O segredo do Grande Israel
O maior segredo sobre o Grande Israel é que ele não existe, nunca existiu e nunca irá existir.
Estamos tocando nisso porque o embaixador dos EUA, Mike Hukabee afirmou que a Grande Israel seria ótima para os judeus, logo numa entrevista ao antissemita mor Tucker (Tuches) Carlson que deitou e rolou por cima: tá vendo, ele disse, é verdade, os judeus querem a Grande Israel!!!
Mas nas narrativas antissemitas de todas as vertentes políticas e religiosas publica-se que “os judeus” pretendem que Israel tenha o território do Rio Nilo ao Rio Eufrates, na Mesopotâmia, significando o Israel atual, o Sinai, parte do Egito, a Faixa de Gaza, a Jordânia, quase todo o Iraque e a Síria. Isso, com 16 milhões de judeus no mundo. Estas regiões árabes já são desérticas com 86 milhões de habitantes. É impossível ter o controle sobre elas com 16 milhões de habitantes.
Esta visão, por si só é completamente ilógica, portanto é aceita sem pestanejar pelos antissemitas, pois o antissemitismo também é ilógico, questão de fé, e não de realidade.
O pior é que muitos setores hareidis judaicos também acreditam nesta bobagem. É gente que vive pela fé, onde a lógica não existe e é contrária à fé. Ademais, não se ensina história e geografia em nenhuma yeshivá. Eu queria que algum yotuber em Israel pegasse hareidis na rua para mostrarem onde estão os países do Oriente Médio. Vamos lembrar que este tipo de questionamento já foi muito feito nos EUA, com pessoas da geração Z nas ruas, com a pergunta simples: com quantos países os EUA fazem fronteira, e não são capazes de responder, mesmo tendo aulas de geografia. Muitos sequer sabem em quem continente os EUA estão…
A história na yeshivá se limita ao que existe do Tanach: Torá e nos outros livros. E lá existe sim a questão. Não com o nome de Grande Israel, mas com o que Deus, Adonai, prometeu a Abraão e seus descendentes e vamos ver isso muito direitinho logo a seguir.

Mas primeiro eu quero analisar uma das acusações que pesa sobre o Betar e Jabotinsky de serem os patrocinadores da ideia da Grande Israel. Tudo se centra na imagem acima, um pôster de fato do Betar, de 1920. Todos os antissemitas legendam: mapa da Grande Israel proposta pela direita judaica do Nilo ao Eufrates! E muitos judeus, bobamente dizem a mesma coisa. O mapa é o do MANDATO BRITÂNICO DA PALESTINA. O pôster é de 1920, um ano antes da Inglaterra ter dado 70% da área azul para a família Hussein, do governador de Meca, pela ajuda deles contra os turco otomanos na Primeira Guerra Mundial, em promessa feita pelo coronel Lawrence da Arábia.
O pôster do Betar apenas cobrava a declaração Balfour de que a região da “palestina”, nome romano, cristão ocidental, seria dada aos judeus. Mas os britânicos, primeiro dariam aos muçulmanos a maior parte dela. Este mapa não tem nada a ver com Egito, Rio Nilo ou Rio Eufrates, e mesmo que isso seja graficamente visível, as pessoas olham e veem o que querem ver. Ou, também passaram em recuperação nas aulas de geografia. Afinal, para que aprender a diferença entre um cabo, um istmo e um promontório?

Se alguém quiser comprovar, vá em https://www.islam21c.com/politics/israeli-wants-to-colonise-middle-east/, isso mesmo Islã do Século 21, onde eles contam os segredos do que os judeus pretendem com o Oriente Médio, inclusive escravizar todos os muçulmanos. É muito ridículo.
Umas das coisas que Tuches Carlson, Monarks, Informantes e Escobares ficam sem saliva de falar é que o Grande Israel está na Torá. Ok, vamos ver o que está escrito.
Sim, existe uma passagem na Torá (no livro de Gênesis, que faz parte da Torá judaica) onde Deus faz uma promessa a Abraão sobre a terra que seria dada aos seus descendentes. Essa promessa aparece em Gênesis 15:18, onde Deus diz: “Naquele dia, o Senhor fez uma aliança com Abraão, dizendo: ‘À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates'”.
O “rio do Egito” é frequentemente interpretado como o rio Nilo por muitos comentadores e fontes bíblicas, embora haja debates entre estudiosos que o associam a um wadi no Sinai (como o Wadi el-Arish ou Wadi Gaza). Essa promessa descreve uma vasta extensão de terra que inclui territórios habitados por vários povos antigos, como os queneus, quenezeus, cadmoneus, hititas, perizeus, refains, amorreus, cananeus, girgaseus e jebuseus.
Essa é a principal referência na Torá a essa promessa específica, e ela é reiterada em outros contextos bíblicos, mas com variações nos limites exatos em passagens como Números 34.
Ops??? Quer dizer que aquela frase em Gênesis é “regulamentada” em Deuteronômio (em hebraico “devarim”, Palavras), o quinto e último livro da Torá, do Pentateuco. Sim, e muito, mas muito especificamente mesmo. Vamos ver abaixo.
Pela falta de conhecimento geográfico os religiosos, que tanto explicam palavras, artigos e preposições do texto da Torá, decidiram não entender a diferença entre rio NO Egito e rio DO Egito. O Nilo é um rio NO Egito. O Rio do Egito era a fronteira norte, na região da Faixa de Gaza onde o Egito começava. Do outro lado do rio era o Egito, portanto, Rio do Egito. Em vários mapas da Idade Média Alta ele está assinalado.
Deuteronômio, palavra que a imensa maioria das pessoas não sabe o que é, trata-se de mais uma das deturpações dos 70 escribas judeus da Septuaginta (Versão dos 70), a tradução do Tanach para grego, feita por nós. Significa em grego “A Segunda Lei”. Opa! Para tudo! Então nossos escribas pegaram um título que significa “estas são as palavras” e mudaram para “a segunda lei”? Sim, fizeram isso. E os católicos mudaram para “números”, que não faz sentido e não incentiva a leitura. E é por isso que o fizeram.
Então nós temos uma primeira lei e uma segunda lei? Sim, Devarim muda muita coisa, inclusive a redação dos 10 Mandamentos. Então devemos seguir a primeira lei ou a segunda lei? Grande pergunta. Eu diria que como a segunda lei veio depois como um ajuste, é ela que vale, mas não anulou a primeira lei… Então, cada um segue o que quiser seguir quando os textos são excludentes. E neste caso da “Grande Israel” são muito diferentes.
Em Números 34, o capítulo da Bíblia (parte da Torá, no livro de Números) descreve as fronteiras da terra de Canaã que Deus ordena que seja dada aos israelitas como herança. Aqui está o texto do capítulo, conforme a versão NVI-PT (Nova Versão Internacional em Português), extraído de uma fonte bíblica confiável.
Números 34
- O Senhor disse a Moisés:
- “Ordene aos israelitas e diga-lhes: ‘Quando entrarem em Canaã, a terra que lhes será dada como herança terá estas fronteiras:
- Ao sul, a região incluirá parte do Deserto de Zim, junto à fronteira de Edom. A fronteira sul começará no leste, a partir da extremidade sul do Mar Morto,
- passará ao sul do Passo do Escorpião, continuará até Zim e passará ao sul de Cades-Barnéia. Então irá até Hazer-Addar e Azmon,
- onde virará, juntar-se-á ao Wádi do Egito e terminará no Mar Mediterrâneo.
OBS: aqui está melhor definido que o Wadi do Egito (rio temporário) e não o Rio Nilo - “‘Sua fronteira oeste será a costa do Mar Mediterrâneo. Este será o seu limite a oeste.
- “‘Para o norte, traçará uma linha do Mar Mediterrâneo até o monte Horebe
- e do monte Horebe até Lebo-Hamate. Então a fronteira irá até Zedade,
Obs: nenhum destes nomes são locais, mas definições geográficas. Horebe, provavelmente é o Monte Hermon e Lebo-Hamate é no Sul da Síria, mais ou menos onde a fronteira está hoje. Então a linha norte é dada pelo Hermon. Fora da lógica e dentro da fé, existe um importante arqueólogo britânico do século 19 (tinha que ser inglês) que definiu que o monte Horebe era o Monte Sinai e pilhas de acadêmicos acreditam nesta asneira de que o “limite norte fica no sul”. Sinceramente, é um pensamento inaceitável. Pois ficaria mais ao sul que o Wadi do Egito que o limite sul…
- continuará até Zifrom e terminará em Hazer-Enã. Este será o seu limite ao norte.
- “‘Para o leste, traçará uma linha de Hazer-Enã até Sefã.
- A fronteira descerá de Sefã até Riblá no lado leste de Ain e continuará pelas encostas a leste do Mar da Galileia.
OBS: a fronteira leste vinda do norte, inclui todo o Mar da Galileia e desce ao longo do Jordão, basicamente como está hoje, sem incluir nada do que está a leste do Rio Jordão. - Então a fronteira descerá ao longo do Jordão e terminará no Mar Morto.
“‘Esta será a sua terra, com suas fronteiras em todos os lados.’”
Depois disso vem a definição das 12 tribos e seus líderes. Ah, é aí que fica? É.
Portanto, como quisemos demonstrar, o conceito da Grande Israel, mesmo que defendido por setores judaicos que desconhecem a geografia não está amparado no texto da Torá, pois a Segunda Lei determinou que as fronteiras são basicamente as hoje existentes, sendo até mais extensas em relação ao sul, indo até Eilat.
Imagem ilustrativa de Tucker Carlson e sua legião de zumbis estúpidos contra algo que que não existe, criada por IA. Se por acaso você se parecer com alguma das pessoas na imagem, isso é uma vergonha!
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

