Moralistas Da Dupla Moral E Progressistas Em Tempo Parcial
Por Pilar Rahola
CARTA A JAVIER BARDEM (Em 2007, venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por seu papel como Anton Chigurh em No Country for Old Men)
MORALISTAS DA DUPLA MORAL E PROGRESSISTAS EM TEMPO PARCIAL, NÃO FAZEM PARTE DA SOLUÇÃO, MAS, SEM NENHUMA DÚVIDA, FAZEM PARTE DO PROBLEMA.
Eu escolhi o nome Javier Bardem, e não é aleatório. Eu poderia ter enviado esta carta simbólica para Angelina Jolie ou Billie Eilish ou para essa encarnação do antissemitismo ainda mais ruim, que é Roger Waters. E além do mundo rutilante dos famosos, a lista de líderes políticos que poderiam merecê-la pululam por todos os cantos da demagogia. Aí estão os Pedro Sanchez, os Petro, os Mélenchons, as Igrejas… Todos aqueles vigilantes barulhentos que cospem sua propaganda do átrio da sua soberba moral. Muitos… , tantos… , tão presentes e estridentes há pouco tempo e agora tão ausentes e calados.
Mas de todos eles, eu escolho Javier Bardem porque ninguém encarna com tanta precisão a indecência de uma esquerda caviar que só levanta o punho, com indignação impostada, quando a causa se encaixa com a sua obsessão ideológica. Aquele Bardem fundado no Free Palestine que cumpre todos os requisitos do ativismo sectário. “Um ator comprometido”, dizem as manchetes rutilantes, mas esquecem-se do verbo que o acompanha: compromisso, depende… Depende se Israel tem alguma coisa a ver, ou os americanos, ou o colonialismo capitalista, ou Trump, ou as direitas pérfidas…
É o protótipo do “sem jews, sem news”, de modo que se não há judeus ou yankees envolvidos, não há causa, não há cartaz e não há indignação. São os progressistas do nosso tempo, tipos de grito na manifestação e verbo acusador que decidem quais causas são dignas, quem são vítimas e quem são carrascos.
Nunca, na história da luta pelos direitos humanos, houve tanta hipocrisia arrogante e rasteira como agora.
Onde estão eles?
Onde estiveram?
Nunca os ouvimos quando o Hamas transformou Gaza numa prisão de dois milhões de pessoas, que saqueou, empobreceu, reprimiu e condenou a um ciclo permanente de violência.
Nunca os ouvimos quando o Iémen estava em anos de guerra atroz, abalado pela loucura xiita.
Nunca, quando o Irã fabricou o seu círculo de fogo, alimentando o ditador sírio, financiando as piores organizações jihadistas e destruindo o Líbano, enquanto ameaçava destruir Israel.
Também não os ouvimos quando milhares de israelitas sofreram o terror de 7 de outubro: bebês nos seus berços, famílias inteiras, idosos, jovens cantando num festival, mortos, feridos, sequestrados.
Seu silêncio, quando as mulheres nos explicaram o horror dos seus corpos violados.
Seu silêncio quando bebês eram afogados…
Nunca houve flotilhas para eles.
E outros, tantos silêncios. Nunca os ouvimos quando o Afeganistão se tornou um inferno terrível para as mulheres, as meninas sem escolas, as jovens sem rosto, o hálito por trás de uma prisão de pano.
Nunca no horror do Sudão, nunca na dor cristã na Nigéria, nunca em lugar algum, porque, se os maus não são os que eles homologam ideologicamente, não existem vítimas, nem existem causas.
Por isso nunca os ouvimos falar da dor dos iranianos. Apesar de o terrível regime dos aiatolás ter transformado a liberdade num crime penal e ter mantido o seu poder na repressão e na morte, nunca ouvimos os Bardem. Pelo contrário, foram essas esquerdas moralistas e doutrinárias que antigamente iam visitar o “libertador dos persas”, um tal Khomeini, e aplaudiram a sua “revolução social”.
Durante décadas, eles nunca se preocuparam com a repressão contra cidadãos iranianos, diretores de cinema presos, opositores condenados à morte, estudantes torturados, nunca, nada… Pelo contrário: alguns desses gurus da esquerda irredenta se tornaram jornalistas dos canais iranianos que tentavam vender seu veneno por meio da Hispan TV. Aí estão os Pablo Iglesias.
E é por isso que agora, quando o Irã arde por todos os seus lados, com um povo extraordinariamente corajoso que enfrenta diretamente a morte, e com milhares deles sendo mortos, todos estes atores, jornalistas, políticos “compromeditos” não estão, não falam, não gritam, não levantam cartazes, não andam em excursões em flotilhas, nada Talvez alguma Irene Montero se despiste e diga alguma coisa, mas só para avisar que Trump é muito ruim e que Israel é culpado do que acontece no Irã.
Esta é a miséria de uma esquerda zarolha e dogmática que ideologizou tanto as causas universais, que acaba sendo cúmplice dos carrascos. Sua obsessão antiocidental e seu paternalismo arrogante pelo Islã tornaram-os incapazes para a causa da liberdade. Falam muito dela, mas torcem o significado dela até ficar oca.
Esse é o ativismo dos Bardem de turno: UM GRITO VAZIO, MORALISTAS DE DUPLA MORAL E PROGRESSISTAS EM TEMPO PARCIAL.
NÃO FAZEM PARTE DA SOLUÇÃO, FAZEM PARTE DO PROBLEMA.
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