Houthis dizem que há um bloqueio saudita por 12 anos: isso é verdade?
Loucura Houthi – Porta-voz dos houthis: “Apesar de dezenas de apelos das Nações Unidas e de seus enviados, e das demandas internacionais para que a Arábia Saudita levante o cerco aos portos e aeroportos do Iêmen, o regime saudita continua a apertar o bloqueio há 12 anos para aumentar o sofrimento do povo iemenita.” Ponto um, os Houthies não fazem parte da ONU.
Imagem: os houthis vão atirar em você, matar você com porretes, esfaquear você, rachar seu crânio com uma machadinha e serrar seu pescoço, não necessariamente nesta ordem – imagem verdadeira
A narrativa houthi é absolutamente orwelliana, com guerras inexistentes, vitórias inexistentes, derrotas insignificadas e mentiras sobre o inimigo, como: terem bloqueado o porto de Haifa, em Israel, no Mediterrâneo; os EUA terem bombardeado Meca na última guerra contra o Irã; Trump afirmando que ia usar a Kaaba de Meca como lata de lixo no Salão Oval; mostrar petroleiros de fato atingidos por mísseis antinavio (iranianos contrabandeados), como porta-aviões americanos afundados, etc.
Os houthies que são muçulmanos xiitas que lançaram uma guerra pelo controle do Iêmen em 2014. Dentro da lógica xiita, tudo que eles atacam tem uma benção divina de Allah e é 100% justificado e todos os ataques que são realizados contra eles são crimes, pois ninguém tem o direito a se defender ou resistir aos exércitos xiitas.
Os houthis controlam cerca de 25–33% do território do Iêmen (mais comumente citado em torno de 30–33%), mas concentram a maior parte da população (cerca de 70–75%). Ou seja, a maioria da população do Iêmen é xiita.
Eles dominam o noroeste do país: capital Sanaa, grande parte de Saada, Amran, Al Mahwit, Hajjah, Al Hudaydah (incluindo o porto estratégico), Dhamar, Ibb, Raymah e partes de Al Bayda, Marib e Al Jawf.
O restante (cerca de 2/3 a 3/4 do território) está sob influência do governo reconhecido internacionalmente (Conselho de Liderança Presidencial / PLC, apoiado pela Arábia Saudita) e grupos associados, principalmente no sul e leste (incluindo Aden e áreas ricas em recursos como Hadramaut). As linhas de frente estão basicamente congeladas desde a trégua de 2022, com poucas mudanças territoriais significativas até meados de 2026.
Fontes recentes (BTI 2026, mapas de 2025–2026 e análises) apontam aproximadamente um quarto a um terço do território sob controle houthi. Um número recorrente em análises árabes e ocidentais é ~33% (cerca de 174 mil km² de um total de ~528 mil km²). O controle é maior em termos demográficos do que geográficos.
Baixas desde o início da guerra (2014/2015)
Não se preocupe. Apesar dos números enormes, como são muçulmanos matando muçulmanos inexiste qualquer acusação de genocídio.
Não há um número oficial único e atualizado até 2026. As estimativas variam bastante e incluem mortes diretas (combate, bombardeios) e indiretas (fome, doenças, colapso da saúde).
Estimativa mais citada da ONU (até final de 2021): cerca de 377.000 mortes no total. Dessas, aproximadamente 150.000 foram por violência direta e cerca de 227.000 (60%) por causas indiretas (desnutrição, falta de assistência médica, doenças como cólera etc.). Essa é a referência mais usada em relatórios internacionais e continua sendo a base principal, pois não há atualização oficial abrangente equivalente posterior.
O número mais amplamente aceito e citado continua sendo o da ONU de ~377 mil mortes até 2021 (diretas + indiretas). Desde a trégua de 2022 as mortes diretas diminuíram significativamente, mas a crise humanitária (fome, desnutrição, colapso de serviços) persiste e continua causando mortes indiretas. Estimativas totais atuais provavelmente ultrapassam 400 mil, mas não há consenso oficial atualizado. A guerra começou de fato com a tomada de Sanaa pelos houthis em 2014 e a intervenção da coalizão saudita em março de 2015.
Existem restrições sauditas, mas não bloqueio como os houthis afirmam
Existem restrições sauditas (lideradas pela coalizão) sobre portos e aeroportos sob controle houthi no noroeste do Iêmen, que os houthis chamam de “bloqueio” desde cerca de 2015 (eles arredondam para “desde 2014”). Não se trata de um bloqueio total e absoluto de tudo, e a Arábia Saudita rejeita a caracterização de “cerco injusto e opressivo”.
Contexto histórico
A guerra civil iemenita se intensificou em 2014–2015, quando os houthis (Ansar Allah) tomaram a capital Sanaa. Em março de 2015, a coalizão liderada pela Arábia Saudita (em apoio ao governo reconhecido internacionalmente) lançou a intervenção militar e impôs restrições navais e aéreas.
O objetivo declarado era impedir o contrabando de armas (especialmente do Irã) e pressionar os houthis. Houve momentos de intensificação (ex.: após míssil houthi em direção a Riad em 2017) e alívios parciais, especialmente após a trégua de 2022.
Essas medidas contribuíram para a grave crise humanitária no Iêmen (escassez de combustível, medicamentos, alimentos etc.), embora ajuda humanitária e alguns navios comerciais tenham passado com inspeções. E nada disso impediu o contrabando de armas.
Situação atual (2026)
Restrições continuam, principalmente no controle de acesso aéreo e em inspeções navais de navios indo a portos sob controle houthi (como Hodeidah, Al Salif e Ras Issa). Voos civis e humanitários são permitidos em alguns casos, mas o acesso direto a partir do Irã é bloqueado (a Arábia Saudita bombardeou a pista do aeroporto de Sanaa em julho de 2026 para impedir um voo iraniano). Dias depois o comando houthi afirma que oficias da IRGC iraniana estavam no comando das ações militares no estreito de Bab al-Mandab, provavelmente vindos naquele avião civil que aterrissou em outro aeroporto.
A Arábia Saudita e a coalizão afirmam que não há bloqueio total: mais de 300 navios comerciais com comida, combustível e materiais atracaram em portos do norte no primeiro semestre de 2026. As medidas de segurança seguem a Resolução 2216 do Conselho de Segurança da ONU (sobre embargo de armas). Eles chamam as acusações houthi de “desinformação”.
Os houthis, por sua vez, continuam a descrever as restrições como “cerco injusto e opressivo de quase 12 anos” sobre portos e aeroportos por terra, mar e ar, e usaram isso como justificativa para declarar, em 20 de julho de 2026, um “embargo marítimo” próprio contra navios sauditas (e ameaçar fechar o Estreito de Bab al-Mandab a embarcações sauditas). Isso ocorreu em meio a tensões renovadas (incluindo o ataque ao aeroporto de Sanaa e trocas de mísseis/drones). Os houthis atingiram uma refinaria saudita numa cidade muito próxima a fronteira, apenas 100 km da linha de demarcação. Um ataque de curto alcance.
Há restrições navais e aéreas sauditas/coalizão em vigor sobre áreas controladas pelos houthis desde 2015 (não exatamente 2014), motivadas principalmente por segurança e embargo de armas. Elas não são um bloqueio completo de toda a ajuda ou comércio, e a Arábia Saudita as defende como legítimas e limitadas. Os houthis as tratam como bloqueio total e usam isso como pretexto para suas próprias ações no Mar Vermelho. A situação permanece tensa e ligada ao conflito regional mais amplo.
O que não está acontecendo?
Esperava-se na esteira dos ataques americanos contra o Irã, dois desenvolvimentos importantes.
O primeiro seria o ataque da Coalizão Saudita contra os houhis, para liberar o Iêmen e afastar um inimigo xiita que está apenas a 400 km de Meca, seu objetivo de fato.
Ao mesmo tempo, se esperava uma insurreição no sul do Iraque, região de população xiita, onde estão TODOS os principais túmulos das personalidades que formaram a teologia xiita e suas maiores mesquitas.
Haveria como que uma troca à bala: os xiitas ficariam de posse de seus principais locais teológicos e abririam mão do Iêmen. A população houthi poderia imigrar para o sul do Iraque, que seria então parte do território do Irã.
Quem são os houthis?
Os xiitas controlavam o Iêmen
Imamato zaidita (até 1962): O norte do Iêmen foi governado por séculos por imanes zaiditas (xiitas zaidis), que reivindicavam descendência do Profeta Muhammad. Esse sistema teocrático durou até a revolução republicana de 1962, que derrubou o último imane (Muhammad al-Badr) e criou a República Árabe do Iêmen. A família (tribo) al-Houthi e outros grupos zaiditas tinham influência tribal e religiosa na região de Saada, mas não eram o poder central depois de 1962.
Origem do movimento houthi (anos 1990): O movimento moderno surgiu como um grupo de revitalização religiosa zaidita chamado “Juventude Crente” (Believing Youth / Shabab al-Mu’min), fundado no início dos anos 1990 em Saada para combater a influência salafista/wahhabita sunita saudita e a marginalização dos zaidis. Hussein Badreddin al-Houthi radicalizou e politizou o grupo no final dos anos 1990/início dos 2000.
Guerras de Saada (2004–2010): Entre 2004 e 2010, os houthis travaram seis guerras contra o governo de Ali Abdullah Saleh. Eles conseguiram controlar de fato a maior parte da província de Saada e partes de áreas vizinhas (Amran, Hajjah, Al Jawf), mas nunca expandiram significativamente além do norte montanhoso e nunca ameaçaram tomar o controle nacional. Eram uma insurgência regional, não um governo.
Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

