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A guerra em números: o que rolou nesses 40 dias de conflito entre Irã e Israel

Com o cessar-fogo entrando mais ou menos em vigor, agora dá pra ver o tamanho real dessa guerra que durou cerca de 40 dias. Os números são impressionantes.

Do lado iraniano:

  • O Irã disparou cerca de 650 mísseis balísticos contra Israel e mais de 1.100 contra os países muçulmanos sunitas do Golfo Pérsico. Nenhum drone iraniano lançado contra Israel chegou ao país. Mas os drones lançados contra os países árabes do Golfo causaram danos, principalmente em instalações civis, do petróleo, mas também em bases militares americanas.
  • Apenas 16 mísseis balísticos com ogivas convencionais atingiram o tecido urbano de Israel. O número de mísseis que foram deixados passar e atingiram espaços abertos (de acordo com o protocolo) não foi informado. A mídia woke e pró-iraniana aponta cada um destes mísseis que não acertou nada, como um “impacto direto em Israel”
  • Havia um grande receio do Irã ter dezenas ou centenas de mísseis hipersônicos, mas só conseguiu disparar 5 (confirmados, dos quais um foi abatido e quatro atingiram Tel Aviv. Isso pode ser considerado um resultado bom, pois não se esperava abater nenhum deles.
  • Mais da metade deles carregavam ogivas de cluster (bomblets que se espalham como chuveiro por uma grande área de 200 km quadrados). 50 destes mísseis não foram abatidos e não sabemos o motivo. Antes da divulgação oficial dos números deste artigo, a Força Aérea Israelense havia afirmado que não estava abatendo mísseis com ogivas cluster por opção, e que teriam havido impactos de bomblets de 50 delas (a maioria com 20 bomblets, mas havia modelos com 80 bomblets, todos de baixíssimo potencial ofensivo com dois modelos: a mais utilizado tem apenas 2,5 kg de explosivos e o maior tem 6 kg). As bombas consideradas pequenas desta guerra são as de 450 kg. Como o número oficial indica que mais de 325 mísseis tinham ogivas cluster e apenas 50 não foram abatidos, a FAI precisa explicar melhor. Ainda assim foi um desempenho espetacular da defesa em Israel.
  • No primeiro dia foram uns 80 mísseis, depois 60, 30… e aí a média caiu para 10-20 por dia até o final.

As vítimas em Israel:

  • 20 civis israelenses e estrangeiros morreram.
  • Outros 4 palestinas morreram na Cisjordânia, dentro de um salão de cabeleireiro.
  • Total: 24 mortos, todos civis.
  • Mais de 7.000 feridos, a grande maioria por quedas indo para abrigos e em acidentes de carro. Os que precisaram de atendimento por ansiedade são contabilizados como feridos também.
  • Quase todos os mortos estavam fora dos abrigos quando os mísseis caíram, uma moça de 17 anos foi atropelada enquanto atravessava a rua sem olhar indo para um abrigo e um senhor de 102 anos caiu e bateu com a cabeça andando rápido para um abrigo.
  • Mais de 5.500 israelenses ficaram desalojados por causa dos danos nas casas.

O que Israel fez:

  • A Força Aérea israelense realizou mais de 10.800 ataques em mais de 4.000 alvos diferentes no Irã.
  • Foram mais de 18.000 bombas lançadas em mais de 1.000 ondas de ataques.
  • Aviões israelenses fizeram 8.500 sortidas (voos de combate) até o Irã.
  • Os americanos, por sua conta, fizeram outros 13.000 ataques.

Resultados no Irã:

  • Cerca de 60% dos lançadores de mísseis balísticos iranianos foram destruídos ou inutilizados (de um total estimado de 470).
  • 85% dos sistemas de defesa aérea e radares foram destruídos.
  • Toda a indústria de produção de mísseis balísticos foi duramente atingida — o Irã não consegue fabricar novos mísseis no momento.
  • Muitos comandantes militares importantes foram eliminados, incluindo o próprio ex-líder supremo Ali Khamenei logo no primeiro dia.
  • Estima-se que mais de 10.000 homens da Guarda Revolucionária tenham sido mortos. Não há qualquer dado oficial nem sobre a IRGC, nem sobre a milícia Basij, polícia ou exército. Os que morreram em áreas de subsolo atingidas por bombas perfurantes de 13,5 toneladas, provavelmente vão ficar no local que estão.
  • 158 navios da Marinha Iraniana foram afundados. Sobrou apenas um que está arrestado num porto na Índia.
  • Toda a aviação de combate, transporte militar, transporte civil de uso do governo e helicópteros de combate e transporte foi destruída.
  • Todos os ministérios militares, quartéis generais principais e alternativos, bunkers de comando e postos de comando foram destruídos.

Outros alvos:

  • Instalações nucleares, fábricas de armas, quartéis-generais, infraestrutura de gás, siderúrgicas, petroquímicas e até pontes e trechos importantes de ferrovia (para complicar o transporte de armas e causar prejuízo econômico).
  • As principais pequenas pontes ferroviárias e os principais viadutos rodoviários foram destruídos. Surpreendentemente, o Irá possuía como “arma secreta” módulos de concreto pré-fabricados para reconstrução de pontes ferroviárias. A que ligava Teerã ao sul do país voltou a operar no terceiro dia. No sétimo dia todas tinham sido reconstruídas, um feito brilhante de engenharia dos iranianos. Não se pode subestimar a capacidade dos que construíram as cidades de mísseis (as três em princípio foram destruídas) nem as instalações de subsolo do programa nuclear (tudo destruído). Se lhes for dado tempo e liberdade, vão reconstruir tudo de forma melhor e mais moderna.

No final, o porta-voz das Forças de Defesa de Israel disse que a operação “Roaring Lion” (Leão Rugindo) cumpriu e até superou todos os objetivos: enfraqueceu seriamente o regime iraniano, destruiu grande parte de suas capacidades militares e removeu ameaças existenciais de longo prazo.  É uma guerra que ainda terminou e vive com um cessar-fogo morno, com o Hezbollah se recusando a parar. Israel não perdeu um só soldado na guerra contra o Irã. As perdas são apenas no Líbano contra o Hezbollah. Inacreditavelmente nenhum avião israelense foi atingido ou teve problemas e caiu. Os drones de vigilância que o Irã abateu, incluindo americanos, israelenses e provavelmente um dos EAU, num total entre 16 e 24 (fontes divergentes) são considerados descartáveis, militarmente.

O Irã não conseguiu atingir nenhum alvo militar ou de infraestrutura em Israel e seus mísseis balísticos de longa distância se mostraram, mas uma vez, tendo a intenção de projeto dos V1 e V2, da Alemanha nazista e de seus sucessores soviéticos SCUD, de terem apenas cidades como alvos, não tendo qualquer possibilidade de atingir, intencionalmente, um alvo dentro de uma cidade. Enquanto isso, mais de 95% dos mísseis e bombas lançados sobre o Irã foram armas de precisão absoluta. Pela norma militar de taxa de falha de 10%, estima-se que existam  em torno de 3.000 bombas e mísseis falhados, de todos os tamanhos, no Irã.

Uma delas é uma bomba perfurante de bunker que está alojada lá no fundo de Fordow, a última a ser lançada. É muito provável que ela tenha tido o detonador modificado para ser acionado apenas quando a bomba chegasse ao fundo e ficasse aguardando a bomba ser movimentada para explodir. Com isso, o subsolo de Fordow está interditado, para todos os esforços, com o risco de uma explosão enorme de 2,5 toneladas de explosivos que a bomba contem.

O Irã que sempre afirmou que não possuía proxies agora afirma que o Hezbollah no Líbano, no Iraque e os Houthis do Iémen fazem parte dos forças do Irã e que ataca-los é como atacar o Irã. Mas quando eles atacam Israel ou os países do Golfo, não é como se o Irã estivesse atacando.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador
Imagem: enquanto o Irã joga bombas de 2,5 kg nas cidades israelenses, é este tipo dano que as bombas guiadas de 900 kg que Israel utiliza, causam no Irã. Foto das mídias sociais iranianas.

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.