História

1º de setembro de 1939: o bombardeio naval que abriu a Segunda Guerra Mundial

Quem sabe que foi um bombardeio naval que abriu a Segunda Guerra Mundial e não a invasão alemã da Polônia por terra? Conheça esta história

Há 87 anos, num dia como hoje, a Alemanha Nazista invadiu a Polônia e deu início à Segunda Guerra Mundial — seis anos de sofrimento que atingiriam com brutalidade especial o povo judeu, culminando no Holocausto. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, o conflito não começou com colunas de tanques cruzando a fronteira terrestre. Começou no mar, com os canhões de um couraçado disparando contra uma pequena guarnição polonesa.

O ataque ao amanhecer

Nos dias que antecederam o ataque, a tensão entre Alemanha e Polônia já era extrema. Em 25 de agosto de 1939, o couraçado alemão Schleswig-Holstein atracou no porto de Danzig (atual Gdańsk) sob o pretexto de uma “visita de cortesia” — na verdade, um posicionamento estratégico disfarçado. A cidade, então classificada como “Cidade Livre” sob proteção da Liga das Nações, tinha maioria populacional alemã, mas abrigava um pequeno depósito de trânsito militar polonês na península de Westerplatte, usado pelo exército da Polônia desde 1924.

Foto pouquíssimo conhecida que marca o início da Segunda Guerra Mundial, tirada de bordo do encouraçado alemão mostrando como o alvo estava próximo e em tiro direto.

 

Às 04h45 do dia 1º de setembro de 1939, sem qualquer declaração de guerra, o Schleswig-Holstein abriu fogo à queima-roupa contra a guarnição polonesa de Westerplatte. O navio estava posicionado a poucas centenas de metros do alvo, na foz do rio Vístula, e seus canhões de grosso calibre atingiram diretamente os depósitos e as poucas construções de defesa polonesas. Esse bombardeio é amplamente reconhecido pelos historiadores como o primeiro ato militar da Segunda Guerra Mundial na Europa — antecedendo em horas o avanço terrestre da Wehrmacht, que só cruzaria a fronteira polonesa por volta das 8h da manhã, também sem declaração formal de guerra.

A resistência desproporcional dos defensores

A força polonesa em Westerplatte era minúscula: cerca de 182 soldados, sob o comando do major Henryk Sucharski e do capitão Franciszek Dąbrowski, enfrentaram um contingente alemão muito superior em número e armamento — fuzileiros navais, apoio de artilharia naval pesada e, posteriormente, ataques aéreos. Mesmo em desvantagem de mais de dez para um, os defensores poloneses resistiram por sete dias, entre 1º e 7 de setembro, entrincheirados na área arborizada da península, até que a falta de água potável, alimentos e suprimentos médicos tornou a rendição inevitável.

Essa resistência inesperadamente longa transformou Westerplatte em um dos primeiros símbolos da resistência polonesa contra a ocupação nazista, mesmo tendo terminado em derrota militar.

Uma aliança que a história tenta esquecer

É importante lembrar um fato frequentemente apagado do imaginário popular sobre a guerra: naquele momento, Hitler e Stalin não eram inimigos, mas aliados. Poucos dias antes da invasão, em 23 de agosto de 1939, a Alemanha Nazista e a União Soviética haviam assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, um acordo de não agressão que continha cláusulas secretas prevendo a divisão da Polônia entre as duas potências totalitárias. Foi esse pacto que permitiu a Hitler avançar sobre o território polonês sem temer uma reação soviética — e, de fato, em 17 de setembro de 1939, tropas soviéticas invadiriam a Polônia pelo leste, completando o esmagamento do país entre duas ditaduras.

Um monumento pouco conhecido

Apesar de marcar o início oficial da Segunda Guerra Mundial na Europa, o local do bombardeio permanece relativamente desconhecido do grande público fora da Polônia. Na península de Westerplatte, hoje transformada em parque histórico nos arredores de Gdańsk, ergue-se desde 1966 o Monumento aos Defensores da Costa (em polonês, Pomnik Obrońców Wybrzeża), também chamado de Monumento de Westerplatte.

Alguns dados sobre o monumento:

  • Inauguração: 9 de outubro de 1966, após obras iniciadas em 1964.
  • Altura: 25 metros, erguido sobre um monte artificial.
  • Material: granito, composto por 236 blocos.
  • Autoria: projeto urbanístico do arquiteto Adam Haupt e escultura dos artistas Franciszek Duszeńko e Henryk Kitowski.
  • Forma: a estrutura vertical lembra uma baioneta cravada no solo; os baixos-relevos que a decoram, ao serem vistos de frente, formam a impressão de um rosto.
  • Simbologia do fogo: aos pés do monumento, sete colunas metálicas abrigam chamas eternas — uma para cada um dos sete dias de resistência da guarnição polonesa.
  • Inscrições: o monumento traz a frase “Nunca mais guerra” (“Nigdy więcej wojny”), disposta em letras metálicas de até dois metros de altura ao longo de um painel de cerca de 50 a 60 metros.
  • Memória em disputa: durante o período comunista, o local também exibia elementos de propaganda soviética, incluindo um tanque soviético que permaneceu exposto no memorial até ser retirado em 2007, já depois da queda do regime comunista, permitindo uma leitura mais fiel e menos ideologizada dos acontecimentos de 1939.

Hoje, o memorial de Westerplatte é palco de cerimônias oficiais todos os anos em 1º de setembro, reunindo autoridades polonesas e estrangeiras para relembrar o momento exato em que a Europa mergulhou na guerra mais devastadora de sua história. Ainda assim, para a maioria das pessoas fora da Polônia, o nome Westerplatte — e o couraçado Schleswig-Holstein que abriu fogo naquela madrugada — permanece uma nota de rodapé pouco lembrada diante da magnitude dos seis anos de conflito e do Holocausto que se seguiram.

Por José Roitberg, com colaboração do prof. Israel Blajberg

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.