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Judeus que apoiaram o nazismo? Isto existiu? Como está sendo usado hole

No sábado, dia 29/ago, o jornal americano The Atlantic, fundado em 1857, publicou um artigo intrigante sobre judeus que apoiaram o nazismo. Precisamos conferir esta história, que não conhecíamos e é verdadeira. Spoiler: judeus que apoiaram o nazismo de Hitler logo no começo e foram amplamente desprezados e descartados por Berlim. Vale a pena conhecer essa bizarrice.

Max Naumann e os outros membros da Liga dos Judeus Nacionalistas Alemães sugeriram que judeus como eles poderiam, e deveriam, ser nazistas, escreve Timothy W. Ryback. 

Nesta edição da The Atlantic, Ryback examina como esse grupo de judeus alemães chegou à crença “fatalmente ingênua” de que, se o Partido Nazista pudesse resolver as dificuldades econômicas do país, o crescente antissemitismo diminuiria. “Após a nomeação de Hitler como chanceler, em janeiro de 1933, a violência antissemita disparou horrivelmente,” escreve Ryback. A imprensa estrangeira publicou as atrocidades de forma proeminente. Em resposta, Hermann Göring, o poderoso ministro do gabinete nazista, convocou Naumann e outros líderes judeus para seu escritório. “A menos que vocês ponham um fim a essas acusações difamatórias imediatamente,” disse Göring, “não poderei mais garantir a segurança dos judeus alemães!”

Naumann havia planejado usar a reunião para protestar contra o aumento da violência antissemita; em vez disso, ele deixou o encontro como um propagandista do Terceiro Reich. A seus companheiros judeus de origem alemã, Naumann aconselhou paciência: “Hoje estamos suportando, sem dúvida, dias de raiva,” ele continuaria a escrever. “Num futuro não muito distante,” ele continuou, “Ariano e Judeu” se uniriam novamente “de mãos dadas” em uma causa comum pela pátria. “Quando este dia de autorreflexão finalmente chegar,” escreveu Naumann, “esse será o começo da verdadeira resposta à questão judaico-alemã.”

Histórias circulavam sobre os “Judeus de Naumann”, encerrando suas reuniões com saudações a Hitler e o canto do hino do Partido Nazista. Embora Naumann tenha descartado o suposto canto, ele defendeu as saudações de braço rígido e a presença de bandeiras nazistas, dizendo que os judeus precisavam “superar seu medo da suástica”. Mas, para “todos os esforços de Naumann para ganhar aprovação ou reconhecimento dos líderes nazistas para sua organização, ou para sua visão sobre qual deveria ser o lugar dos judeus no Terceiro Reich, ele nunca recebeu nenhum,” escreve Ryback.

Esse é o resumo da postagem do The Atlantic; agora entramos aqui para contextualizar e explicar.

Max Naumann (1875–1939), advogado de Berlim, capitão veterano condecorado da Primeira Guerra Mundial (Cruz de Ferro) e assimila­cionista extremo, fundou em 1921 o Verband nationaldeutscher Juden (Associação/Liga dos Judeus Nacionais Alemães, frequentemente chamada de grupo Naumann ou VnJ). Portanto ainda antes mesmo de Hitler tentar o golpe de estado em Munique e ser preso.

O grupo promovia a assimilação total dos judeus de origem alemã à cultura alemã e à Volksgemeinschaft, rejeitava o sionismo e o particularismo judaico como “não-alemães”, e fazia uma distinção rígida entre os “judeus nacionais alemães” e os judeus do Leste Europeu (Ostjuden), a quem considerava estrangeiros e problemáticos.

Naumann, portanto, dirigia uma das linhas judaicas antissionistas, absolutamente não religiosas, cujas consequências vemos ainda hoje. Não podemos esquecer, dias após o aniversário do Primeiro Congresso Sionista na Basileia, que Herzl o tinha programado para Munique e a Reforma Judaica Alemã, ainda em seu início, no final do século 19, que era nacionalista, se opôs imediatamente ao sionismo e impediu a realização do congresso em qualquer cidade alemã, tendo Herzl, sido acolhido na Suíça. Naumann estava um passo além da Reforma Judaica e teve seguidores. Já grande parte da repulsa dos judeus norte-americanos de hoje, se origina na Reforma Americana, sucessora da alemã: eram antissionistas na Alemanha e continuaram a ser antissionistas nos EUA.

Naumann e a liga argumentavam explicitamente que os judeus alemães patrióticos e plenamente assimilados deveriam apoiar o Partido Nazista (NSDAP) e o Nacional-Socialismo no interesse nacional da Alemanha, mesmo reconhecendo seu antissemitismo. Eles tratavam esse antissemitismo como secundário, temporário ou dirigido principalmente a “outros” judeus (não assimilados ou do Leste), e acreditavam que judeus como eles poderiam e deveriam se alinhar ao movimento nacionalista.

A questão do “antissemitismo temporário” é muito bem documentada pelos historiadores do Holocausto. Foram tantos momentos na Europa de leis contra judeus e depois alívio, de expulsões de judeus e depois autorização para retornar, que legitimamente, existiam os judeus que acreditavam nos anos 1930 estarem diante de mais um cenário que iria se aliviar. Ninguém via o futuro. Agiram como entenderam.

Exemplos documentados incluem:

Em 1931, Naumann defendeu publicamente que os judeus alemães patrióticos deveriam apoiar o Partido Nazista mesmo que ele fosse antissemita; reportagens da época apresentavam isso como judeus alemães patrióticos apoiando o “Partido Hitlerista” pelos interesses da Alemanha.

Após os nazistas chegarem ao poder em 1933, o grupo saudou o “despertar nacional”, emitiu declarações de lealdade (colocando o Volk  – Povo alemão — e a Pátria acima das dificuldades pessoais), buscou um modus vivendi com o regime, opôs-se ao boicote internacional antinazista e justificou aspectos das medidas nazistas contra judeus (especialmente sionistas e judeus do Leste).

Naumann enviou mensagens e telegramas de congratulações a Hitler, pediu o direito de judeus como eles hastearem a bandeira nazista/suástica, e a ala juvenil do grupo se aproximou da Juventude Hitlerista. Observadores contemporâneos e relatos posteriores os chamavam de “judeus nazistas”. Circularam histórias (às vezes contestadas em detalhes por Naumann) de reuniões terminando com saudações nazistas.

Os nazistas nunca os aceitaram. O regime dissolveu a organização em novembro de 1935 (citando atitudes “hostis ao Estado”), prendeu Naumann por um curto período e tratou todos os judeus como racialmente excluídos, independentemente de assimilação ou nacionalismo. A liga permaneceu um grupo pequeno e marginal (estimativas de membros geralmente de alguns milhares), rejeitado tanto pelas organizações judaicas alemãs majoritárias quanto pelos partidos de direita que cortejava.

Em resumo, Naumann e seus seguidores de fato sugeriram que judeus plenamente nacionais-alemães como eles poderiam e deveriam apoiar e se alinhar aos nazistas como parte do renascimento alemão — isso é um fato histórico bem documentado, não uma invenção posterior. Sua posição se revelou fatalmente ingênua.

É a partir deste fato histórico, a história de um idiota que cortejou o carrasco esperando escapar da forca, a história de um antisstionista ferrenho que tratou judeus sionistas como inimigos, que pauta postagens e até mesmo artigos na mídia árabe com o título “Os judeus apoiaram o nazismo”. Agora você já sabe do que se trata.

A morte de Naumann em 1939 merece uma explicação, Ele faleceu de câncer em 18 de maio de 1939 (algumas fontes indicam 15 de maio), em Berlim, aos 64 anos. Foi uma morte por doença natural.

Em novembro de 1935, após a dissolução forçada de sua organização pela Gestapo, ele foi preso e ficou detido por algumas semanas no campo/prisão Columbia-Haus (em Berlim). Durante a prisão, tentou suicídio (usando fragmentos de lentes de óculos, segundo relatos). Foi liberado após cerca de um mês.

Nos anos seguintes, perdeu o direito de exercer a advocacia (como todos os advogados judeus) e enfrentou dificuldades financeiras e de saúde. Planejava emigrar para a Inglaterra em 1939, mas a doença o impediu. Faleceu de câncer em Berlim e está enterrado no cemitério Südwestkirchhof Stahnsdorf (um cemitério protestante nos arredores de Berlim). Não foi possível confirmar se a comunidade judaica negou-lhe o enterro em cemitério judaico, mas é muito provável.

Não há qualquer indício de assassinato, execução ou morte violenta causada pelo regime nazista.

Como o artigo do The Atlantic está sendo usado?

A direita judaica vê a semelhança de Naumann com os judeus de esquerda que odeiam o sionismo e Israel.

A esquerda judaica vê a semelhança de Naumann, com os judeus que apoiam Trump e Bolsanaro.

Mexicanos veem a semelhança de Naumann, com os mexicanos legalizados que apoiam o ICE para a deportação de mexicanos ilegais.

Cada um vê o “Naumann” onde quer ver.

por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.