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Saqueados na Noite dos Cristais, artefatos judaicos retornam a Berlim depois de 88 anos

Dois objetos rituais judaicos saqueados durante a Noite dos Cristais (Kristallnacht), em 9 de novembro de 1938, voltaram a Berlim quase 88 anos depois. A devolução ocorreu graças à iniciativa de uma sinagoga de Phoenix, no Arizona.

Os itens — um parochet (cortina do Arca da Torá) e um wimpel anormalmente comprido (faixa usada para amarrar o rolo da Torá) — foram entregues no dia 22 de outubro, em cerimônia realizada no local da Fundação Nova Sinagoga de Berlim–Centrum Judaicum, na Oranienburger Strasse. A rabina associada Bonnie Koppell, do Temple Chai, entregou as peças a Gideon Joffe, presidente da Comunidade Judaica de Berlim.

Paroshet bordada espetacular. Deve ter dado muito trabalho. Objeto litúrgico único. Imagine quantos outros objetos únicos nossos os nazistas queimaram.

A história dos objetos começa no caos do pós-guerra. Moishe Saksenhaus, sobrevivente do Holocausto originário da Bielorrússia, trocou caixas de Crisco (é uma marca clássica de gordura vegetal sólida), café e cigarros por eles com um homem que se identificou como médico e afirmou tê-los roubado pessoalmente de uma sinagoga em chamas em Berlim durante a Kristallnacht. Saksenhaus levou as peças para os Estados Unidos, onde as guardava com reverência e as mostrava à família apenas em ocasiões especiais.

Após sua morte, em 1993, a família doou os artefatos ao Temple Chai. Eles permaneceram em exposição na sinagoga até o prédio ser desconsagrado em 2026, quando a congregação se mudou para Scottsdale. A decisão de devolvê-los a Berlim partiu de membros da comunidade, que consideraram que os objetos deveriam retornar à sua origem.

Detalhe da impressionante paroshet com texto bordado e assinatura complexa, na faixa azul. Artefato único!

 

O parochet, de grandes dimensões, traz bordado o texto do Kiddush (bênção sobre o vinho) em versões para o Shabat e festas, além da assinatura do artesão: Yitzchak Itzik ben C’harav Yehuda Leib, de Rivnitz (Bessarábia, atual Moldova). É muito raro que uma peça litúrgica judaica tenha assinatura do autor, ainda mais em evidência como esta. Infelizmente era, e ainda é, um costume não colocar a data. Mais meia dúzia de letras poderia dar o momento exato.

Detalhe do Winpel, também pouco convencional.

O wimpel, ricamente decorado, contém uma bênção em homenagem a uma criança chamada Yitzchak “Itzik” ben Kavod Ha-rav Gistori, provavelmente bordada por ocasião de sua circuncisão.

A Comunidade Judaica de Berlim ainda não conseguiu confirmar de qual sinagoga pré-guerra o parochet é originário, mas informou que a peça será incorporada ao acervo do Centrum Judaicum. O wimple deve ser exposto no centro comunitário no local da antiga sinagoga de Fasanenstrasse.

Sol Saksenhaus, filho de Moishe e Rosa, reconheceu a carga emocional da devolução. “Eles estão sendo devolvidos como um sinal de amor da nossa comunidade, para que voltem a brilhar”, afirmou. Os pais dele sobreviveram ao Gueto de Varsóvia, lutaram com partidários e passaram por campos de deslocados na Alemanha antes de emigrar para os Estados Unidos.

A rabina Koppell destacou o significado do gesto: “Viemos para lembrar, aprender e devolver algo que percorreu um caminho muito longo. Desta vez, eles estão voltando para casa.”

Só podemos finalizar com o ressurgimento na história dos judeus do artesão Yitzchak Itzik ben C’harav Yehuda Leib, da Bessarábia. Tecelão com mãos de ouro. Itzik, vocês está relembrado em evidência para sempre!

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.