesa do Conselho igualmente. Quem não está, são os palestinos do Hamas que também repudiam o Conselho, enquanto os palestinos da Fatah compõem o governo tecnocrata para a Nova Gaza.
Quando vimos o Plano de 20 Pontos pela primeira, segunda e terceira vez, havia uma certeza de que a fase 2 nunca seria implementada. Estão tentando fazer isso, mesmo que tecnicamente a fase 1 não tenha terminado, pois um corpo de soldado israelense sequestrado ainda está desaparecido. E a tendência é permanecer assim. Em outubro, se imaginava que iriam faltar 2 corpos. Então a avaliação errou por 50%.
A ideia de Trump do bilhão de dólares para um assento vitalício, mesmo que vitalício se torne apenas alguns anos, daria um caixa imediato, 10 ou 15 bilhões de dólares para serem investidos na reconstrução da Faixa de Gaza.
Cá para nós, será muito melhor que outros precisem confrontar o Hamas do que Israel.
Eu sei que várias pessoas não vão gostar do que escrevi. Pessoas que continuam defendendo a eliminação de todos os palestinos de Gaza, por expulsão ou por um genocídio de fato, desde que não tenham, estas pessoas que dizem isso, ou seus parentes, que ser os operadores da expulsão ou de uma matança futura, terceirizando o horror e se enaltecendo por ter a certeza de qual é a solução.

