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Grupos judaicos aliados a Mamdani se mobilizam contra zonas de proteção em sinagogas

Imagine o seguinte: em Nova York, onde o antissemitismo tem sido um problema sério, a nova presidente da Câmara Municipal, Julie Menin – que é judia e democrata centrista –, propôs uma lei no mês passado para criar zonas de proteção de 30 metros ao redor de sinagogas, mesquitas, igrejas e escolas. A ideia é que a polícia imponha essas áreas para evitar assédio e intimidação, especialmente depois de protestos recentes que deixaram a comunidade judaica preocupada. Mas os grupos judaicos aliados a Mamdani, exigem os sionistas tenham o direito de serem acossados em suas instituições.

Tudo começou com dois incidentes notáveis. Um foi em uma sinagoga no East Side de Manhattan, durante um evento da Nefesh B’Nefesh, que ajuda judeus a imigrarem para Israel, incluindo assentamentos na Judeia e Samaria. Ativistas anti-sionistas apareceram e usaram discursos discriminatórios, violentos e ameaçadores contra judeus. Inclusive gritos e cartazes para expulsar os judeus de Nova Iorque. Outro protesto rolou em Queens, em um evento de imóveis israelense que incluía informações sobre Ma’ale Adumim, também na Judeia e Samaria, bem próximo à Jerusalém. Ali, os manifestantes gritaram slogans apoiando o Hamas. Foi pesado.

A governadora de Nova York, Kathy Hochul, também entrou na dança e sugeriu uma medida estadual com zonas de 7,6 metros só para sinagogas. Mas aí veio a oposição: na segunda-feira, grupos judaicos de esquerda radical – como Jews for Racial and Economic Justice (JFREJ), Jewish Voice for Peace-NYC (JVP-NYC), IfNotNow NYC e o American Council for Judaism – soltaram uma declaração conjunta contra essas zonas. Eles veem isso como um ataque à liberdade de expressão. Esses grupos apoiam o prefeito Zohran Mamdani, que se identifica como anti-sionista, e o JFREJ é o mais próximo dele. Outros ativistas anti-sionistas, como o Pal Awda (que organizou aqueles protestos nas sinagogas), também lançaram uma campanha contra a proposta.

Chega a ser inacreditável

Como pode algum judeu, seja de que espectro político for, defender que gritar “Judeus Fora de Nova Iorque!”, na porta de uma sinagoga de Nova Iorque é “liberdade de expressão?” É crime de expressão! É crime de ódio!

Os defensores da lei, como Menin, argumentam que é essencial combater o antissemitismo – afinal, judeus são as vítimas mais comuns de crimes de ódio em Nova York. Eles comparam às proteções que já existem para clínicas de aborto no estado. Já os opositores dizem que isso restringe protestos e enfraquece a Primeira Emenda da Constituição americana. Em sua declaração, eles reconheceram que protestos fora de sinagogas podem causar desconforto ou medo real, mas argumentam: “Quando sinagogas hospedam eventos políticos não religiosos, elas estão escolhendo isso sabendo que podem atrair protestos.” Eles enfatizam que Nova York é uma cidade aberta que permitiu aos judeus prosperarem por séculos, e pedem para fortalecer as proteções à liberdade de expressão, não erodi-las. “Uma democracia livre e aberta é essencial para a segurança de todos os nova-iorquinos, incluindo as comunidades judaicas”, disseram.

Mamdani ainda não se posicionou oficialmente – ele disse que está esperando uma análise legal da proposta. A lei precisa passar pela Câmara antes de chegar a ele; se ele vetar, o conselho pode derrubar o veto com dois terços dos votos. Enquanto isso, o governo federal já agiu contra protestos em casas de culto em lugares como Nova Jersey, e ativistas judeus de esquerda tiveram destaque em um evento inter-religioso da prefeitura na semana passada.

No fundo, isso expõe uma divisão: de um lado, a necessidade de proteger contra discriminação antissemita; do outro, o direito a protestos anti-sionistas políticos. Para os grupos de esquerda, a segurança vem da solidariedade com outros grupos, mas depois do ataque de outubro de 2023 em Israel, muitos judeus mainstream se sentiram abandonados por aliados antigos. E vale notar: essas zonas não proibiriam protestos totalmente, e na prática, teriam impacto limitado, já que manifestações perto de sinagogas são raras – o protesto pró-Hamas de dezembro, por exemplo, já estava a mais de 30 metros das entradas.

O que a esquerda judaica de Nova Iorque está exigindo é que a máxima antissemita “os judeus não tem a direito a se proteger”, seja discutida em lei. Não importa que os quatro grupos sejam majoritariamente compostos por judeus, tenham rabinos e rabinos, intelectuais. São especificamente antissemitas. Criticar a política israelense não é antissemitismo. Determinar que os cidadãos de Israel são fascistas genocidas que só tem o direito de sair de lá e ceder a terra aos palestinos, é antissemitismo.

Desde que Mamdani assumiu a prefeitura em primeiro de janeiro, o número de incidentes antissemitas na cidade cresceu 182%, ainda que a mídia esteja colocando terra por cima e não publicando. Esperava-se que os antissemitas de todos os espectros políticos, ideológicos e religiosos da cidade se sentissem legitimados a agir, contando com a indulgência de um prefeito que é tão antissemita que se orgulha em dizer que os judeus não tem direito a ter um Estado próprio em nenhum lugar do planeta Terra.

Sempre que você ler numa manifestação contra Israel “Fim da Ocupação”, não se trata de Israel sair de Gaza (onde não esteve entre 2005 e outubro de 2023) e não se trata de Israel sair da “Cisjordânia”. Se trata apenas dos judeus saírem do país, chamado Israel.

Imagem de divulgação do Jewish Voice for Peace-NYC, cujo nome correto deveria ser Jewish Voice for Palestine, pois segue a linha de que a paz para os judeus só vai existir sem o Estado de Israel. São uns imbecis e o Mamdani os adora.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.