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Os 85 Anos do Farhud o pogrom de Bagdá

O Farhud, ocorrido em 1º e 2 de junho de 1941 em Bagdá, foi um pogrom violento, cometido por iraquianos muçulmanos, que deixou entre 150 e 180 judeus mortos (algumas estimativas chegam a 500), cerca de mil feridos e centenas de casas e lojas saqueadas ou destruídas. Não existe, até hoje, o número exato de vítimas.

Alguns artigos afirmam que ele foi realizado durante o governo nazista no Iraque. Mas isso não é verdade. O governo assumiu no dia 1 de abril e foi deposto por tropas britânicas em 30 de maio. De fato, o governo fugiu. O pogrom foi logo em seguida quando os britânicos ainda não controlavam nada lá. E foi através destes governantes fugitivos, que depois a Alemanha Nazista criou a Legião Árabe Livre, do exército alemão que aglutinou soldados muçulmanos árabes de vários países.

Não é por acaso que o emblema de ombro da Legião Árabe da Alemanha Nazista tratava-se da bandeira do Iraque (foto colorizada pelo autor).

A comunidade judaica iraquiana, uma das mais antigas do mundo (com presença desde o exílio babilônico, há 2.500 anos), vivia em relativa integração. No início do século XX, os judeus eram uma minoria expressiva, especialmente em Bagdá. Porém, o nacionalismo árabe radical e a propaganda nazista, intensificada durante a Segunda Guerra, deterioraram gravemente essa convivência.

O massacre aconteceu durante o feriado judaico de Shavuot, logo após o fracasso de um golpe pró-nazista liderado por Rashid Ali al-Gaylani, apoiado pelo Grande Mufti de Jerusalém, Haj Amin al Husseini. Num breve vácuo de poder entre a derrota dos golpistas e a chegada das tropas britânicas, multidões enfurecidas, soldados e milicianos atacaram bairros judeus com extrema brutalidade: assassinatos, estupros, mutilações e saques generalizados.

O Farhud foi o marco inicial do fim da presença judaica no Iraque. Após a criação de Israel em 1948, o antissemitismo se agravou. Entre 1950 e 1951, quase toda a comunidade — cerca de 120 mil pessoas — emigrou para Israel na Operação Ezra e Neemias, deixando praticamente tudo para trás. Hoje, restam menos de dez judeus no Iraque, segundo estimativas. Não se conhecem nomes, idades, localização ou se de fato ainda estão vivos.

O evento é lembrado como um dos primeiros grandes pogroms inspirados pela ideologia nazista fora da Europa e como o início da expulsão em massa de quase 900 mil judeus dos países árabes e muçulmanos no século XX.

Hoje, quando temos as fotos coloridas, vídeos e depoimentos da barbárie dos muçulmanos do Hamas no dia 7 de outubro, talvez o entendimento de “assassinatos, estupros e mutilações” em 1941, seja mais desagradável de visualizar.

86 anos depois, o Farhud simboliza como uma comunidade milenar pode ser destruída rapidamente pela combinação de propaganda de ódio, nacionalismo extremado e vácuo de poder — e serve como lembrete da pouca visibilidade dada aos refugiados judeus do Oriente Médio.

A coisa mais bizarra é verificar diversos textos históricos, inclusive de autores judeus, onde as vítimas são muito bem tipificadas, “judeus iraquianos”, mas os perpetradores, não são tipificados como árabes, e muito menos como muçulmanos, sabe-se lá se foram os sunitas ou xiitas iraquianos. É mais uma instância em que a autoria muçulmana de massacres é ‘branqueada’ na história. Nunca vou esquecer de um grande amigo que ficou surpreso ao saber que os turcos eram muçulmanos: sempre pensou que eram otomanos…

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

Imagens: as únicas 3 fotos conhecidas da turba muçulmana nas ruas, com espadas empunhadas para cortar braços e pescoços de judeus. A foto de abertura da postagem foi colorizada. A última foto é da cova coletiva, ou melhor, “depósito” dos restos mortais das vítima fatais judias do Farhud. Até hoje não há qualquer inscrição informando do que se trata esta construção.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.