MundoÚltimas notícias

Hezbollah ameaça governo do Líbano que não se intimida

O que gerou esta situação? O gabinete de governo do Líbano aprovou na semana passada, um decreto obrigando ao desarmamento de todas as facções no país. Não apenas o Hezbollah. O governo quer restabelecer o monopólio da força, que qualquer estado soberano precisa ter e, finalmente, evoluiu para a verdade, entendendo que as facções, principalmente o Hezbollah, têm um arsenal muito maior que o estado, com a diferença de não possuírem nem aviação nem blindados: apenas o governo os possui.

Secretário-Geral do Hezbollah em pronunciamento na TV Libanesa e mídias sociais: Não entregaremos nossas armas enquanto houver ocupação

(NE: ocupação aqui não significa Israel estar nas fazendas de Sheba junto ao extremo norte do Estado Judeu, mas a existência do Estado Judeu, que segundo o Hezbollah xiita, é uma agressão aos muçulmanos).

O Secretário-Geral do Hezbollah, Naim Qassem, fez um discurso militante na manhã de sexta-feira por videochamada, transmitido durante uma cerimônia em Baalbek que marcou o quadragésimo dia desde a morte do Imam Hussein. Aqui estão os principais pontos:

Não entregaremos nossas armas enquanto a agressão continuar e enquanto houver ocupação – se necessário, travaremos uma campanha semelhante à Batalha de Karbala (NE: na Batalha de Karbala, o Imam Hussein foi morto, no século 7, após a morte de Maomé. A guerra foi a que cindiu xiitas – minoria seguidora de Ali, dos que viriam a ser os sunitas, a imensa maioria – em outras palavras, Naim Qassem fala de uma guerra suicida religiosa contra todas as probabilidades, até a morte, se necessário).

Agora estamos diante de duas escolhas: estar com o Imam Hussein ou com Yazid ibn Muawiya (NE: aquele que matou o Imam Hussein na Batalha de Karbala).

O governo libanês tomou uma decisão equivocada em 5 de agosto (NE: a decisão de desarmar o Hezbollah), e ele será responsável pela explosão interna no Líbano e pela destruição do país. Não queremos uma guerra civil, mas isso pode acontecer.

(NE: Dirigindo-se ao governo libanês) Como vocês tomaram tal decisão? Não veem o Chefe do Estado-Maior de Israel parabenizando seus soldados pela ocupação do sul do Líbano e prometendo mais conquistas? Não ouviram as declarações de Netanyahu sobre a visão de um Grande Israel? (NE: O Irã é um dos grandes patrocinadores do libelo antissemita da “Grande Israel”, afirmando que nós, os judeus, pretendemos dominar toda a região fértil do Egito – as duas margens do Rio Nilo, até o sul da Turquia, incluindo o Líbano, a Jordânia, 90% da Síria e do Iraque, todo o norte desértico da Arábia Saudita e até mesmo o Kwait).

Agradecemos ao Irã por nos apoiar de todas as formas possíveis e até mesmo por sacrificar mártires ao nosso lado. O Irã ainda está conosco.

### Naim Qassem busca a radicalização religiosa na batalha pelo desarmamento do Hezbollah, traçando um paralelo entre a Batalha de Karbala e o confronto atual. Isso ocorre menos de um dia após seu encontro com Ali Larijani, Secretário-Geral do Conselho de Segurança Nacional do Irã, que está visitando o Líbano. O Hezbollah não vai ceder facilmente. O governo libanês enfrenta um teste real.

O Ministro da Justiça do Líbano responde ao discurso militante de Naim Qassem e à sua ameaça de guerra civil caso haja tentativa de desarmar o Hezbollah:

As ameaças de certos indivíduos de destruir o Líbano para proteger as armas que possuem põem fim ao argumento de que suas armas são destinadas a defender o Líbano.

O Primeiro-Ministro do Líbano, Nawaf Salam, responde às ameaças feitas  pelo Secretário-Geral do Hezbollah:

As declarações de Naim Qassem carregam uma ameaça velada de guerra civil. Ninguém no Líbano quer uma guerra civil, e tais ameaças são inaceitáveis.

O Líbano tomou uma decisão independente sobre as armas no país, sem relação com os EUA ou Israel.

Nenhuma parte tem permissão para portar armas no Líbano, exceto o Estado. Ninguém exigiu que as armas do Hezbollah sejam entregues a Israel.

As armas devem ser entregues ao Exército Libanês. É preciso ter cautela contra ações irresponsáveis que possam desencadear uma guerra civil.

Presidente do Partido Forças Libanesas (Cristão) contra o discurso do Secretário-Geral do Hezbollah:

O discurso proferido por Sheikh Naim Qassem foi completamente inaceitável sob qualquer padrão. O discurso constitui uma ameaça direta, em primeiro lugar, ao governo libanês, bem como à maioria parlamentar que concedeu confiança a este governo.

Também constitui uma ameaça direta a todas as instituições constitucionais do Líbano, em primeiro lugar ao Presidente e ao Primeiro-Ministro.

É também uma ameaça direta a todos os libaneses livres. Se Sheikh Naim presume que não existem mais libaneses livres no Líbano, ele está enganado — gravemente enganado. Se ele presume que dessa forma pode impor sua autoridade inexistente sobre esses libaneses livres, está enganado novamente.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.