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Fim da Linha: Fundação Humanitária de Gaza encerra operações após 5 meses conturbados

O cenário humanitário em Gaza sofreu mais uma mudança significativa hoje. A Gaza Humanitarian Foundation (GHF) – Fundação Humanitária de Gaza — uma organização que gerou tanto esperança quanto controvérsia — confirmou oficialmente o encerramento de suas operações na Faixa de Gaza após um período curto e tumultuado de apenas cinco meses.

Se você tem acompanhado as notícias sobre a ajuda humanitária na região, provavelmente ouviu falar da GHF. Criada com apoio dos EUA e de Israel, a fundação tinha uma missão ambiciosa: distribuir ajuda contornando o Hamas e provar que uma “nova abordagem” era possível.

Mas, como mostra o anúncio de hoje, a realidade no terreno provou ser muito mais complexa.

O que aconteceu?

Em um comunicado oficial, o diretor executivo da GHF, John Acree, tentou dar um tom positivo à saída, afirmando que o objetivo inicial da fundação foi cumprido:

“Desde o início, o objetivo da GHF era atender a uma necessidade urgente, provar que uma nova abordagem poderia ter sucesso onde outras falharam e, finalmente, entregar esse sucesso à comunidade internacional mais ampla.”

Segundo a organização, a responsabilidade será agora transferida para o recém-criado Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC) e para outras agências humanitárias.

Por que a GHF está saindo de verdade?

Apesar do discurso oficial de “missão cumprida”, relatórios do The Times of Israel e de outras fontes apontam para motivos mais críticos que forçaram essa saída:

  1. Violência Extrema: A operação da GHF foi marcada por relatos quase diários de tiroteios. As Forças de Defesa de Israel (IDF) operavam próximas aos locais de distribuição para “proteger” a ajuda do Hamas, mas isso gerou zonas de combate letais. A ONU estima que mais de 1.000 pessoas morreram tentando acessar esses locais. Desde antes da GHF ser criada, o Hamas avisou que iria matar os seus cidadãos que fossem lá pegar ajuda. Centenas foram mortos por terroristas do Hamas, inclusive flagrados em vídeo, mas a propaganda de guerra atribuía estas mortes a soldados de Israel e seguranças do GHF.

  2. Problemas Financeiros e Logísticos: A fundação enfrentou dificuldades de caixa e não conseguiu escalar suas operações. A promessa de expandir de 3 para 16 locais de distribuição nunca se concretizou.

  3. Isolamento Humanitário: Outras grandes ONGs criticaram o modelo da GHF, argumentando que ele forçava civis famintos a caminharem longas distâncias para receber caixas de comida seca, em uma área onde água e combustível para cozinhar são escassos.

  4. Ineficácia: Em setembro, a GHF já distribuía apenas uma fração minúscula da ajuda necessária para os 2 milhões de habitantes de Gaza.

O Contexto Maior

A GHF foi uma tentativa política e logística de Israel e dos EUA de criar uma alternativa à UNRWA (a agência da ONU para refugiados palestinos) e evitar que o Hamas se apropriasse da ajuda. No entanto, a mistura de operações militares com humanitárias provou ser fatal para muitos civis e insustentável para a organização.

Com o cessar-fogo e as novas dinâmicas na região, a GHF acabou sendo “excluída” das operações principais, tornando sua presença obsoleta e financeiramente inviável.

O que esperar agora?

A saída da GHF coloca pressão sobre o novo CMCC e a comunidade internacional para preencherem o vácuo. A grande questão que fica é se esse novo sistema conseguirá entregar alimentos e remédios com segurança e dignidade, algo que a GHF, infelizmente, não conseguiu garantir de forma consistente.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.