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Quatro Anos de Resistência Inquebrantável: Ucrânia Enfrenta o Terror Russo com Coragem e Esperança

No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia lançou a “Operação Militar Especial” contra a Ucrânia, atacando simultaneamente a partir de sua própria fronteira e da Bielorrússia. A desculpa de Putin era guerra para combater o nazismo na Ucrânia. Se tornou o terror russo na Ucrânia e o terror para os soldados russos na guerra.

A expectativa dos comentaristas russos para o regime era de que Kiev iria cair em 3 dias. Já se passaram 1.460 dias. A expectativa dos planejadores militares russos era de que apenas 10% da população ucraniana iria resistir. Mal havia drones. A Ucrânia tem o maior sistema hídrico da Europa, com quase todos os rios correndo de norte a sul. Muitas travessias. Poucas pontes. A maioria nas rotas de avanço russas foi derrubada e a blitz putiniana virou uma blitz putanesca.

Milhares de soldados e veículos russos que entraram pela Bielorússia para chegar a Kiev pelo oeste ficaram semanas parados ao longo de centenas de quilômetros de uma única estrada, porque o governo demoliu a ponte grande que ligava a estrada à capital. Um planejamento russo horrível. Estas tropas só não foram massacradas porque não podiam mais avançar e todos os recursos ucranianos estavam sendo utilizados no leste.

Depois vieram os drones comerciais comprados no Ali Baba, com uma granada de mão dentro de um copo de plástico. A granada de mão, arma de combate corpo a corpo, passou a ser fatal a 15 km de distância. Depois prenderam ogivas antitanque RPG com silver tape em drones de uso recreativo e passaram a matar tanques de guerra. Hoje, ambos os lados fabricam e empregam milhares de drones por mês. Hoje há ogivas especiais e bombas sob medida. É uma mistura de Primeira Guerra Mundial com o Exterminador do Futuro. Não existe mais onde um soldado de infantaria se esconder no campo de batalha. São mortos em estradas, em campo aberto, dentro de florestas, atrás de uma árvore, dentro de trincheiras, debaixo de um carro e até mesmo no banheiro. Dificilmente durante um combate.

Os tanques de guerra terminaram. Deram lugar a veículos blindados. Terminaram e deram lugar a jipes, veículos off-road chineses, kombis russas e carros Lada. Depois vieram motos e o que mais se vê hoje são cavalos. Passou no campo de batalha, um drone te pega. E isso acontece dos dois lados. Os ucranianos tentam não matar os cavalos, apenas os russos.

A diferença brutal de mortos do lado russo para o lado ucraniano se deve à Ucrânia usar o conceito ocidental de médicos de combate (majoritariamente mulheres) e evacuação de feridos. Do lado russo, todos os dias vemos soldados feridos cometendo suicídio no campo de batalha, sabedores de que “help is not on the way”, a ajuda não está a caminho. O número de feridos ucranianos é enorme, o número de feridos russos é baixo. Tem quiosques de venda de próteses nos shoppings ucranianos…

Os drones nos levaram a uma nova realidade da divulgação da batalha. Por vezes, a guerra inteira se resume ao drone que quer te pegar e suas tentativas de sobreviver: tentar escapar é fútil, como diria um Borg. A quantidade de soldados russos mortos, já sem arma, sem munição, jogando qualquer coisa tentando acertar o drone nos seus dois últimos segundos de vida, é desconcertante. Onde estavam suas armas? Assistir suicídio de soldados nos levou a entender como se faz, por ordem de preferência: tiro de fuzil com cano apoiado embaixo da boca (do rosto), granada de mão contra o rosto ou contra o peito, enforcamento com o torniquete elástico para estancar hemorragias, cortar a jugular com a faca e, ficar parado, de pé em campo aberto esperando um drone explodir contra suas costas. Frequentemente os russos pegam fogo, nestas explosões. Dizem que é por vodca nas mochilas.

Existe uma coleção gigante de “faces da morte”, a última imagem do soldado que o drone vai matar. Isso nunca existiu em guerra alguma. O terror, o desespero, a certeza de que a vida acabou, divulgada aos quatro ventos pelas mídias sociais. Relativamente poucas pessoas ainda veem isso.

Hoje, o sistema de defesa ucraniano declarou que 30% dos drones russos de longo alcance abatidos foram atingidos por drones antiaéreos. Em dezembro, não chegava a 1%. Usar drones para abater drones parece lógico. Ontem drones shahed UCRANIANOS, fruto de reengenharia dos drones shahed russo-irananianos atacaram, com sucesso a fábrica dos shahed na Rússia, de onde saem 600 unidade por dia. Os danos não parecem ter sido pesados, mas o jogo mudou. Aliás, jogo sem regras.

Eu sei que você não vai acreditar, mas é a verdade, ou muito próximo da verdade. A guerra de 3 dias já custou aos russos: 435 aeronaves, 348 helicópteros de combate e transporte, 11.685 tanques de guerra, 24.063 blindados de transporte de tropas, 37.429 canhões, 1.651 veículos lançadores de mísseis, 1.303 sistemas de defesa antiaérea, 79.295 veículos motorizados de todos os tipos, 4.073 veículos especiais (tratores, guindastes, socorro de tanques), 29 navios, dois submarinos e 140.408 drones de todos os tipos abatidos. É muito difícil acreditar nisso, mas é a verdade.

1.258.890 baixas, e Putin canta vitória e está a fim de continuar a guerra. O povo russo está cagando e andando para estes números, provavelmente não sabe. Aliás, onde estavam o milhão e 300 mil pessoas que estavam aqui? O quadro desta guerra dentro da Rússia é o inverso de 1984 de Orwell, quando o Estado, controlando 100% da informação, inventou uma guerra inexistente para manter o cabresto sobre a população, limando os opositores como prisioneiros. Vão faltar homens para casar e ter filhos na Rússia.

A Rússia está envolvida numa guerra real catastrófica e o controle da informação mostra à sua população que está tudo bem, mesmo com os drones ucranianos atingindo sistematicamente alvos a mais de 1.000 km da fronteira, dentro da Rússia. Está tudo bem, estamos vencendo os nazistas satanistas pedófilos. Ah, não tente se manifestar contra a guerra porque a lei proíbe e você vai para a cadeia e depois, vai para… a guerra.

Ninguém mais recorda, no primeiro ano da guerra quando Putin criou uma lei que dava liberdade aos prisioneiros condenados após 6 meses de contrato militar. Diz-se que mais de 20.000 condenados russos foram exterminados desta maneira e ao que se sabe, nenhum sobreviveu aos seis meses. Um voluntário chines num vídeo emocionado para casa afirmava que os soldados que chegavam morriam em 15 dias e que ele já tinha sido ferido três vezes e tinha pouca esperança de voltar à China. Pedia aos familiares para falar com a embaixada em Moscou.

Mais de 6.000 soldados norte-coreanos, país que ensina nas escolas que a Segunda Guerra Mundial ainda não terminou e que a Coreia do Norte é um oásis de resistência cobiçado por todos (absolutamente orweliano), conseguiu finalmente enviar tropas para combater nazistas e depois conseguiu construir um lindíssimo mausoléu com mais de 6 mil placas de nomes dos tombados na luta contra o nazismo e dias atrás anunciou que os familiares dos mortos vão receber casas. Minha Casa, Minha Morte, é o projeto lá.

por José Roitberg jornalista e pesquisador.

Imagem ilustrativa dos filhos de Putin comemorando a vitória gerada por IA.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.