Tragédia Judaica: 74 anos Da Noite dos Poetas que Stalin Mandou Fuzilar
12 Agosto 1952 – 2026 – 74 anos
Sete meses antes de morrer Stalin mandou fuzilar na prisão de Lubyanka 13 intelectuais judeus, fundadores do extinto Comitê Judaico Antifascista – CJAF. Comunistas sinceros, negavam a religião. Alquebrados pelas torturas, depois de assinar falsas confissões, caminharam para frente do pelotão de fuzilamento sem saber porquê.
O imortal e belíssimo poema de Feffer (na foto principal), embora pleno de contradições, é um poderoso lembrete que demonstra como Feffer — e muitos outros — viam sua identidade como judaica e soviética. Mas quase imediatamente após a guerra, as atitudes mudaram e Feffer removeu o poema de coletâneas de sua obra. O poema foi usado como prova contra ele no julgamento. Feffer foi o mais controverso dos escritores idish assassinados por seu envolvimento com o CJAF, pois delatou seus colegas escritores à polícia secreta e serviu como principal testemunha de acusação no julgamento.
Mas não é simples ou fácil condená-lo: apesar de sua longa filiação ao Partido Comunista e uma vida inteira de serviço à revolução, no final ele também perdeu a vida, condenado por “nacionalismo judaico.”
Apesar das contradições, reflete em muito a alma judaica, e ao mesmo tempo nos faz recordar a Yevsektzia de triste memória, braço judaico do Partido Comunista, incumbido de suprimir a religião, o ensino do hebraico e o sionismo, em favor da pátria-mãe socialista.
Que sirva de lição para os dias de hoje. Este artigo é um dado histórico para todos aqueles que alegam que nunca existiu antissemitismo no regime soviético!

Histórico
Na noite de 12 de agosto de 1952 (conhecida como a Noite dos Poetas Assassinados), 13 intelectuais judeus ligados ao Comitê Judaico Antifascista (CJAF / JAC) foram fuzilados na prisão de Lubyanka, em Moscou. Stalin morreu em março de 1953, cerca de sete meses depois.
Os nomes dos 13 condenados e executados são:
Peretz Markish (Perets Markish) – poeta e escritor em iídiche
David Hofstein (Dovid Hofshteyn / David Hofshtein) – poeta em iídiche
Itzik Feffer (Itsik Fefer) – poeta em iídiche
Leib Kvitko (Leyb Kvitko) – poeta e escritor infantil em iídiche
David Bergelson (Dovid Bergelson) – romancista e dramaturgo em iídiche
Solomon Lozovsky (Shlomo Lozovsky) – dirigente bolchevique, ex-vice-comissário das Relações Exteriores e chefe do Sovinformburo
Boris Shimeliovich – diretor médico do Hospital Botkin, em Moscou
Benjamin Zuskin (Veniamin Zuskin) – ator e diretor do Teatro Estatal Judaico de Moscou (sucessor de Solomon Mikhoels)
Joseph Yuzefovich (Iosif Yuzefovich) – historiador e líder sindical
Leon Talmy (Lev Talmy) – jornalista e tradutor
Ilya Vatenberg – advogado, jornalista e editor
Chaika Vatenberg-Ostrovskaya (Khaya / Chaika Vatenburg-Ostrovskaya) – tradutora (esposa de Ilya Vatenberg)
Emilia Teumin – editora
Observações
Havia originalmente 15 réus no processo.
Lina Stern (cientista) foi condenada a prisão e exílio e sobreviveu.
Solomon Bregman caiu em coma durante o julgamento e morreu na prisão em janeiro de 1953.
Embora o episódio seja chamado de “Noite dos Poetas Assassinados”, apenas cinco dos executados eram escritores/poetas em iídiche. Os demais eram intelectuais, médicos, jornalistas e dirigentes ligados ao Comitê.
Solomon Mikhoels, presidente do CJAF, já havia sido assassinado em janeiro de 1948 (em um “acidente” de carro encenado).

O Comitê Judaico Antifacista foi formado na URSS em 1942 com o objetivo de obter apoio judaico internacional para a luta contra Hitler. É curioso que Stalin que fez o Pacto Molotov com Hitler e sendo seu aliado pelos primeiros dois anos da Segunda Guerra Mundial, agora enviava intelectuais judeus comunistas para a América, angariar simpatia e fundos.
O cartaz e claro. No primeiro evento nos EUA, 47.000 presentes. O convite agora era para o segundo evento na Califórnia, com o maestro Yehudi Menuhim e orquestra.
Os oradores, o prof Solomon Michoels, à direita sem óculos, apresentado como um dos principais artistas soviéticos e Ytzik Feffer, não apenas poeta, mas “heróico tentente-coronel” do Exército Vermelho, portanto um oficial superior.
“Sou Judeu” *Ich bin a yid*
Poema de Itzik Feffer 1941 – Tradução Livre do Yiddish por Israel Blajberg
“Sou judeu”
O vinho de gerações que perduram
Fortaleceu minha jornada errante
A espada maligna da dor e dos lamentos
Nada do que prezo pôde matar
Meu povo minha fé e minha cabeça erguida
Não pôde impedir-me de ser livre e verdadeiro
Sob a espada clamei em voz alta
“Sou judeu!”
Faraó, Tito e Haman fizeram de mim seu alvo
Para me matar em suas épocas e terras
A eternidade ainda traz o meu nome
Em suas mãos
Na Espanha sobrevivi ao potro da tortura
E às fogueiras da Inquisição
Minha trombeta ecoou a mensagem
“Sou judeu!”
Quando o Egito cercou meu corpo
Senti angústia
Semeei minha dor no chão
Vi o nascer do sol
Sob o sol estendia-se um caminho
Onde avultavam espinhos e pedras
Enquanto perfuravam meus olhos eu clamava
“Sou judeu!”
Os cabelos de Sansão que Dalila cortou
Brilhavam mais do que o ouro
Sempre um grito estava em meu íntimo
“Sou judeu!”
A sagacidade do Rabino Akiva
E a palavra do sábio Isaías
Mantiveram vivo o amor em mim
Até que meu ódio despertou
E senti o sangue dos Macabeus
Que os tiranos mataram
Clamei com todas as forcas
“Sou judeu!”
A sabedoria de Salomão me guiou
Ao longo do meu caminho errante
Vejo o sorriso irônico de Heine
Como açoite e aguilhão
A canção de Yehuda Halevi em minha mente
Ecoa incessantemente
Muitas vezes esmoreci mas jamais morri
“Sou judeu!”
Nas praças de Amsterdã
Spinoza trabalhou sem jamais vacilar
Sobre esta terra como um sol radiante surgiu
Karl Marx e sua palavra
Encheu minhas veias de sangue vermelho e fresco
E renovou meu velho coração
Curou minhas mágoas e minhas dores
“Sou judeu!”
Meus olhos se deslumbram com o brilho do poente
Num quadro de Levitan
Percorro a estrada que Mendele trilhou
E encontro a baioneta do soldado do Exército Vermelho
A foice brilha sobre o milho maduro
Sou filho desta terra soviética onde nasci
E também
“Sou judeu!”
Do porto de Haifa em resposta
De Londres chega a resposta para mim
De Buenos Aires e de Nova York
Vêm canções de judeus que lutam e trabalham
Pelo telégrafo invisível
Que interliga os corações judaicos
E até mesmo do inferno em chamas
Vem um estremecimento que conheço bem
Em todos eles uma palavra ressoa
“Sou judeu!”
Sou um judeu que bebeu
A felicidade na taça de Stalin
Àqueles que deixariam Moscou afundar
Sob a terra eu grito “Não”
Os eslavos também são meus irmãos
“Sou judeu!”
Meu sangue flui para a eternidade
Apoio-me no orgulho que sinto por Sverdlov
E por Kaganovitch amigo de Stalin
Meus jovens avançam velozes sobre a neve
Meu coração lança bombas e dinamite
Por toda parte o chamado ressoa
“Sou judeu!”
Não estou sozinho! Minha força cresce
A batalha é agora o meu pão de cada dia
Lanço a tempestade a rugir e soprar
O inimigo nazista jaz inerte
Gorelik e também Papernik
Clamam debaixo da terra
“Sou judeu!”
Apesar do inimigo que vem para destruir
Sob a Bandeira Vermelha eu viverei
Plantarei vinhedos para meu deleite
E nesta terra eu prosperarei
Faça o que fizer o inimigo
Salvaremos a liberdade do mundo
Ainda vou dançar sobre o túmulo de Hitler
“Sou judeu!”
Por prof Israel Blajberg

