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A maldição de Altalena

Neste dia em que a direita judaica comemora o encontro do navio Altalena, a 500 metros de profundidade e a cerca de 20 km do litoral de Israel, o professor Israel Blajberg nos brinda com um texto iluminado e com um título assustador: a maldição de Altalena!

O turista que passeia pela praia em Tel Aviv vai encontrar numa calcada um marco de pedra com uma placa amarela perdida em meio aos grandes hotéis da Tayelet, o calçadão onde os israelenses passeiam aos milhares nos finais das tardes de verão.

Inscrição Memorial – “No dia 21 de junho de 1948 o navio de carga de armas I2L Altalena, ancorado neste litoral, foi bombardeado por ordens do governo provisório de Israel. Ele transportava 930 passageiros que vieram combater na guerra contra os exércitos árabes invasores. Algumas das armas recuperadas foram utilizadas pelo exército de Israel durante a Guerra da Independência.”

Estas placas históricas ultimamente se tornaram mais comuns em diversos pontos de Tel Aviv. Depois que os governos trabalhistas foram derrotados nas eleições. Com a ascensão de Begin, o papel do Etzel – Irgun Tzvai Leumi (Organização Nacional Combatente) e dos grupos Lehi e Stern foi mais divulgado. Até um Museu do Etzel foi construído nos limites entre Tel Aviv e antiga cidade árabe de Yaffo.

Alguns chamam-nos de terroristas, querendo igualar aqueles lutadores pela liberdade com os desprezíveis assassinos de hoje em dia. Na verdade, aquelas organizações seriam prosaicos jardins de infância se comparados com os que hoje atormentam a humanidade. Suas ações nunca eram contra civis, e sempre com aviso prévio.

Quando criança, tive uma amiguinha chamada Altalena. O nome soa bonito em português e vem a ser o pseudônimo sob o qual Jabotinski escrevia. Foi um patriota, que hoje repousa no Monte Herzl, em Jerusalém, ao lado de outros pais da pátria, que em vida o estigmatizaram e hoje estão condenados a, por uma licença poética, “conviver” com ele…

A placa na praia indica justamente o local em que o Altalena foi bombardeado por canhões de artilharia. Navio do Etzel, em 1948, trazia armas que seriam importantes para a defesa do então nascente Estado de Israel, para uso de seus 930 passageiros que pretendiam ser combates e mais, para os que já estavam empregados na defesa desesperada de Israel.

Mas Ben Gurion, a maior liderança da esquerda socialista judaica, não pensava assim. Temia que Beguin pudesse tomar o poder com aqueles reforços. Temia um golpe de estado da direita judaica. Determinou que o navio fosse bombardeado diante de Tel Aviv. Qual Caim, levantando a mão contra Abel, o gesto novamente se repetia, pela primeira vez em milhares de anos.

No Museu do Etzel, conheci um velho lutador, já em idade avançada, que estava dentro do Altalena naquele dia. Sefaradi, falava o ladino, que possibilita a comunicação perfeita com qualquer brasileiro.

Um de seus irmãos estava na praia. Pertencia ao Palmach, unidade de choque da Haganá, que viria a ser o embrião das futuras Forças de Defesa de Israel.

Sabendo que o irmão estava a bordo, recusou-se a atirar. O comandante das tropas que atacaram o Altalena era ninguém menos que aquele que um dia viria a ser o Premier, Yitzhak Rabin…

Em junho de 1948, durante o incidente do Altalena (20-22 de junho), Yitzhak Rabin era o comandante da Brigada Harel (da Palmach). Ele tinha sido nomeado para esse cargo em abril de 1948, aos 26 anos. Durante o Altalena, ele estava no quartel-general do Palmach em Tel Aviv (por acaso, visitando a futura esposa Leah) e, como oficial mais graduado no local (tenente-coronel), assumiu o comando das forças que enfrentaram os homens do Irgun a partir da praia.

Mas estava escrito que o destino lhe seria cruel. Quem feriu irmãos haveria de perecer por um outro ataque fratricida. 

Se o velho guardião do Museu do Etzel estava certo, pelas mãos de Igal Amir, Rabin pagou por aquele dia distante de 1948.

Hoje, junto da sua esposa Leah, ele também repousa perto de Beguin e Jabotinski. A vida os afastou, mas a morte os uniu.

Aparentemente, Leah também pagou um preço pelo marido. Uma doença incurável a consumiu lentamente. Antes mesmo do seu falecimento, a tumba onde ela deveria repousar, que forma um conjunto na figura de arco com o túmulo do marido, embora vazia, já ostentava uma quantidade razoável de pedrinhas sob a futura lápide ainda em branco, indicando que muitos não haviam esquecido…

Os judeus costumam colocar pedrinhas em sinal de respeito sobre as lápides, após o sepultamento e não antes, mais duradouras que as flores.

Quanto a Ben Gurion, que autorizou a abertura de fogo contra o Altalena, nada lhe aconteceu. Morreu de velhice em idade avançada. Talvez o Grande Arquiteto do Universo o tivesse poupado, em virtude de ter sido figura chave na criação do primeiro Estado Judeu após 2 mil anos.

Rabin pagou em sangue pelo erro de Ben Gurion.

Israel é um país cheio de placas. Nos últimos anos já houve tantos atentados que nem existe mais tempo hábil para se fazer novas placas. Em lugar disso, o Presidente inaugurou no Monte Herzl um monumento a todos os mortos em atentados terroristas desde o século passado.

Grandes muros negros de mármore listam um a um os nomes de todos os que caíram na Terra Santa, Al Kidush Hashem (pelo Santificado Nome).

Infelizmente, nem bem o monumento foi inaugurado, e muitos outros nomes já precisam serem implantados.

Rabin encontrou o seu destino numa ampla esplanada em Tel Aviv, onde se situa a sede da Prefeitura. Local muito usado para comícios e manifestações, tem uma escada de acesso, próxima à qual Igal Amir disparou o tiro fatal. Uma placa representa os perfis de todos que estavam ali naquele instante.

Um vídeo que estava sendo realizado durante o evento registrou também a musica de fundo, que foi a ultima que alcançou os ouvidos de Rabin aqui na Terra:

“Somos …
Um país tropical.
Abençoado por Deus …”

Eram 21h40 do sábado, 4 de novembro de 1995. No instante do ataque fatal, dez pessoas estavam naquele acesso: o próprio Rabin, 4 guarda-costas, seu motorista, o Chefe de Polícia de Tel-Aviv, um policial, um estudante que conseguira entrar como penetra, e o assassino, Igal Amir.

O Senhor Deus dos Exércitos dera seu veredito, irrevogável.

Rabin e Leah pagaram por Ben-Gurion.

Emmanuel Monroe Fein, um capitão esquecido

Nascido em 1923. Serviu como oficial na Marinha dos EUA durante a campanha do Pacífico. Foi capitão do “Altalana” em nome do Irgun em 1948. Ao se iniciar a 2ª Guerra Mundial Monroe paralisou seus estudos acadêmicos e se alistou na Marinha. Fez o curso de oficiais e foi nomeado comandante de um navio de transporte da Marinha, que, entre outras ações, participou da invasão das Ilhas Marshall. Mais tarde, durante a guerra, ele foi servir em outro navio que transportava aviões e participou do ataque à Japão. Faleceu em 1982.

Após o fim da guerra, Fein foi dispensado da Marinha dos EUA em 1946 na patente de tenente. Ele voltou para Chicago e encontrou trabalho como gerente de escritório de uma editora em Chicago.

Em Chicago, Fein pediu demissão do seu trabalho e se ofereceu para ajudar a causa sionista. Ele conheceu o representante do Irgun, Avraham Stavsky, e foi nomeado capitão do Altalena em nome do Irgun, desde seu ponto de partida em Port-de-Bouc, França, até o recém-formado estado de Israel em junho de 1948.

Pelo professor Israel Blajberg

Imagem principal, colorizada do Altalena em chamas.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.