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Ucrânia proíbe peregrinação judaica a Uman por causa da guerra

✈ Próxima parada: mais confusão!

A Ucrânia anunciou que não permitirá a tradicional peregrinação de milhares de judeus hassídicos a Uman no próximo mês, devido aos riscos de segurança causados pela guerra com a Rússia. A informação foi publicada pela mídia israelense no último sábado.

A decisão afeta a visita ao túmulo do líder hassídico Rabino Nachman de Breslov, ponto alto das celebrações de Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, para seus seguidores. A ideia dos seguidores de Nachman é de que teriam uma benção espritual para um bom próximo ano. Grande parte dos outros setores rabínicos não concorda com tal peregrinação.

Segundo o jornal Maariv, a medida está ligada à proibição de grandes aglomerações em vigor no país desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. A situação se agravou com os recentes ataques de drones e mísseis russos, que atingiram cidades no oeste e centro da Ucrânia, incluindo Uman.

Os ataques russos noturnos mais recentes têm sido no momtante de 550 a 600 drones Shahed por noite. Cerca de 10% deles atingem seus alvos. Não são 2 ou 3 drones como o Hezbollah disparava.

A Ucrânia não tentou impedir a peregrinação em 2022, 2023 e 2024. Até porque é uma enorme fonte de renda para a pequena cidade de Uman e arredores. O último número conhecido de habitantes era de 81.000, no início de 2022. Com três anos de guerra, não há mais número divulgado. Existem homens em mulheres em armas, existem cerca de 450.000 mortos nas forças armadas ucranianas, além de outras centenas de milhares de feridos graves, fora mulheres e crianças que abandonaram o país, de forma incentivada pelo governo. Não se saber, internacionalmente, quantas voltaram.

O número divulgado pela mídia internacional, para o ano passado, foi de 35.000 peregrinos, o que podemos então afirmar soma quase 50% a mais a população local durante alguns dias. Hospedagem, alimentação kosher, souvernis. É importantíssimo para a economia local.

Ucrânia também parece reclamar de falta de apoio de Israel contra a Rússia

Uma fonte anônima do governo ucraniano, em entrevista ao canal i24, expressou frustração com a falta de apoio de Israel diante das ameaças russas. Caso a peregrinação seja liberada, Kiev exige que Jerusalém forneça suporte financeiro e reforço policial em Uman. Isto é, tropas e/ou policiais de Israel, para 35.000 pessoas, em Uman.

Enquanto isso, a Moldávia, que serve como rota alternativa para os peregrinos que voam de Israel até Uman, também impôs condições. O governo moldavo solicita 8 milhões de shekels (cerca de 2 milhões de dólares) para construir um terminal temporário para voos extras, além de custear segurança, logística e presença policial ao longo do trajeto. Israel tem até 3 de setembro para transferir os fundos, ou a operação não será autorizada.

A Moldávia é o país mais pobre da Europa

Vamos fazer uma conta simples: caso apenas a EL AL opere voos entre o Ben Gurion e a Moldávia, os aviões mais prováveis de serem utilizados são os Boeing 737-800 com capacidade para 189 passageiros. Precisam ser transportados 35.000. Portanto, seriam 185 voos. A EL AL tem 13 aviões destes. Se for utilizar o 787-9, do qual possui 12 aeronaves, para 271 passageiros, seriam 129 voos. De ida e de volta. É uma operação logística complicada e que demanda uma grande reserva de combustível aportada na Moldávia, para ser comprada para a volta. Ou não. Em linha reta, são cerca de 1.800 km de viagem e estes aviões, de tanque cheio, têm autonomia mais que suficiente para ir e voltar.

A movimentação destas pessoas todas demora dias, em cada perna.

Depois, de Chisinau para Uman é mais uma “Via Dutra” com 50 passageiros por ônibus, exigindo, portanto, 700 viagens de ônibus para ir e outras 700 para voltar, por 400 km de estradas de um país em guerra onde os ônibus podem ser emboscados em qualquer lugar.

Todos os anos, dezenas de milhares de hassídicos viajam a Uman para homenagear Rabino Nachman, figura central do judaísmo hassídico que viveu entre os séculos XVIII e XIX. A peregrinação ganhou ainda mais importância para líderes haredi, que buscam garantir a viagem apesar dos obstáculos. Segundo relatos, eles negociaram 10 milhões de shekels (cerca de US$ 3 milhões) com o governo israelense para facilitar o acesso via Moldávia.

Neste ponto, existe uma informação que não nos foi possível, nem verificar, nem confirmar: a peregrinação seria pagar com dinheiro do contribuinte israelense, mas com os fundos milionários aportados ao ensino religioso. Seriam, mais 3 milhões. Pelo menos é isso que se entende, neste momento, pois nunca foi tornado público antes.

Ameaça de prisão no aeroporto aos que tentarem embarcar para Uman e não tiverem se apresentado para o alistamento militar conforme documento de recrutamento enviado.

Em Israel, a questão também gera debate político. Líderes haredi, como Aryeh Deri, do partido Shas, pressionam o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e as Forças de Defesa de Israel (IDF) para que estudantes de yeshivá, que evitam o serviço militar, possam participar da peregrinação. Deri argumenta que a viagem é uma obrigação religiosa, não um passeio turístico.

Parte do governo já falou em deter, no aeroporto, os que se recusaram. Outra liderança religiosa importante do Shas, declarou publicamente, que os jovens hareidim que não se dedicam ao estudo da Torá têm que se alistar. Fica na nossa imaginação, aqui de longe, que todos os hareidim se dedicam ao estudo da Torá em horário integral, mas não é isso que acontece.

Já existem lideranças hareidim tentando flexibilizar e obter um compromisso de que as unidades hareidim das FDI terão um horário fixo e determinado diário para o estudo da Torá, além de seus deveres militares e que respeitarão o shabat. Em princípio, como uma solução consensual, isto deveria ser adotado.

Infelizmente, não posso deixar de lembrar da “Questão Judaica” europeia do século 19 e início do século 20, quando os judeus eram, em vários países, banidos do serviço público, policial e militar. Inclusive, proibidos de se candidatar politicamente. O que os não-judeus perguntavam, e esta era a “Questão Judaica”, era se um deputado judeu, sendo convocado para uma sessão de emergência no sábado, iria. Ou se soldados judeus combateriam no shabat. Ou se policiais judeus patrulharam as ruas e prenderiam criminosos apenas seis dias por semana. Está muito nítido que a “Questão Judaica” que muita gente define como antissemitismo, é presente na sociedade israelense atualmente.

Para mim, a resposta é muito simples e óbvia. Se os Estados católicos não conseguiram lidar com as necessidades teológicas dos judeus hareidim e hassidim, e imaginaram que cada um dos judeus em seus países e no mundo se rege pelas mesmas “leis judaicas”, o Estado Judeu tem que lidar com estas necessidades, da melhor forma que for possível.

Na imagem, rua de Uman, próximo ao túmulo do rabino Nachman, no ano passado.

Rosh Hashaná começa ao pôr do sol de segunda-feira, em 22 de setembro de 2025; termina ao anoitecer em 24 de setembro de 2025.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador.

Abaixo tem um vídeo ótimo, de 45 minutos mostrando os peregrinos judeus em Uman no ano passado.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.