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Yair Lapid, sobre o reconhecimento do Estado da Palestina

Nunca imaginamos publicar um texto do Yair Lapid, líder da oposição ao governo em Israel, que ao longo da guerra protagonizou algumas das falas mais estúpidas e peçonhentas contra seu próprio país. Mas todos têm o direito de mudar.

Incrivelmente, pela primeira vez: irrepreensível. Excelente análise. E para elogiar ele, precisa estar muito bom mesmo:

Líder da Oposição, Yair Lapid:

Dois Tipos de Reconhecimento

Atualmente, há dois tipos de países anunciando sua intenção de reconhecer um Estado Palestino: os que o fazem contra nós — como Irlanda e Espanha — e os que o fazem achando que estão nos apoiando — como França e Reino Unido, e certamente a Alemanha.

Não sei o que é mais revoltante: os que o fazem deliberadamente, por motivos que claramente contêm mais do que um traço de antissemitismo, ou os que — movidos por uma boa dose de condescendência — acreditam saber melhor do que nós o que é bom para nós.

O problema, obviamente, não é o fato de a França reconhecer um Estado Palestino. Isso, por si só, não fará com que ele se concretize. O problema é que não estão fazendo as perguntas básicas: Quais são suas fronteiras? Qual é sua capital? Quem o governa? Que tipo de governo terá? Será uma democracia? Apoia o “direito de retorno”? Tem capacidade para impedir que o Hamas tome o poder no momento em que for criado?

Esta última pergunta é a que venho fazendo a muitos dos meus amigos e conhecidos europeus cheios de virtude nos últimos dias. Sem surpresa, eles não têm resposta. Não pensaram seriamente a respeito. Se o Estado Palestino que apoiam está destinado a se tornar mais um estado terrorista fracassado e assassino — tanto contra seu próprio povo quanto contra os judeus — eles ainda assim o apoiariam?

É bonito que queiram um Estado Palestino progressista, próspero e democrático, onde pessoas em Ramallah se sentem em cafés para debater Sartre e Camus. Mas todos sabemos que isso não é o que vai acontecer. Se o mundo reconhecer um Estado Palestino sem exigir nada dos palestinos, eles tirarão apenas uma conclusão: que não precisam fazer esforço algum.

E por que fariam? Se, depois de trinta anos de corrupção e violência da Autoridade Palestina, depois de Abbas cancelar eleições e negar a democracia ao seu povo, depois de o Hamas tomar Gaza e nos trazer o horror de 7 de outubro, a próxima coisa que acontece é o reconhecimento global de um Estado Palestino — então, do ponto de vista deles, é porque devem estar fazendo algo certo.

Se a Europa realmente quer que um Estado Palestino se concretize um dia, precisa fazer o oposto: exigir que os palestinos mudem. Que provem que podem ser democráticos, que sabem combater o terrorismo, que conseguem erradicar a corrupção. Declarar apoio a quem distribuiu doces nas ruas de Nablus e Hebron na manhã de 7 de outubro não contribui em nada para a solução de dois Estados. Na verdade, só a afasta ainda mais.

Observações de Menorah Brasil

1) A Autoridade Palestina nunca pregou a Solução dos Dois Estados. Todos os emblemas e mapas de grupos terroristas palestinos trazem o mapa do Estado Único muçulmano em todo o território, do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo. Quando a OLP foi criada em 1964 a Cisjordânia fazia parte do território da Jordânia, que a ocupou em 1948 e a anexou formalmente em 1950 e a a Faixa de Gaza fazia parte do território do Egito que a ocupou em 1948. Libertar a Palestina, em 1964 significava exterminar o Estado Judeu, o que já havia sido tentado logo em 16 de maio de 1948, um dia após a declaração da independência de Israel.

2) O Hamas nunca aceitou a Solução dos Dois Estados e desde sua criação, em 1984, seu estatuto define que “a Solução dos Dois Estados não é de interesse do grupo”. E o mundo ocidental faz ouvidos moucos. Dias atrás, quando Macron declarou que vai reconhecer o Estado da Palestina durante a Assembleia Geral da ONU em setembro, o Hamas o aplaudiu e publicou que estava muito satisfeito, mas que o Estado da Palestina só vai existir depois da libertação de todos os territórios ocupados. Territórios ocupados, na visão deles, não é Gaza nem Cisjordânia, apenas, mas Israel inteiro.

3) Durante a reunião dos Brics no Rio de Janeiro, aconteceu uma manifestação de coletivos e partidos de extrema-esquerda marxistas e trotskistas na Cinelândia, onde a palavra de ordem era o Estado Único Laico, ou seja, um Estado sem religião. É uma agenda estúpida, capitaneada pelos comunistas no mundo inteiro. E não lhes importa que os 54 países muçulmanos, não sejam laicos e que o Estado Judeu seja laico, isto é, Israel possui leis civis convencionais e não apenas leis religiosas muçulmanas, a Sharia. Crimes são julgados pela lei civil e não pela lei religiosa, que se aplica nas comunidades religiosas ortodoxas e não ao país inteiro. Israel é laico, apesar de ser denominado Estado Judeu. E se alguém reclamar e dizer que é obrigatório respeitar o shabat, fique sabendo que não é obrigatório respeitar o shabat e que todos os comércios e transportes operados por muçulmanos e cristãos funcionam no shabat, se eles quiserem.

4) A esquizofrenia da Solução dos Dois Estados é o que os países ocidentais, excetuando suas populações de esquerda radical desejam. Não é o que os palestinos ou o Irã quer.

5) 109 países já reconheceram o Estado Palestino que não existe. De fato, só mais ainda não o fizeram e isso não proporcionou o Estado Palestino ser mais próximo de existir, pois como dissemos, os palestinos não o querem.

6) Do momento que se tornarem um país, perdem os subsídios bilionários da UNRWA e da ONU e passam a ter que cumprir as leis internacionais. Não sendo um país, não precisam cumprir as leis internacionais. Nenhuma delas.

7) O que está na mesa de negociações até os dias de hoje é talvez a proposta mais burra e impossível de todas: que o Estado Palestino seja fundado nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967. Quais fronteiras seriam estas, se a Cisjordânia não era independente e fazia parte do território da Jordânia? As linhas que existiam até junho de 1967, inclusive os muros que os jordanianos construíram para separar o lado israelense do deles na Jerusalém Nova (pois a Velha foi toda ocupada pela Jordânia e os judeus foram expulsos de lá), não existem mais. O tecido urbano das cidades cresceu, principalmente das cidades árabes e nada que existia no mapa pré-1967 existe atualmente. Portanto, um Estado da Palestina com as fronteiras de 1967 é apenas ficção científica, exigindo uma máquina do tempo.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.