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Citação falsa de general iraniano sobre armas nucleares se espalhou e Bibi usou

Citação falsa de general iraniano sobre armas nucleares se espalhou de conta indiana no X até discurso de Netanyahu em apenas 8 horas. Isto é um estudo de caso mostrando que não se pode utilizar narrativas das mídias sociais, principalmente de fontes não identificáveis e não confiáveis sem um processo de checagem.

Na imagem, a primeira publicação, hoje tarjada como fake news tinha uma imagem muito ruim feita por IA com a foto Brig. Gen. Ahmad Vahidi e um cogumelo atômico. A marca na testa dele foi exagerada pela IA e é comum em muçulmanos muito devotos. Ela é causada por décadas de encostar a testa no solo, no tapete, durante as orações diárias.

Uma declaração inventada atribuída a um general iraniano — na qual ele aparentemente admitia que Teerã estava desenvolvendo armas nucleares e continuaria a fazê-lo — circulou rapidamente em agosto de 2026. Em menos de oito horas, a frase passou de contas anônimas nas redes sociais para um discurso do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Segundo reportagem do *The New York Times*, não há nenhuma evidência de que o general Ahmad Vahidi, comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), tenha feito tal declaração. A citação falsa parecia ter sido criada para reforçar a tese de longa data de Netanyahu de que o Irã está determinado a obter a bomba atômica.

O Irã afirma oficialmente que seu programa nuclear é exclusivamente civil. No entanto, o país enriqueceu urânio a níveis muito superiores aos necessários para usos pacíficos e tem dificultado a fiscalização de inspetores internacionais. Israel, por sua vez, acusa Teerã de dar passos em direção à militarização do programa.

Como a desinformação se espalhou

A frase falsa apareceu pela primeira vez em 5 de agosto em uma conta indiana no X (antigo Twitter) com dezenas de milhares de seguidores. O texto dizia, com erros de ortografia:

There will be no talk on Enriched Urenium or nuclear weapons, as long as US & Israel are owning nuclear weapons, we will keep working on it for national security. If they dispose, we will dispose.” (Não vão existir conversar sobre urânio enriquecido ou armas nucleares enquanto EUA e Israel tiverem armas nucleares, nós vamos continuar trabalhando na nossa segurança nacional. Se eles “descartarem” (as armas nucleares), nós vamos descartar)

Logo em seguida, a conta indiana “Ritika” republicou a citação. Organizações de checagem de fatos, como a Bodkim, observaram que essa conta já havia disseminado informações sem fonte no passado e frequentemente ecoava posicionamentos de Netanyahu.

A frase ganhou força quando foi compartilhada pela conta “Mossad Commentary” (que não tem qualquer ligação com o Mossad). Gedaliah Blum, responsável pela página, disse ao New York Times que acreditava que a declaração vinha de uma entrevista de rádio, mas não conseguiu lembrar a fonte. Ele afirmou, porém, que pessoalmente acredita que o Irã busca armas nucleares.

Em seguida, a conta em inglês do canal pró-Netanyahu Channel 14 amplificou a citação, apresentando-a como a primeira vez em que um oficial iraniano admitia publicamente a busca por armas nucleares. Yair Netanyahu, filho do primeiro-ministro, também compartilhou o conteúdo, citando o Channel 14 como fonte.

Diversos veículos passaram a repetir a informação, muitos atribuindo-a a “relatórios israelenses”. No entanto, vários meios de comunicação israelenses — incluindo o próprio *Times of Israel* — se recusaram a publicar a declaração por questionar sua veracidade.

Uso no discurso oficial

Poucas horas depois, Netanyahu citou a frase em um discurso durante uma cerimônia de Estado no Monte Herzl, em Jerusalém:

“Hoje ouvimos o comandante da Guarda Revolucionária declarar a intenção do Irã de continuar a desenvolver armas nucleares. Ele disse ‘continuar’. Como primeiro-ministro de Israel, eu também estou determinado a continuar. A continuar impedindo que o façam.”

Logo após o discurso, o embaixador dos EUA nas Nações Unidas, Mike Waltz, também compartilhou a citação, mas depois apagou a postagem. A informação ainda chegou a ser divulgada em contas oficiais israelenses em persa e alcançou veículos internacionais, incluindo a Fox News.

A organização de checagem Bodkim destacou que o caso ilustra bem o fenômeno do “relato circular”: a informação falsa circula entre contas e veículos até que a fonte original desaparece, e a citação passa a parecer mais confiável por ter sido repetida por veículos maiores.

Darren L. Linvill, do Media Forensics Hub da Universidade Clemson, classificou o episódio como um clássico exemplo de “lavagem de narrativa” ou “lavagem de informação”. Segundo ele, a citação foi claramente elaborada para dificultar as negociações de paz então em curso.

O caso demonstra a velocidade com que desinformação pode subir da periferia das redes sociais até o mais alto nível do discurso político oficial.

E desinformação faz parte integral da Guerra Híbrida.

Por José Roitberg – jornalista e pesquisador

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.