Seis semanas de protestos violentos de hareidim no Shabat em Jerusalém. Isso é permitido?
O assunto é delicado e complicado. Um café em Jerusalém, Cafe Basimta (Café no Beco), decidiu ficar aberto durante o shabat. Não é o único na cidade de Jerusalém. Existem alguns outros abertos, inclusive todos os hotéis da cidade. Seus donos e empregados são “judeus” (colocado entre aspas intencionalmente, leia até o final).
No shabat passado, nova manifestação hareidi, defronte o Cafe Basimta, pela sexta semana seguida, que precisa ter alambrado e proteção policial. Os hareidim de várias escolas e vertentes, totalmente alucinados gritando “Shabos! Shabos!” (shabat é ídiche), forçando o alambrado, tentando entrar, exigindo o uso de força física por policiais. Ovos e até saco com fezes foram jogados contra o Cafe. Num dos primeiros protestos, quando ainda não tinha nem alambrado nem polícia, cadeiras externas foram quebradas, uma das vidraças foi atingida por uma pedra.
No último protesto, Yar Golan, ex-presidente do Meretz, aquele mesmo que disse que “soldados de Israel atiravam em crianças palestinas por esporte” e outros políticos de extrema-esquerda israelense estavam do lado de dentro do alambrado “protegendo” “os judeus” do Café Basimta.
Mas… e tem um MAS ENORME, são Jews For Jesus. O café foi aberto pelo movimento Jews For Jesus, movimento criado por judeus nos EUA que é PROSELITISTA DEMAIS, sempre fazendo propaganda para outros judeus de que se nós não aceitarmos Jesus, nós iremos para o Inferno!

Acredito que neste ponto, o leitor não está entendendo nada, resumo: a principal liderança judaica comunista de Israel defendendo Jews For Jesus, de ortodoxos judeus hareidim que não aceitam que eles abram no shabat? Será que estão todos malucos?
Não existe problema algum em Israel para os árabes cristãos ou muçulmanos abrirem seus negócios, dirigirem seus taxis no shabat. O shabat é para judeus! E com estes protestos anormais, os hareidim DETERMINARAM QUE OS JEWS FOR JESUS SÃO JUDEUS, e portanto tem que respeitar o shabat! Essa determinação é válida? Claro que não!
Entendendo menos ainda, né? Concordo. O Jews For Jesus está dando risadas de orelha a orelha pois estão sendo legitimados como judeus pelos hareidim que mal aceitam que judeus reformistas, conservadores, liberais e ortodoxos modernos sejam judeus. É o samba do camelo doido!
Existe prefeito em Jerusalém e todos os diversos órgãos que uma prefeitura tem que ter? Claro! Mas em um mês e meio o prefeito e o setor de ordenamento do comércio não abriram a boca. Não querem colocar a mão no vespeiro.
Se os hareidim estivessem protestando contra o Jews For Jesus, eu, como autor estaria batendo palmas para eles. Já tive meus entreveros com eles em ações deles contra atividades judaicas no Rio de Janeiro. É horrível, na porta de um evento, um casal vir sorrindo dar um folheto dizendo que você vai pro inferno! Isso viola totalmente o artigo 5 da Constituição e a liberdade de culto do Jews For Jesus não pode ser alegada ser Legal, quando importuna a liberdade de credo de dos judeus. Eles simplesmente acreditam que a liberdade de credo dos judeus é inválida e só a deles é válida. Em Israel chama-se isso de “trabalho missionário”.
Você e qualquer outro judeu deve estar se perguntando se é permitido aos hareidim protestar com qualquer grau de violência durante o shabat. E para isso, fiz uma pesquisa profunda.
Existe alguma lei judaica, Halachá ou determinação rabínica que autorize o protesto violento no shabat?
Não existe nenhuma regra, determinação ou psak (decisão) em Halachá que permita a judeus — hareidim ou quaisquer outros — saírem às ruas em protestos com uso de violência durante o Shabat.
O que a Halachá realmente diz
Shabat é inviolável
As 39 melachot (categorias de trabalho) e todas as proibições rabínicas de Shabat permanecem em vigor. Sair em massa para protestar, carregar objetos, gritar de forma que interrompa o descanso público, jogar objetos (ovos, sacos de água, fezes etc.), empurrar, tentar invadir locais ou confrontar a polícia — tudo isso envolve issurim (proibições) claros de Shabat. Não há heter (permissão) para isso.
Violência é proibida em qualquer dia, e com muito mais força no Shabat
A Torá proíbe ferir o próximo (chavalah), danificar propriedade e causar chilul Hashem (profanação do Nome). No Shabat, a gravidade é ainda maior. Não existe fonte nos Rishonim, no Shulchan Aruch, no Mishnah Berurah ou nos poskim acharonim que autorize violência física para “defender o Shabat”.
A obrigação de protestar (tochacha e mecha’ah) tem limites claros
Sim, existe o dever de protestar contra a profanação pública do Shabat. Mas isso deve ser feito de forma legítima, sem violar o próprio Shabat e sem recorrer à violência. Os grandes poskim (desde o Rambam até os gedolei hareidim contemporâneos) sempre enfatizaram que quem comete aveirot para “impedir aveirot” de outros está cometendo um pecado ainda mais grave.
Não se desrespeita o Shabat para “salvar” o Shabat.
O que se vê nessas semanas em Jerusalém
Os confrontos em frente ao Café Basimta (e em outras manifestações hareidim) envolvem tentativas de invasão, arremesso de objetos, empurrões e choques com a polícia e com civis. Isso não tem base em nenhum din ou minhag autêntico. Trata-se de comportamentos de grupos fringe (extremistas marginais), muitas vezes jovens, que não representam a maioria dos talmidei chachamim nem a Halachá clássica. Os verdadeiros gedolim hareidim consistentemente condenam a violência e o chilul Shabbat.
Protestar pacificamente e dentro dos limites da Halachá → permitido (e em alguns casos obrigatório).
Sair em protesto violento no Shabat → proibido de forma absoluta. Não há nenhuma heter ou “determinação especial” que o autorize.
Quem age assim está, na verdade, profanando o Shabat e o Nome de Hashem, em vez de defendê-lo.
Sendo um autor judeu, eu esperava nunca ter que escrever um texto destes…
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador.

