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Existe mesmo solução para Israel no sul do Líbano?

Você não vai gostar deste artigo, apesar dele ser essencial. Existe mesmo solução para Israel no sul do Líbano?

A resposta do governo israelense é sim. A resposta de alguns militares israelenses é não. A minha reposta, como analista também é não e vou justificar em profundidade.

Eu estive em Kiriat Shemona há 20 anos. Não tinha nada para fazer lá, exceto tentar entender o que os israelenses estavam fazendo lá. Fiquei por cerca de uma hora, tomei um refrigerante, comi uns salgados e botei o rabo dentro. Você consegue se imaginar tendo uma casa com janela com linha direta de visada para a cerca da fronteira com o Líbano e vendo as montanhas (terreno elevado) do outro lado da fronteira? Eu não. Eu jamais moraria ali. Mas alguns milhares moravam, hoje bem menos milhares estão lá.

Aquela cidade é um estande de tiro para o Hezbollah se não houver um afastamento das tropas deles até 8.000 metros para trás da cerca, pois 4.000 metros é o alcance dos mísseis antitanque guiados dos modelos antigos, e 8.000 metros é o alcance dos de última geração, que o Hezbollah dispara, sem qualquer cítrica internacional contra casas e apartamentos em Israel. Os atiradores de elite, treinam, com fuzil normal até 800 metros de distância e com .50 ou russo de 14 mm atrás 1.500 ou 2.000 metros de distância. Portanto, afastar as tropas do Hezbollah a 8.2000 metros da fronteira resolve estas duas vias de ação.

Neste dia 7 de abril as FDI publicaram que já controlam toda a faixa dentro do Líbano até 9.000 metros da fronteira de Israel, portanto, em princípio estas ameaças acimas não existem mais, no momento.

Metula, pouquinho mais ao norte, vive uma realidade geopolítica, eu diria, horrível. Não há este espaço de 700 metros até a fronteira com o Líbano. A cidade está na fronteira pelo norte e leste. Dá para alguém do outro lado da cerca atirar em moradores com uma pistola 9 mm. Hoje, pelas FDI, os libaneses estão longe, a 9 km de distância.

Estas cidades do extremo norte de Israel, e existem outras das quais não se escuta falar, Margaliot (100 metros da fronteira oeste), Menara (na fronteira), Makia (100 metros da fronteira), não podem existir em tempos de guerra. Este locais só podem funcionar em tempos de paz ou sob acordo.

ATÉ O RIO LITANI

Você vem escutando que Israel vai limpar o terreno de tropas do Hezbollah até o rio Litani. E isso não vai resolver TUDO!!!

Desaguando no Mediterrâneo, o rio Litani corre, praticamente paralelo a Israel a 29 km ao norte e depois tem uma forte curva rumo norte até o vale de Bekaa. Preste atenção, por favor: o alcance dos foguetes Grad de 107 mm, tecnologia da era soviética é de 8,5 km a 11,5 km (dependendo do modelo). Portanto, se eles estiverem a mais de 29 km de distância, não poderão atingir Israel. Acredita-se que 90% do estoque de mísseis do Hezbollah seja deste modelo. Sua carga explosiva é muito baixa, com apenas 1,25 kg.

Então essa ameaça estaria removida, mesmo se o avanço israelense fosse de 12 ou 13 km apenas. Mas, contudo, porém, todavia… Os mísseis que o Hezbollah está lançando contra Naharia, Haifa, Tel Aviv e o Monte Carmel, tem alcance de 150 a 300 km dependendo do modelo. É preciso ficar claro para todos que estes mísseis que são menos imprecisos e tem ogivas maiores com 100 ou 150 kg de explosivos, não são afetados pela presença de Israel até o rio Litani. Não são disparados desde o sul do Líbano.

O afastamento até o Litani também elimina a possibilidade dos ataques com drones comerciais pequenos, para os quais o Hezbollah está se capacitando e isso estava muito bem previsto. Nas planícies da Ucrânia, o alcance do rádio é de 15 km. No terreno montanhoso do sul do Líbano o alcance será muito menor. Não existe, no atual estágio da tecnologia, como estes drones pequenos vencerem mais de 30 ou 40 km para impactarem dentro de Israel.

Qual então será o cenário?

Israel vai ter que caçar os lançadores dos mísseis maiores que poderão continuar a ser disparados contra Israel. Aliás, esta parte da missão continua. Mas não imagine que o Hezbollah vai parar de usar os mísseis de 11 km, os drones para 5 ou 6 km ou os mísseis antitanque para 4 km.

Os alvos serão as tropas de Israel dentro do sul do Líbano. Para permanecer lá, vão ter que construir unidades militares, alojamentos, refeitórios, latrinas, garagens, depósitos etc. Um paraíso logístico de alvos fixos para o Hezbollah. De 5 km atrás do Litani, vão poder disparar Grads até 6 km dentro da zona militar israelense. Se a lógica for seguida, qualquer construção israelense no Líbano ficará 12 km ao sul do Litani.

As FDI publicaram que estariam instalando postos de defesa não operados por soldados, com metralhadoras e outros equipamentos, tudo controlado da retaguarda. Desculpem se isso não me conforta como autor, pois as torres com metralhadoras .50 no entorno de Gaza eram exatamente isso e não serviram para praticamente nada.

Os drones do Hezbollah vão começar a caçar soldados israelenses como ucranianos e russos se caçam uns aos outros já há mais de um ano meio. Na semana passada saiu uma estatística ucraniana que das 1.100 baixas russas em média POR DIA, 800 soldados são estraçalhados por pequenos drones explosivos. Se antes uma granada de mão com carga de 100 gramas ou pouco mais de explosivo era uma arma de combate corpo a corpo e dificilmente mataria um soldado se explodisse a mais de 3 metros dele, hoje uma carga explosiva de 1 ou 2 kg explode de encontro a cabeça, de encontro as costas ou as pernas dos soldados de infantaria. 100% de morte. Não há como sobreviver. Israel está usando este tipo de drones contra o Hezbollah.

Na imagem deste post, parte das armas apreendidas numa casa no sul do Líbano. Drone FPV de uso comercial com sua bateria azul e quatro ogivas anti tanque de foguetes RPG adaptadas para este tipo de uso com suportes de alumínio, padronizados para fixação nos drones. Assim, um RPG que tem previsão para 300 metros, pode atingir um tanque, um veículo não blindado, um abrigo etc a até 15 km de distância com precisão. Sim, uma ogiva destas pode penetrar a blindagem de um Merkava se a atingir no lugar correto (imagem de divulgação das FDI).

Isso, meus amigos leitores está preparado para os soldados de Israel daqui um ou dois anos, pois é o atraso que o Hezbollah possui sobre ao domínio desta tecnologia. Atraso este que vai tirar o mais rápido possível.

A única possibilidade de Israel é usar seu domínio da tecnologia para criar dois tipos de sistemas que os soldados de infantaria, todos eles vão precisar: um alerta de drones e jammer, um sistema de interferência no sinal de rádio dos drones. Na Ucrânia eu já vi em vídeos do campo de batalha um alerta de drones de última geração que captura o sinal de vídeo que o drone está enviando e permite ao soldado alvo, ver o que o drone está vendo. Portanto, existem soluções tecnológicas e Israel é o país para desenvolve-las.

Mas existe um tipo de drone que não sobre interferência. Ele é ligado por um cabo de fibra ótica ao controle do operador. Os chineses desenvolveram os sistemas de desenrolador de fibra ótica. Isto está em uso pelos Ucranianos e pelos Russos. Já existem drones que levam 51 km de fibra ótica permitindo ataques onde não se imaginava possíveis em dezembro de 2025. Se você nunca viu, vai achar que não tem como funcionar, mas funciona muito bem. Por sorte, o terreno montanhoso e de mata com floresta do sul do Líbano não vai permitir a disseminação deste modelo. Nas planícies ucranianas é o top e no Iraque, o Hezbollah de lá já utiliza atacar os americanos na guerra atual.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.