Árabes se consolidam como força decisiva e Lieberman pode determinar o futuro do governo em Israel
Três anos após o ataque de 7 de outubro de 2023, quando o então comandante das Forças de Defesa de Israel alertava que a guerra seria longa, o cenário político israelense revela uma mudança significativa. Nas eleições de 2026, os partidos árabes registraram o maior crescimento proporcional, elevando sua representação de 10 para 19 cadeiras no Knesset — um recorde histórico (o anterior era de 15, em 2020).
Segundo a Comissão Eleitoral Central, com cerca de 93% dos votos ordinários apurados (equivalente a 85,6% do total), o bloco liderado por Benjamin Netanyahu conta com 53 cadeiras, enquanto o bloco de oposição sob Gadi Eisenkot (Yashar) soma 48. Os partidos árabes, com 19 assentos, tornam-se a segunda maior força potencial. São necessárias pelo menos 61 cadeiras para formar maioria em um parlamento de 120 membros.
Ainda restam aproximadamente 7% dos votos ordinários sob supervisão adicional e cerca de 600 mil votos em envelope duplo (soldados, diplomatas, presos e outros eleitores especiais). Esses votos, majoritariamente de setores ligados às FDI e à administração, devem ser incorporados nos próximos dias e podem alterar o equilíbrio final.
O desempenho da união entre Avoda e Meretz (agora sob a bandeira Democratas, liderada por Yair Golan, ex presidente do Meretz) também chama atenção: o bloco passou de quatro cadeiras (Avoda) e zero (Meretz, que não ultrapassou o coeficiente em 2022) para oito. Golan celebrava a possibilidade de uma maioria de oposição de 67 cadeiras, incluindo os votos árabes. Eisenkot e Golan defendem um governo sionista com recrutamento integral dos hareidim, posição que dificilmente será compartilhada pelos partidos árabes.
Nesse contexto, Avigdor Lieberman e o Israel Beiteinu (sete cadeiras) emergem como peça-chave. Lieberman reiterou publicamente que não participará de coalizão com partidos árabes nem com os hareidim após os eventos de 7 de outubro. Caso a oposição tente formar governo com os 19 assentos árabes, chegaria a 67 cadeiras. Se Lieberman se mantiver fora, o bloco cairia para 60 — abaixo da maioria. Um cenário ainda mais apertado pode surgir após a contagem dos votos especiais, potencialmente deixando a oposição (sem Lieberman) com 59 e o bloco de Netanyahu com 54.
Dois desfechos principais se desenham:
1. Impossibilidade de formar governo estável, convocação de novas eleições e continuidade de Netanyahu como primeiro-ministro interino, sem maioria parlamentar.
2. Apoio externo de Lieberman à formação de um governo liderado por Eisenkot (67 votos na votação de confiança, mas apenas 59 ou 60 membros plenamente alinhados), obrigando negociações constantes com o Israel Beiteinu para cada legislação passar. Lieberman, assim poderá receber muitas concessões, sem fazer parte do governo. Quais seriam? Ninguém sabe no momento.
A composição de um eventual governo de oposição levanta questões práticas. Com o partido de Eisenkot detendo cerca de 21 cadeiras e os árabes 19, a distribuição de pastas ministeriais — Interior, Educação, Infraestrutura, Economia ou Saúde — seria objeto de intensa negociação. Além disso, qualquer tentativa de implementar o recrutamento obrigatório dos hareidim, conforme exigido pela Suprema Corte, corre o risco de aprofundar divisões internas na sociedade israelense.
Veremos até o fim do ano ministros árabes muçulmanos em Israel? Quais pastas seriam dadas a eles? Parte do primeiro escalão e do segundo escalão ministerial vão empoderar árabes, tanto os fiéis à Israel, quanto os que militam por Mahmoud Abbas?
Toda a mídia em Israel deveria estar passando nos noticiários de TV a comemoração de ontem a noite da Lista Conjunta (Lista Árabe que tem como maior partido o Hadash comunista, que já foi um partido judaico), cantando o hino paletino “Biladi, Biladi”. Vão cantar isso dentro do Knesset também? Vão levar bandeiras palestinas para dentro do governo? Políticos de esquerda como Yar Golan, general ex-vice-comandante das FDI apoia isso com toda a certeza, pois seu discurso demonizador dos oficiais e soldados que já comandou supera em gênero, número e grau, o pior dos discursos de líderes dos partidos árabes. Teremos no Knesset e talvez no governo, um general que acusou os soldados que já comandou de atirarem em crianças palestinas por esporte!
O que pode acontecer se a oposição, quiça no poder, partir para cima dos hareidim forçando mesmo o recrutamento como exigido pela Suprema Corte? Será um racha definitivo na sociedade israelense e vai ser muito feio, gerando imagens horríveis.
Como podem Gadi, Bennet, Yair Levin e Yar Golan continuarem falando que querem um governo sionista com a segunda força dentro da coalizão sendo formada por políticos árabes antissionistas? Quais ministérios terão ministros muçulmanos pró-palestinos e funcionários muçulmanos? Qual será o acesso deles a documentos sigilosos de Estado? O gabinete de guerra vai ter ministros muçulmanos?
A bem da verdade, entre os Hareidim pelo menos o Deguel HaTorá é antissionista e sempre foi, e o Shas é em parte antissionista e em parte a favor do serviço militar para quem não estuda Torá. Então a esquerda diz: “Já existem antissionistas no governo atual! Qual é o problema com o nosso?”. O problema e muito simples: haverá uma troca de religiosos ortodoxos judeus, por muçulmanos religiosos sunitas. Só isso. Quem não consegue entender, precisa bater com a cabeça na parede!
Neste momento, o equilíbrio de poder no Knesset parece depender menos dos dois grandes blocos e mais das decisões de Lieberman e do papel decisivo dos partidos árabes.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador
Imagem: Mansour Abbas, líder do partido árabe Raam (considerado moderado) já bem integrado ao Knesset, foto de divulgação do Raam.

