Israel pede a transferência de restos mortais de judeus sepultados no Líbano
Negociações entre Israel e o Líbano incluem um pedido incomum: a transferência para Israel dos restos mortais de judeus enterrados em cemitérios libaneses.
Segundo o jornal libanês Al-Akhbar, ligado ao Hezbollah, a parte israelense apontou a existência de um grande número de túmulos judaicos em Beirute e Sidon. Muitos desses sepultados têm parentes que hoje vivem em Israel.
A comunidade judaica no Líbano tem uma história longa. Foi o único país árabe onde a população judaica chegou a crescer após a criação de Israel, em 1948, chegando a cerca de 10 mil pessoas. Com o tempo, porém, o número caiu drasticamente: nas décadas de 1970 já eram apenas algumas centenas e, hoje, restam no máximo algumas dezenas de judeus no país.
De quantos túmulos a serem trasladados está se falando?
Existem estimativas relativamente consistentes, com base em pesquisas de especialistas como Nagi Georges Zeidan (historiador libanês que catalogou os cemitérios) e fontes como JewishGen, Wikipedia e reportagens.
Em Beirute
- Cemitério judaico de Beirute (também chamado de Beth Elamen / בית עלמין, ou cemitério de Ras el-Nabaa / Sodeco), na fotos principal do artigo.
- Localização: próximo à praça Sodeco, no bairro de Achrafieh / Ras el-Nabaa, com entrada pela Rue de Damas (Damascus Street).
- Estimativa de sepulturas: cerca de 3.300 a 3.407 tumbas.
- Fontes citam 3.308, 3.300 ou 3.407 (este último número é frequentemente mencionado por Zeidan).
- Há um banco de dados com cerca de 3.184 lápides legíveis; outras ~200 estavam ilegíveis ou destruídas (isso é comum em cemitérios judaicos até mesmo pelo desgaste das inscrições nas pedras pelas condições climáticas).
- Fundado em 1829 (primeiro enterro: rabino Moïse Yedid Levy). Usado até pelo menos 2009–2014. Durante a guerra civil libanesa ficou na “Linha Verde” e foi minado, mas depois desminado.

Em Sidon (Saida)
- Cemitério judaico de Sidon / Saida (às vezes referido no contexto de Nabi Saydoun / área sul da cidade).
- Localização: na periferia sul de Sidon, sobre uma duna antiga, próximo a um antigo aterro/lixão e à costa.
- Estimativa de sepulturas: cerca de 300 a 313 tumbas (algumas fontes dizem “mais de 300” ou “cerca de 310”).
- Muitas lápides estão danificadas, ilegíveis ou ainda enterradas sob a areia; a lista de nomes identificados é incompleta.
- Algumas tumbas datam do século XVIII; o último enterro conhecido é de 1985.
- Foi parcialmente restaurado a partir de 2015 com financiamento anônimo de um judeu libanês expatriado, sob coordenação de Nagi Zeidan. Durante a guerra civil, alguns falecidos de Beirute foram levados para lá (pelo menos 18 casos).



Túmulo 21 do cemitério judaico de Sidom, mostra o desafio de identificar corretamente os corpos sem os livros de registro de enterrados. Só foi possível identificar 200 lápides.

Dados aproximados (só haverá certeza quando começar a operação, principalmente em Sidon onde há túmulos não visíveis, cobertos pela areia): Beirute ~3.300–3.400 sepulturas + Sidon ~300–310 = total em torno de 3.600 a 3.700 túmulos judaicos nessas duas cidades. Não há estimativa oficial precisa e atualizada do governo. Aparentemente inexistem livros de registros de enterros que tenham sobrevivido ao êxodo dos judeus do Líbano. É possível (e isso não é incomum) que imigrantes da associação funarária Chevra Kadisha das duas cidades tenham levado consigo os livros. Numa campanha mundial e aberta, talvez estes documentos sejam redescobertos.
Neste momento inicial não está claro se seriam removidos todos os túmulos, ou apenas os de famílias que estão em Israel.
Esperamos que o traslado mantenha as pedras tumulares originais sempre que possível, situação que vimos não acontecer na transferência de túmulos de Vila Madelena para o Butantã, em SP, por determinação da associação funária.
Como surgiu esta ideia?
O tema surgiu no contexto das conversas sobre a libertação de prisioneiros libaneses detidos por Israel durante a guerra. Jerusalém teria proposto uma espécie de “troca de prisioneiros civis”: a transferência dos restos mortais em troca da liberação de apenas parte dos detidos — excluindo operativos do Hezbollah.
Relatórios anteriores já indicavam que as negociações em Roma incluíam uma via “jurídica” separada para tratar dos prisioneiros libaneses (fora do círculo do Hezbollah). A atmosfera em torno desse ponto foi descrita como positiva.
As conversas ocorrem no âmbito de um acordo de diretrizes firmado em junho, mediado pelos Estados Unidos. O entendimento prevê o desarmamento do Hezbollah, a retirada gradual das forças israelenses do sul do Líbano e o envio do exército libanês para a região, começando por áreas-piloto. Esta parte, em três áreas piloto está implementada e aparentemente está dando certo.
Os dois países já realizaram sete rodadas de negociações desde que o Hezbollah entrou no conflito regional, em março, com disparos de foguetes contra Israel em solidariedade ao Irã.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

