Arábia Saudita ataca Iêmen, e Houthies tentam responder
Alguns influencers da área internacional e/ou militar, estão criando um factoide afirmando que a Arábia Saudita bombardeou a pista do aeroporto de Sanaa, capital houthie, “entrando na guerra ao lado de Israel”. Fico pasmo com esse tipo de ilação: Arábia Saudita ataca Iêmen, e colocam os judeus no meio como responsáveis.
Imagem é um dos frames do vídeo do ataque às pistas do aeroporto de Sanaa, divulgado nas mídias sociais xiitas. Foram várias bombas ao longo de toda a extensão das pistas. Diga-se que a engenharia militar iemenita vai estar com tudo tapado e recuperado, amanhã, provavelmente.
Parece que esquecem ou talvez nem saibam mesmo que existiu a Guerra do Iêmen, em que uma Coalizão Sunita, composta pela Arábia Saudita, Egito, Jordânia, Marrocos e EAU, combateram os houthies xiitas que tentavam, mais uma vez, assumir o controle de todo o território do Iêmen, que é majoritariamente sunita. O desfecho desta guerra (resumo abaixo), foi os houthies assumirem o controle da capital, Sanaa, e de uma pequena região no entorno dela, ficando a assim, um “emirado xiita” muito militarizado a apenas 400 km de Meca, separado por uma cordilheira de montanhas, militarmente intransponível e deserto.
Ou seja, as tropas xiitas não tem a mínima possibilidade de marchar estes 400 km e tomarem Meca. Seriam absolutamente dizimadas pela força aérea saudita nos primeiros 50 km. Os houthies não tem força aérea.
A guerra contemporânea entre sunitas e xiitas, se iniciou com o ataque de Saddam Hussein contra o Irã, recém-revolucionário do Aiatolá Khomeini, em 1979. Após mais de oito anos de combates, inclusive com o uso de armas químicas (gás sarin) contra populações civis pelo Iraque, o saldo foide pouco mais de um milhão de mortos lá entre eles: muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas. Isso nada teve a ver com Israel ou com os palestinos.
Também nada tem a ver com palestinos, Israel, “do Rio ao Mar”, Hamas, ocupação sionista, os imensos ataques de mísseis balísticos e drones lançados pelo Irã contra todos os países sunitas da região, menos contra o Iraque: Arábia Saudita, Catar, Kwait, EAU, Bahrein e Omã. O maior indicador disso é que no início havia a narrativa de que estavam “defendendo Gaza contra a ocupação sionita” e agora atacam-se entre si abertamente. Inclusive, um dos países mais bombardeados pelo muçulmanos xiitas é o Catar, o maior patrocinador do Hamas e do antissemitismo no mundo ocidental.
No Ramadam de 2025, o governo iraniano, publicou abertamente que Meca “era guardada pelos cães sionistas”! Como assim? Então a Arábia Saudita é sionista por acaso? Cão, entre eles é uma ofensa corânica, pois o texto do Corão coloca cães e porcos no mesmo nível, diferente dos textos judaicos onde o cão é um ser protegido.
Ainda meses atrás
O governo reconhecido do Iêmen, que controla mais de 85% do território, estava fragmentado em 4 grandes áreas com lideranças diferentes, e pela força, com apoio saudita, consolidou o poder, agora em uma área só, meses atrás, tudo indicando ter eliminado, inclusive o ISIS do Iêmen.
Se esperava que durante a Guerra do Irã, aproveitando a confusão, os sauditas avançassem com tropas e mercenários (hoje, de forma politicamente correta, contratados, muito utilizados durante a Guerra do Iêmen), contra os houthies, para remover a presença militar xiita das proximidades de Meca. A mesma distância entre Rio e São Paulo. Mas isso não aconteceu.
Agora, os influencers que se nutrem de teorias de conspiração e futurologia sensacionalista, já estão a dizer que os houthies vão fechar o estreito de Bab el-Mandeb, o que travaria todo o fluxo de navegação do Canal de Suez, muito maior e mais importante para o comércio mundial que o Estreito de Ormuz.
Podemos então analisar que o ataque saudita de hoje, respondido com alguns mísseis houthies contra aeroportos sauditas (aparentemente todos abatidos pelas defesas), foi para precipitar o fechamento do Bab el-Mandeb, o que motivará, talvez, a eliminação definitiva dos houthies. O Egito não permitira que sua fonte de renda, o Canal de Suez, seja interditado por xiitas a mil km de distância. Vão atacar também.
E é um momento em que o Irã não vai poder ajudar os houthies, seu proxy mais bem sucedido, em nada.
Precisamos entender que o Iêmen Houthie é uma sociedade Orwelliana, baseada em “1984”. Existe uma guerra de verdade, limitadíssima e absolutamente inefetiva lançada pelos houthies contra Israel e uma Guerra Inventada, que é mostrada à população. Já publicaram vídeos de petroleiros atingidos anos antes, como sendo porta-aviões americanos. Já publicaram várias vezes que tinham bloqueado o Porto de Haifa (tá escrito certo), lá no Mediterrâneo. Já publicaram que os ratos judeus em Israel corriam cada vez que lhes era lançado um míssil. E recentemente, numa manifestação de rua, publicaram entrevistas “povo fala”, com homens e meninos afirmando, com muito ódio no coração, que Israel havia bombardeado Meca e que Trump havia dito que iria usar a Kaaba (enorme construção em Meca que o ponto focal do islã), como lata de lixo no Salão Oval em Washington. E as pessoas que diziam isso, pareciam mesmo acreditar no que estavam dizendo.
E nessa sociedade do “Big Sheik Brother”, a demonização dos judeus, como um povo maldito que tem que ser exterminado, está absolutamente entranhada. E isso, nada tem haver com palestinos ou Hamas: é o mais profundo ódio contra os judeus, todos os judeus, inclusive os que apoiam os palestinos.
Resumo da Guerra do Iêmen (Guerra Civil do Iêmen, 2014–presente)
A Guerra Civil do Iêmen é um conflito multilateral complexo e devastador que começou em setembro de 2014, quando os rebeldes houthis (grupo zaidi xiita, com ligações ao Irã) tomaram a capital Sanaa, derrubando o governo do presidente Abd Rabbuh Mansur Hadi. O conflito tem raízes profundas na instabilidade política após a Primavera Árabe de 2011, na pobreza extrema, na corrupção e nas divisões sectárias e regionais do país.
Principais fases
– 2014–2015: Os houthis avançam rapidamente, forçando Hadi a fugir para Aden e depois para o exterior. Em março de 2015, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita (com apoio dos Emirados Árabes Unidos e outros países sunitas) intervém militarmente para restaurar o governo reconhecido internacionalmente.
– 2015–2022: O conflito se intensifica com bombardeios aéreos da coalizão, combates terrestres e um bloqueio que agrava a crise humanitária. Os houthis controlam o norte (incluindo Sanaa), enquanto o governo e aliados controlam o sul e partes do leste. Em 2017, o ex-presidente Ali Abdullah Saleh (aliado temporário dos houthis) é assassinado.
– 2022 em diante: Um cessar-fogo mediado pela ONU dura alguns meses e, embora não renovado formalmente, reduz os combates diretos entre houthis e a coalizão saudita. As atenções se voltam para negociações de paz (mediadas por Omã e ONU) e, a partir de 2023, para ataques houthis no Mar Vermelho em apoio aos palestinos durante a guerra Israel-Hamas. Esses ataques provocaram respostas dos EUA, Reino Unido e Israel.
Situação recente (2025–2026)
– Em dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), separatista e apoiado pelos Emirados, lançou uma ofensiva no sul para controlar regiões como Hadramaut, gerando confrontos internos entre ex-aliados anti-houthis.
– Em janeiro de 2026, forças do governo (com apoio saudita) contra-atacaram, derrotaram o STC (que se dissolveu) e reorganizaram o governo sob o Presidential Leadership Council (PLC).
– O conflito principal entre houthis e o governo permanece em relativa calmaria, mas com tensões persistentes, incluindo incidentes recentes como ataques a aeroportos.
Impacto humanitário
O Iêmen vive uma das piores crises humanitárias do mundo:
– Mais de 150 mil mortos diretos (estimativas variam; o número total de vítimas indiretas é muito maior).
– 21,6 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária.
– Milhões de deslocados internos, fome generalizada e o pior surto de cólera da história.
– Destruição de infraestrutura, economia colapsada e risco constante de al-Qaeda na Península Arábica (AQAP).
Contexto geopolítico
O conflito é visto como uma guerra por procuração entre Arábia Saudita (sunita) e Irã (xiita). Apesar das negociações e da normalização Irã-Arábia Saudita, uma solução política abrangente ainda é distante devido às divisões internas (norte/sul, separatistas, islamistas etc.).
Em resumo, o que começou como uma revolta interna se transformou em um conflito regional prolongado, com consequências catastróficas para a população iemenita e impactos globais (como no comércio marítimo). A paz continua frágil, dependendo de acordos entre as principais facções e potências externas.
Pois é: Israel e os palestinos nada tem a ver com o cerne da questão no Iêmen.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

