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Paralisia no Knesset: boicote haredi entra na segunda semana e trava quase toda a agenda legislativa

Por pouco não foi um dia “leve” no Parlamento israelense. Nesta segunda-feira, praticamente todos os projetos de lei foram retirados da pauta da plenária do Knesset, enquanto o boicote dos partidos ultraortodoxos (haredim) Shas e Judaísmo Unido da Torá (UTJ) completa sua segunda semana. O clima? Tensão entre aliados da coalizão de Benjamin Netanyahu.

Tudo começou com a recusa da coalizão em votar o chamado “Day Care Law” (Lei dos Berçários), que restabeleceria subsídios para creches de filhos de estudantes de yeshivot que evitam o serviço militar. Mas o protesto cresceu rápido: agora os haredim exigem também o fim das prisões de jovens que fogem do recrutamento e a aprovação de uma Lei Básica que declare o estudo da Torá como valor fundamental do Estado de Israel.

A visão hareidi, mostrada nas ruas e nos bloqueios de avenidas e da linha de trem entre Tel Aviv e Jerusalém é de que Israel é um estado nazista que persegue judeus, que impede judeus de estudarem a Torá. Num dos bloqueios, todos usavam a estrela amarela do período nazista na Europa, insignificando o Holocausto. Aliás o rabino chefe anterior sefaradita, Ovádia Yossef, não falou nem uma nem duas vezes que os 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas foram uma punição divina pelos pecados daquelas almas e que Hitler foi o instrumento de Deus para nos punir. É absolutamente necessário saber disso para entender o que estas pessoas pensam, se é que pensam, quando definem o governo de Israel (não este, mas qualquer um) como um governo nazista que persegue judeus.

O que eles nunca vão pensar, e é uma ilação óbvia, é que a lei que os obrigada ao serviço militar pode ser uma punição divina a eles, pelos pecados que suas almas cometem e cometeram! Estes são os termos deles.

E TEM MAIS

Ontem, o rabino chefe sefaradita atual, Yitzhak Yosef, filho de Ovadia Yossef, não segurou sua boca e foi publicado em todas as mídias de Israel, declarando (uma declaração de rebino-chefe, com força de lei judaica) que o MOU entre EUA e Irã era uma punição divina contra Israel pela polícia estar predendo alguns hareidim que se recusaram a se apresentar para o alistamento militar obrigatório. É muito simples para eles determinar que os outros estão sendo punidos, enquanto não vão entender nunca que os punidos podem ser eles.

O LÍDER POLÍTICO DO SHAS

“A prisão violenta de estudantes de Torá tem que parar!”, avisou o líder do Shas, Aryeh Deri, na reunião de bancada. “Enquanto não avançarmos com a lei que impede as prisões e a Lei Básica sobre o estudo da Torá, não apoiaremos nenhuma legislação da coalizão.” O recado foi claro: sem concessões, o trem para.

Ovadia Yossef, judeu iraquiano foi o fundador do Shas.

O que o Shas e o UTJ querem neste momento é uma lei que determine que estudar a Torá é equivalente ao serviço militar.

O que sobrou na agenda do Knesset? Quase nada. Permaneceram apenas dois itens: a prorrogação de uma ordem temporária sobre prisioneiros inimigos ilegais (relacionada à guerra) e um projeto que amplia os poderes de busca da polícia. O resto — incluindo prioridades polêmicas da coalizão como a divisão do cargo de procurador-geral, uma comissão de inquérito sobre 7 de outubro e maior controle sobre a mídia — foi para o congelador.

A coalizão corre contra o tempo: o recesso parlamentar pré-eleitoral deve começar por volta de 16 de julho, e há pressa para aprovar tudo antes disso.

Frustração haredi

Nos bastidores, líderes ultraortodoxos não escondem a irritação. Depois de concordarem com a data das eleições em outubro (a pedido de Netanyahu), eles sentem que perderam poder de barganha. “Não temos mais nada com que ameaçá-lo”, desabafou um deles ao site Behadrei Haredim. Outro foi ainda mais direto: “Falhamos em tudo. Netanyahu  jogou conosco e nós seguimos como cabra cega.”

Enquanto isso, o partido Sionismo Religioso, de Bezalel Smotrich, tenta equilibrar: apoia as demandas haredim em parte, mas sabe que o tema do alistamento militar é explosivo entre sua base. Smotrich falou em “compromissos necessários” para evitar uma rachadura no campo nacional-religioso. Para Smotrich, todo hareidi que efetivamente não estuda Torá em tempo integral tem que servir o exército.

Quando se vê apenas o discurso do Shas e do UTJ, não fica clara que não são todos os hareidim que estudam Torá em tempo integral e os que não estudam, também não se alistam, pois vários de seus rabinos são absolutamente transparentes ao ensinar que só se dever respeitar as leis da Torá: as lei civis, militares, trânsito, etc não precisam ser cumpridas, não se pode confiar ou dar queixa à polícia, não se pode obedecer decisões da Suprema Corte.

A novela continua. Com eleições marcadas para outubro, o boicote haredi pode forçar Netanyahu a decidir mais cedo se dissolve a Knesset agora ou tenta costurar um acordo de última hora. No momento, o Parlamento israelense parece mais um tabuleiro de xadrez com as peças coladas do que uma máquina legislativa em pleno vapor.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.