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O que se pode esperar da invasão da cidade de Gaza?

Para responder a esta pergunta, precisamos voltar ao dia 8 de outubro de 2023 quando a pergunta era: o que esperar da invasão da Faixa de Gaza.

Naquele momento existiam algumas certezas, dissipadas ao longo das semanas e meses. A mais importante é que as estradas de acesso, desde a fronteira israelense, estariam minadas e armadilhadas com potentes explosivos improvisados. A certeza era tão grande que o movimento das FDI foi surpreendente. Simplesmente não utilizaram as estradas e mandaram à frente dos tanques as unidades de engenharia de combate, com os buldôzers blindados D9 para abrir novos caminhos. Manobra militarmente perfeita e bem executada. O primeiro movimento pelo litoral foi pela areia da praia e não pela estrada litorânea. Com isso, se evitaram todas as armadilhas. Pela verdade, as IDF nunca publicaram se existiam armadilhas nas estradas ou não.

A segunda certeza era que os túneis seriam posições defensivas, construídos de forma a impedir o avanço inimigo em seu interior, com posições protegidas de tiro, escotilhas para lançamento de granadas de mão, explosivos dentro das paredes para serem detonados sobre as tropas invasoras e também para obstruir os túneis, impedindo o avanço. Previam-se combates acirrados dentro dos túneis. As FDI possuíam uma unidade treinada especificamente para este tipo de missão, contando até mesmo com pequenos robôs de esteiras, armados com pistola 9 mm para irem a frente das tropas eliminando terroristas. Chegou até mesmo a aparecer uma arma ficcional que encheria os túneis com uma espuma que se solidificaria (mito mesmo).

Os fatos são que o Hamas não construiu seus túneis de forma defensiva. Nada do que estaria no manual militar de bunkers e de acesso a bunkers existia. Os túneis eram meramente passagens, salas, banheiros, cozinhas. Poucos possuíam portas metálicas nos corredores, que apenas retardaram por poucos minutos a passagem das tropas, que as cortaram com maçaricos e removeram armadilhas explosivas do outro lado da porta. Quando o Hamas obstruiu túneis, o fez com sacos de terra e abrindo o concreto da lateral do túnel deixando a terra cair dentro do túnel. Não há qualquer registro nem de explosão provocada pelo Hamas dentro de túneis, nem de soldados atingidos por terroristas do Hamas dentro de túneis. Isso chega a ser surpreendente e era imprevisto.

Depois, com o avanço dos combates, compreendeu-se que a doutrina militar do Hamas não inclui a defesa, mas apenas o ataque. “Vitória ou Martírio” é o lema do Hamas desde o início da operação “Inundação de Al Aqsa” (inundar Israel e Jerusalém com seus combatentes). Foi mais um rápido rio temporário, durante uma tempestade. Apenas isso. E no ataque suas tropas eram eliminadas. A imensa maioria dos combatentes do Hamas pereceu no primeiro combate, enquanto as tropas de Israel ganhavam experiência de combate.

A terceira certeza era a existência de prédios armadilhados, eivados de explosivos, para serem detonados quando as tropas de Israel estivessem junto a eles ou dentro deles. Isso não era especulação. A primeira vez em que isso ocorreu foi em Jenin 2014, quando 12 soldados foram mortos quando três edifícios no centro da cidade foram explodidos sobre eles. Nas operações militares anteriores na Faixa de Gaza, já tinham ocorrido tanto explosões quanto a descoberta de prédios armadilhados.

A decisão de Israel, pode parecer controversa, mas visa proteger seus soldados e não o inimigo! Atacar os prédios armadilhados com a força área. É notável compararmos como os prédios na Faixa de Gaza desaparecem numa enorme explosão, quando atingidos por uma só bomba área, enquanto na Ucrânia, prédios atingidos por mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro russos são apenas danificados.

Ainda assim, muitas das mortes e feridos entre as FDI foram consequência de prédios armadilhados e acidentes na demolição de túneis com explosivos.

Outra necessidade de demolir prédios e casas à bomba na Faixa de Gaza é porque a grande maioria dos acessos aos túneis fica no térreo destas construções.

E AGORA NA CIDADE DE GAZA?

Posto isso, existe a certeza de existirem muitos prédios armadilhados na cidade de Gaza. Note que o Hamas possuiu já 689 dias para construir e preparar estas armadilhas. Sabendo que Israel determinou que haverá dois meses de preparação para atacar a cidade, são mais dois meses para instalar armadilhas.

Não há caminhos alternativos dentro de uma cidade. As ruas e avenidas são o que existe. A não ser que a engenharia e os tanques passem através de edificações, o que não é uma tática boa. Podem explodir, se estiverem armadilhadas. Portanto, as tropas, deverão entrar em combate casa a casa, apartamento a apartamento, vindas do norte, sul e leste da cidade de Gaza, acompanhadas de blindados e por pesados bombardeios aéreos à frente delas.

Mas e os reféns? Pois é. Destruir edifícios sem a certeza do que há dentro sempre foi ruim. E por isso, até o momento, houve tantos combates dentro de prédios de apartamentos. Se os reféns estão em túneis, então derrubar edificações sobre os acessos aos túneis também é uma péssima ideia. Não se pode garantir que a ausência de posições defensivas dentro dos túneis, vai continuar assim. Mas se tem a certeza, de ordem dada ainda pelo falecido Yahia Sinwar, de que os reféns deveriam ser executados ante a proximidade de tropas de Israel. E seus algozes vão fazer. E depois vão atacar as tropas e serem martirizados. Já aconteceu antes em Raffah.

A possibilidade de eliminar o restante da capacidade militar do Hamas com a tomada de Gaza é muito grande. A possibilidade de resgatar um refém vivo de um túnel no subsolo da Faixa de Gaza é muito pequena.

Adicionalmente o Hamas deve ter inúmeras posições já definidas para snipers (atiradores de elite). Dentro da tropa deles desta modalidade, treinados no Irã, existem vários com bastante experiência de combate, armados com fuzis de fabricação própria, disparando o enorme cartucho de 14,5 mm de metralhadora pesada soviética, podendo atingir alvos a 2.000 metros com relativa precisão. É uma arma perigosa.

As ruínas sempre são favoráveis a quem monta emboscadas e muito desfavoráveis às tropas que avançam. Debaixo de qualquer pilha de escombros pode ter uma bomba improvisada. Uma caixa de papelão suja, um pedaço de lona ou tecido pode cobrir outra bomba. Existem vídeos tanto de soldados quanto de terroristas do Hamas passando a pé sobre escombros, e são trajetos muito difíceis e propensos a quedas e acidentes.

Conclusão

Entrar na cidade de Gaza é ruim. Se render ao Hamas é péssimo! Talvez as tropas das FDI, hoje as mais experientes em combate urbano no mundo, tenham aprendido novas lições e desenvolvido novas táticas nestes quase dois meses de guerra. A maior vantagem de Israel para invadir a cidade de Gaza não é tecnológica, mas sim a experiência de combate de soldados.

Para o leito ter uma ideia do que significa isso exatamente. Um turno de combate exigido para um soldado norte-americano na Guerra do Vietnã era de 6 meses, 180 dias. Quase todos os reservistas ficaram em combate em Israel por mais de 220 dias. Um grande número passou de 300 e até mesmo de 400 dias, assim como as tropas da ativa desde 2023. Passam pelo melhor treinamento do mundo e preferem a vida, querem voltar para suas famílias. No Vietnã, os soldados americanos podiam assinar um contrato para outros turnos adicionais de 180 dias. Mas eram voluntários. Em Israel, a ativação da reserva é compulsória e não há outros soldados. Apenas estes.

Do outro lado, diz-se haver milhares de novos recrutas do Hamas. Algumas fontes afirmam que uma forma de obter comida era se alistar como combatente do Hamas. E aí vamos ter milhares sem experiência militar, formados com um ensino muito simplista dentro dos túneis, pois as áreas de treinamento militar da Faixa de Gaza não existem mais. É provável que centenas e milhares destes novos recrutas tenham entre 15 e 18 anos de idade e jamais tenham disparado um tiro. Mas isso, que pode importar para você, não importa para eles!

“Vitória ou martírio” são os dois objetivos de guerra do Hamas. A vitória lhes é impossível. O martírio lhes é garantido.

Imagem, de março de 2024, soldados das FDI e dois blindados Namer de transporte de tropas, sem sistema de proteção ativa contra foguetes antitanque. Não podem mais ser usados na próxima ofensiva. Foto de divulgação das FDI.

por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.