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Status dos Sete Frontes de Guerra – “A luta precisa continuar para sempre?”

Análise do Abu Ali Express (de Israel): 

Quase dois meses se passaram desde que o cessar-fogo em Gaza foi declarado, com base no plano de paz de Trump. Qual é a situação de Israel nos sete frontes? Algum deles foi resolvido? Para onde estamos caminhando?

Os reféns e corpos sequestrados, deveriam ter sido todos devolvidos em até 10 dias. Já se passaram quase 60 dias e hoje foram entregues restos que não eram de um refém. Foi a terceira vez que isso aconteceu. A condição para a solução rápida dos reféns era Israel retirar as tropas para a Linha Amarela e isso foi feito em cerca de 24 horas. Pelo lado do Hamas, eles já enrolaram por dois meses.

Uma breve análise da situação em cada um dos sete frontes:

1. Faixa de Gaza – Frente Central

O Hamas foi derrotado militarmente, mas seu governo não caiu, e ele continua governando com mão de ferro mais de dois milhões de habitantes na “Faixa de Gaza Ocidental”, além da Linha Amarela.

Todos os reféns vivos foram libertados. A maioria dos reféns mortos foi devolvida, exceto dois: o Sargento Ran Goyli (z”l) e o cidadão tailandês Suttisak Rintlak (z”l).

Gaza recebe cerca de 600 caminhões de alimentos e ajuda humanitária por dia — um verdadeiro tubo de oxigênio. Nenhum material de construção, equipamento de engenharia ou caravanas (trailers de moradia) é permitido. A passagem de Rafah permanece fechada. A Fase B do plano de Trump não começou; a Linha Amarela está se tornando uma fronteira de fato, dado que o Hamas se recusa a desarmar ou abrir mão do controle.

Essa situação “temporária” pode se tornar “novo normal” de longo prazo.

2. Líbano – Frente Principal

Há um ano, Israel conduz uma ofensiva unilateral, eliminando centenas de operativos do Hezbollah — incluindo figuras seniores, como o chefe do Estado-Maior do Hezbollah, Abu Ali al-Tabatabai, na semana passada — e atingindo infraestrutura principalmente no sul do Líbano.

O Hezbollah não responde militarmente, mas está reconstruindo suas capacidades e se recusa abertamente a desarmar. O governo libanês é incapaz de fazer cumprir o plano de desarmamento que aprovou há dois meses.

As capacidades de lançamento do Hezbollah são muito menores do que antes da guerra, mas ainda preocupam Israel.

3. Irã – Frente Principal

Na Guerra de 12 Dias, Israel danificou pesadamente o arsenal de mísseis e o programa nuclear iraniano, mas o desejo do regime por vingança continua forte. A conduta de Israel na guerra, seus resultados e a participação dos EUA ao final aumentaram a dissuasão, mas não impediram o Irã de se preparar para o próximo conflito.

O Irã mantém capacidades de lançamento que preocupam Israel e tenta reconstruir sua rede de defesa aérea. Autoridades iranianas afirmam ter aprendido lições importantes com a guerra. Uma deles será o aumento númerico do uso de mísseis  hipersónicos e manobráveis.

Enquanto o regime atual existir, a motivação para agir contra Israel persistirá.

4. Iêmen – Houthis – Frente Secundária

Desde o cessar-fogo em Gaza, os Houthis cessaram o fogo, pararam de atacar navios e interromperam o lançamento de mísseis e UAVs contra Israel.

Seu governo, no entanto, permanece intacto, e suas capacidades militares continuam a se desenvolver. Sua posição estratégica em uma rota marítima global lhes concede grande poder mesmo com armamentos relativamente simples.

Eles ameaçam retomar os ataques se Israel violar o cessar-fogo.

5. Iraque – Frente Secundária

As milícias xiitas iraquianas atuaram ativamente até o cessar-fogo com o Hezbollah há cerca de um ano. Elas lançaram dezenas de UAVs contra Israel, um dos quais atingiu uma base no Golã e matou dois soldados das FDI. Também lançaram cerca de 20 mísseis de cruzeiro.

Essas milícias ainda possuem arsenais significativos de UAVs e mísseis de cruzeiro e podem voltar a atuar em futuros combates, embora a pressão dos EUA sobre o governo iraquiano as contenha no momento.

Elas não foram derrotadas militarmente.

6. Judeia e Samaria (Cisjordânia) – Frente Secundária

Nos últimos dois anos, as FDI conduziram operações antiterror agressivas, incluindo a limpeza e demolição de grandes campos de refugiados que serviam como centros terroristas.

Cerca de 1.000 palestinos foram mortos, milhares ficaram feridos e milhares foram presos nesse período. A atividade terrorista caiu drasticamente.

O contrabando de dinheiro e armas e a coordenação com elementos terroristas externos ainda alimentam a motivação para ataques, mas a capacidade operacional é muito menor do que antes.

7. Frente Síria – Frente Secundária

O principal acontecimento ocorreu há um ano, quando entrou em vigor o cessar-fogo com o Hezbollah no Líbano. Abu Muhammad al-Julani conseguiu, em uma operação rápida e de grande escala, derrubar Assad.

O regime que permitia a presença iraniana colapsou e foi substituído por um governo sunita alinhado à Turquia, promovendo uma agenda anti-Israel ligada à Irmandade Muçulmana.

Israel destruiu a maior parte das capacidades significativas do exército sírio em uma ofensiva curta e obteve controle estratégico do topo do Monte Hermon e áreas-chave no sul da Síria — agora relativamente livres de armas pesadas que ameaçavam Israel.

O novo regime é intrinsecamente hostil a Israel e ainda absorve influência de ódio da Turquia, apesar da pressão dos EUA para alcançar ao menos um acordo de segurança.

Essa frente pode se tornar uma ameaça significativa de médio a longo prazo.

Resumo

Um denominador comum claro emerge: a situação de Israel está muito melhor em todos os sete frontes do que antes da guerra. Os níveis de ameaça diminuíram significativamente.

No entanto, nenhuma das arenas desapareceu. A hostilidade permanece em todos os lados. A dissuasão israelense aumentou muito, mas a motivação dos inimigos também persiste, impulsionando seus esforços de reconstrução.

A longo prazo, Israel provavelmente precisará operar militarmente novamente em cada um desses frontes.

Israel alcançou vitórias militares claras por critérios objetivos, mas não pode descansar em nenhum deles.
Melhorou suas posições, fortaleceu a dissuasão, obteve experiência crucial e aprendeu que seu destino depende principalmente de si mesmo.

A luta precisa continuar para sempre?

Sim — ao menos na visão do autor.

Israel sempre viverá pela espada. Comprou tempo até a próxima rodada e compreende melhor a gravidade das ameaças ao seu redor.

Trump não será presidente dos EUA para sempre; Israel tem cerca de três anos para se preparar para um governo menos simpático. Deve reabastecer seus arsenais, preparar-se para guerras longas e multifrontes com mínima dependência externa, lembrar-se de como a UE e o governo Biden agiram e trabalhar incansavelmente para desenvolver capacidades necessárias para vencer “o oitavo front.”

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.