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Descendente da família Dreyfus é promovido em Israel

Orgulho nacional: descendente da família Dreyfus é elevado à patente de tenente-coronel.

Uriel Dreyfus, juiz da reserva e descendente de Alfred Dreyfus, recebeu a promoção ao cargo de tenente-coronel nas Forças de Defesa de Israel (IDF).

Ele foi um dos sete juízes da reserva que ascenderam ao posto de tenente-coronel.

Uriel Dreyfus fez um discurso tocante, relacionando a humilhação de seu antepassado, Alfred Dreyfus, com sua nova posição nas Forças de Defesa de Israel.

Trechos da fala do Coronel Dreyfus

“Estou aqui hoje com o peso de duas histórias se encontrando em um único momento. Uma é a história da minha família – o nome ‘Dreyfus,’ que por gerações simbolizou injustiça, antissemitismo e a tentativa de quebrar o espírito de um oficial judeu. A segunda é a história que escrevemos e continuamos a escrever desde 7 de outubro.”

“Há mais de 130 anos, em uma praça em Paris, as insígnias foram arrancadas do uniforme do Capitão Alfred Dreyfus. Em uma cerimônia humilhante diante de multidões, sua espada foi quebrada. Ele foi acusado de traição que não cometeu, unicamente porque era judeu. Ele foi enviado para a Ilha do Diabo, um lugar onde a esperança estava destinada a morrer. Mas ele não quebrou. Ele continuou a clamar sua inocência.”

“Quando entrei no centro de indução das IDF como um jovem soldado, carreguei essa memória comigo. Eu entendi que cada patente que eu receberia, cada passo que eu daria no exército, representaria uma forma de correção histórica. Hoje, ao receber o posto de Tenente-Coronel, sinto que as patentes arrancadas em desgraça estão agora sendo costuradas de volta com orgulho nos uniformes oliva das Forças de Defesa de Israel, dentro de um sistema encarregado de administrar a justiça no estado judeu soberano.”

Dreyfus fez uma comparação entre os desafios do passado e do presente, afirmando: “Alfred Dreyfus enfrentou sozinho um sistema bem oleado de mentiras. Hoje, o Estado de Israel enfrenta múltiplas frentes, enfrentando ameaças de mísseis, terrorismo e falsidades na arena internacional. As divisas que nós, os juízes, recebemos hoje são a resposta e a prova de que não estamos mais sozinhos. Não estamos indefesos.”

Refletindo sobre os anos recentes, ele acrescentou: “Os últimos anos foram alguns dos mais difíceis de nossas vidas. Perdemos amigos, subordinados e comandantes. Dentro desta dor, devemos lembrar a determinação daqueles que vieram antes de nós. Vamos suportar e prevalecer porque não temos outro país e nenhum outro exército.”

“Nosso papel no sistema judicial é frequentemente invisível aos olhos do público, mas forma a espinha dorsal da democracia israelense. Meus colegas e eu protegemos um lugar onde as palavras são mais fortes que balas, e onde a verdade é a autoridade suprema. Este é o nosso dever profissional e a nossa missão moral.”

Relembre sobre o capitão Dreyfus

A primeira coisa que se precisa saber é que apesar de todas as pessoas, fora da França, pronunciarem o nome como “drêifûs”, a pronuncia correta em francês é “draifí”

Alfred Dreyfus (1859–1935) foi um oficial francês da artilharia, de origem judaica, cuja condenação injusta por traição em 1894 gerou um dos maiores escândalos políticos, judiciais e sociais da Terceira República Francesa, conhecido como Caso Dreyfus (ou L’Affaire).

Origem e o Caso Dreyfus

Nascido em 9 de outubro de 1859 em Mulhouse (Alsácia), em uma família (de origem alemã) judaica abastada de fabricantes têxteis, Dreyfus mudou-se para Paris após a Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. Formou-se na prestigiada École Polytechnique (1880), tornou-se capitão de artilharia em 1889 e, em 1893, era o único oficial judeu no Estado-Maior do Exército francês.

Em setembro de 1894, um documento (o bordereau) com segredos militares franceses foi interceptado. Sem provas concretas e motivados por antissemitismo, oficiais do alto comando acusaram Dreyfus: judeu de família alemã colaborando com os alemães. Ele foi preso em 15 de outubro de 1894, julgado em tribunal militar fechado, condenado à prisão perpétua por traição em 22 de dezembro e degradado publicamente na École Militaire em janeiro de 1895, com a espada quebrada e gritos antissemitas da multidão. Em abril de 1895, foi enviado para a isolada e cruel Ilha do Diabo (Devil’s Island), na Guiana Francesa, onde passou quase cinco anos em condições desumanas.

O verdadeiro traidor era o major Ferdinand Walsin Esterhazy. Em 1896, o tenente-coronel Georges Picquart, chefe da contraespionagem, descobriu as evidências contra Esterhazy, mas o Exército encobriu o caso. O escândalo explodiu com o artigo J’Accuse…! de Émile Zola (1898), publicado por Georges Clemenceau, que denunciou a farsa. A França dividiu-se entre dreyfusards (defensores da justiça, republicanos, intelectuais) e antidreyfusards (nacionalistas, monarquistas e antissemitas).

Em 1899, novo julgamento em Rennes condenou Dreyfus novamente (com “circunstâncias atenuantes”), mas ele foi perdoado pelo presidente. Somente em 1906 a Corte de Cassação o absolveu plenamente, declarando-o inocente. Dreyfus foi reintegrado ao Exército como major e condecorado com a Legião de Honra.

Participação na Primeira Guerra Mundial

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, Dreyfus, então na reserva e com mais de 50 anos, foi mobilizado como major de artilharia. Serviu durante toda a guerra, principalmente comandando uma coluna de suprimento de munições na retaguarda do Front Ocidental, mas também em ações de frente. Participou notadamente da Batalha de Verdun (1916) e da Segunda Batalha do Aisne (Chemin des Dames, 1917). Em 1918, foi promovido a tenente-coronel. Seu filho Pierre também serviu como oficial de artilharia.

Após a guerra, Dreyfus retirou-se. Morreu em Paris em 12 de julho de 1935. Foi promovido postumamente a brigadeiro-general. O Exército francês só declarou publicamente sua inocência em 1995.

O Caso Dreyfus simboliza a luta contra o antissemitismo, o erro judiciário e a defesa dos valores republicanos. Teve enorme impacto cultural, político (contribuiu para a separação entre Igreja e Estado em 1905) e internacional.

Cobrindo o caso Dreyfus, como jornalista o austríaco Theodor Herzl imaginou que o sionismo político, a criação de um Estado Para os Judeus (não de um Estado Judeu), seria a solução para o antissemitismo. Ele imaginava e isto está escrito do livro dele Der JudenStatt (Juden é judeus, no plural), que os países antissemitas iriam ajudar a construção do Estado dos Judeus, e enviar seus judeus para lá. Ou seja, Herzl estava errado nas duas premissas. É só olharmos hoje pela janela.

Por José Roitberg  – jornalista e pesquisador.

Imagem: montagem de foto oficial do Coronel Dreyfus no evento desta segunda-feira e gravura de época da mídia francesa mostrando a degradação do Capitão Dreyfus

José Roitberg

José Roitberg é um jornalista brasileiro e pesquisador em história, formado em Filosofia do Ensino sobre o Holocausto, pelo Yad Vashem de Jerusalém.